O “homi” está de volta

October 31st, 2012 § 4 comments § permalink

Algo que eu estava esperando há um bom tempo era a volta do Jonas Galvez ao mundo dos blogueiros vivos. O Galvez sempre foi uma referência para mim em experimentação e no seu vasto conhecimento de sutilezas de aplicações Web e eu estava sentindo saudades dos seus longos textos debulhando os mais diversos assuntos–como o que ele acabou de escrever sobre a linguagem Go.

Se você não está lendo o que ele escreve, recomendo que comece agora. Ah, e ele também está disponível para contratação.

De Amapá a Porto Alegre

October 26th, 2012 § 1 comment § permalink

Nos primeiros dias em que cheguei em Porto Alegre, eu estava fazendo amplo uso dos serviços de táxi da cidade para me locomover–comparados com São Paulo, as tarifas são muito decentes e eu aproveitei para conhecer mais a cidade. Conseqüentemente, acabei conversando com uma boa quantidade de taxistas e conhecendo muitas histórias de vida no mínimo curiosas.

Uma delas, que me deixou particularmente impressionado, foi a de um porto-alegrense que agora está de volta à cidade depois de mais de três décadas fora.

Nascido e criado em Porto Alegre, esse taxista–cujo nome infelizmente nem lembrei de pegar, envolvido na conversa–deixou a cidade exatamente no ano em que eu nasci, partindo para o norte do Brasil em busca de fazer dinheiro para estabelecer uma vida.

Acabou parando no Amapá, no garimpo, onde ficou por mais de dez anos. Como toda corrida em Porto Alegre é relativamente curta, dado o tamanho da cidade, ele só teve tempo de traçar linhas rápidas sobre seus tempos lá, que não foram muito bons pelo que pude sentir em sua voz. Muito sofrimento, muita luta para conseguir um punhado de dinheiro para poder voltar. A impressão foi que ele quase ficou preso lá, tendo sorte em conseguir sair antes que fosse tarde demais. Quando os filho nasceram, ele decidiu que não queria criá-los no norte, juntou o que tinha e foi para a Bahia, tentar a vida em uma cidade pequena.

– Depois de dez anos — ele disse — eu ainda não tinha pego malária nenhuma vez. Achei que era a mão de Deus me dizendo para sair.

Depois de uma curta temporada na Bahia, menos do que um ano, voltou para Porto Alegre. Os filhos já estavam ficando grandes e ele queria ficar perto da família. E queria também realizar um sonho antigo: fazer faculdade e virar professor.

Quando chegou a época do filho mais velho fazer vestibular, ele foi fazer também. Apoio moral de um lado, desafio do outro–o filho teve que correr atrás do coroa para conseguir entrar também. Ele queria Pedagogia para si mesmo; deixou ao filho a decisão de escolher seu próprio caminho que, no final das contas, acabou sendo o quente mercado de computação.

Passou e conseguiu uma bolsa para os estudos.

– Não dá não — continuou. — Com o preço das faculdades atualmente, e a vida de taxista, só uma bolsa para dar conta mesmo.

Infelizmente, Pedagogia não formou turma para a bolsa naquele ano. Tentou Letras, mas não formou turma também. Sem desistir, foi para Educação Física. Ele gargalha:

– Os guris acham graça do coroa correndo com eles no pátio, mas eu não dou mole não. Consigo acompanhar sem problemas.

Agora já está no segundo ano. Mais um e ele começa a lecionar. Não sabe ainda o que vai fazer com o táxi–talvez alugar–mas já sabe com o que vai trabalhar.

– Crianças especiais. Comecei um trabalho esse ano e pretendo continuar. Aliás, logo depois de formar já tenho uma pós-graduação engatilhada no assunto. Meu tema vai ser como inserir crianças especiais em um contexto normal. Nada mal, não é?

Nada mal mesmo para um ex-garimpeiro que vem perseguindo seu sonho há mais tempo do que eu estou vivo. E eu fico pensando em todas as coisas que eu ainda não fiz, em todos os sonhos que deixei pelo meio do caminho. Sempre há tempo.

Luzes, tarde da noite

October 15th, 2012 § 2 comments § permalink

São Paulo é uma cidade que luta contra si mesma. Há uma permanente dualidade em suas ruas e avenidas que aflora sempre que se olha para ela de um ângulo diferente.

Talvez a maior expressão dessa dualidade esteja na sua beleza à noite. Ninguém jamais disse ter se apaixonado por São Paulo durante o dia—mas suas noites, suas noites são encantadores como as de qualquer cidade européia, cheias dessa antiguidade serena que toma conta da alma antes que se perceba.

Os dias em São Paulo são sempre iguais. O cinza onipresente de um céu enojado com seu próprio conteúdo delineia-se em camadas que se refletem nos prédios de vidro, banhando a cidade com um ar de morbidez. Olhos irritados pelo ar seco vêem a cidade indistinta por trás de lágrimas. Durante o dia, mesmo o verde lançado em grandes pinceladas pela cidade parece constrito—vistas à distância, essas fiadas formam ilhas sitiadas no meio das cores fuliginosas que afligem São Paulo.

Ainda assim, quando o crepúsculo começa a colorir o horizonte de vermelho, acompanhando a chegada das primeiras estrelas que, resistentes, desafiam o firmamento poluído, quando o sol desce enorme para o oeste, correndo em direção ao rubro que se revela por trás das silhuetas dos prédios e esses começam a trocar as luzes refletidas por sua própria iluminação&#8212, a cidade se transforma.

São Paulo à noite é bela, única a cada novo cair do sol, cheia de flamejantes torres que pontuam o alto da cidade, repleta de prédios iluminados que montam padrões abstrados em suas ruas, cruzada por avenidas profusas de uma luminosidade amarelada onde mesmo os túneis parece conduzir a lugares secretos no labirintino corpo da cidade—locais, que se encontrados, produzem uma segunda cidade, uma São Paulo para as almas que a desejam, que a atravessam somente quando dormem quase todos que estão sob seus cuidados. A cidade se rende à sua própria luz, descortinando infinitas histórias em suas veias incandescentes.

E quando chega a madrugada, a cidade transcende. As avenidas se quedam silenciosas entre bolsões brilhantes de atividade e—como no mais claro dos dias—você pode olhar para o horizonte e ver a cidade se estender rumo a um infinito próprio, um infinito contido em fronteiras parcamente definidas.

Até que o sol começa a colorir o leste mais um vez com um novo rubor, mais suave, prenunciando um novo momento de transformação. Nesse últimos momentos, a cidade resplandence, frenética, como se quisesse se apegar aos seus últimos minutos de vida noturna.

Aqueles que se importam, se despedem dessa outra cidade nesse momento, esperando, como sempre, pela próxima noite.

Bens versus serviços: uma visão econômica

October 11th, 2012 § 0 comments § permalink

O texto do Steven Pearlstein sobre os impactos que o barateamento de bens de consumo tem sobre o preço de serviços–Why cheaper computers lead to higher tuition–é leitura fundamental para qualquer pessoa que queira entender um pouco mais sobre as falhas do discurso econômico dos políticos de hoje. Aliás, não só dos políticos mas basicamente de qualquer comentarista econômico.

Embora seja escrito do ponto de vista do debate americano sobre saúde público, os princípio–derivados dos trabalhos de um outro economista–são válidos para qualquer economia e é fácil observar os efeitos do mesmo no ambiente brasileiro atual, especialmente face ao crescimento da assim chamada classe média.

The State of JavaScript

October 9th, 2012 § 5 comments § permalink

Escrevi sobre o JavaScript como a próxima grande linguagem lá em 2007. Algumas das minhas razões foram um tanto ou quanto ingênuas, mas acho que o núcleo do argumento continua válido e acabou se provando. E como sempre, se você olhar palestras como The State of JavaScript, o futuro foi mais interessante do que o imaginado.

Bons tempos para uma linguagem nova.

WIP

October 5th, 2012 § 0 comments § permalink

E foi em um dia qualquer de verão
Em que tomei do meu pincel e, sereno,
De frente me coloquei para a tela,

Buscando de uma fonte segura—decerto
Tão velha quanto a humana existência
Que professamos nesse pedaço de chão—

Um respirar que me guiasse ao umbral
De uma revelação transcendente de desejo
E da própria vontade de aqui se fazer;

E me encontrei destituído de vigor,
Esgotado e consumido até a medula,
Aterrado pela súbita ausência de ser.

Lentamente, com o mesmo esforço cansado
Que um dia daria cautela a estes ossos,
Fiz do pincel minha própria declaração.

E nessa tela vazia, tomada então à força,
Revelou-se o mundo em espectros outros,
Abertos ao meu cuidadoso inspecionar.

Quando do meu trabalho em progresso
Tirei o que de completo sabia estar lá,
Cuspi de volta o que da fonte não bebera.

10 anos!

October 2nd, 2012 § 10 comments § permalink

Já ia quase me esquecendo mas hoje esse blog completa dez anos.

Em retrospecto, eu não imaginava o quanto de coisas interessantes esse canto meu traria. Muitos amigos feitos nesses longos anos (alguns que demorei quase uma década para encontrar pessoalmente), muitas conversas convertidas do virtual para o real, muito aprendizado, e até mesmo algum cruzeiros vindo de coisas que nasceram aqui. Acho que não poderia esperar mais de algum nascido tão sem pretensões.

Honestamente, não sei quantas pessoas ainda acompanham meus raros textos, mas a todos leitores presentes e passados: obrigado pela companhia!

Among Others

October 1st, 2012 § 0 comments § permalink

Eu sigo a Jo Walton há um bom tempo através dos seus textos no site da Tor mas não tinha lido quase nada dela embora tivesse gostado muito de Farthing, meu primeiro contato com seus trabalhos.

Among Others seguiu um padrão similar. Li vários comentários elogiando o livro mas só depois de ler uma resenha do Tim Bray e ver a indicação ao Hugo (que o livro, inclusive, venceu recentemente) é que decidi comprá-lo.

Among Others é um Bildungsroman, a estória de Mori, uma garota que pode ver fadas, fazer mágica, e que adora ficção científica e fantasia mais do que qualquer outra coisa no mundo.

É também a história de uma garota problemática, que teve que usar a magia para impedir que sua mãe, uma bruxa, dominasse o mundo, perdendo sua irmã gêmea no processo, e terminando em um odioso internato contra a sua vontade. Isso é o que você descobre, ainda que de forma vaga, nas primeiras páginas do livro.

Tudo isso é contado na forma de um diário que ela escreve durante um período que abrange cerca de dois anos no final dos anos setenta e início dos anos oitenta.

A partir dessa descrição é fácil perceber que o livro de Walton não é uma fantasia urbana comum. Jo Walton consegue criar um mundo convincente, em que a magia é sempre possível e sempre negável; e consegue também colocar o leitor em um estado de espírito em que ele ou ela está sempre questionando se o que estão lendo é real ou apenas ilusões de uma garota que sofreu eventos traumáticos e tinha que entender que a experiência de um ponto de vista fantástico.

Claro, eu vou deixar para você decidir qual interpretação faz mais sentido, mas o que posso dizer de antemão que Jo Walton termina o livro com tanta graça que você dificilmente se importará. O livro é belo e sugestivo e satisfatório–mesmo que, como freqüentemente acontece com os livros que você gosta, acabe muito cedo.

O mundo de Mori é crível porque não é exagerado ou detalhado. Mistérios existem, mas eles existem de um modo com o qual é possível se relacionar confortavelmente já que são vistos, por nós, apenas com o canto dos olhos.

Para os amantes de ficção científica e fantasia, o livro tem um apelo adicional porque também se ambienta em torno do amor de Mori por esses gêneros. Ela é uma ávida leitora e muitos dos pontos mais interessantes do livro são descritos no contexto de algum clássico que ela está lendo (clássicos geralmente do nosso ponto de vista dado o ano em que a estória acontece) e suas reações (ou das pessoas do clube de SF&F do qual ela faz parte). É a carta de amor de Jo Walton ao gênero, tecida de tal maneira na narrativa que não atrapalha em nada o passo da mesma.

Sentirei falta da estória Mori e a visitarei mais vezes em tempo. Como ela diria, foi maravilhamento puro–embora, por vezes, visto através de lágrimas.

Zarpar

September 29th, 2012 § 0 comments § permalink

Sentei-me à margem
De um belo e límpido rio–
Na pele, uma doce brisa.
E me perguntei:
Do que eu preciso?

Olhei ao longo do rio,
E não vi o outro lado,
Oculto por chuva e névoa.
E me perguntei:
O que quero levar?

De madeira fiz uma jangada,
Para o rio atravessar–
Só uma trouxa trouxe comigo.
E me perguntei:
Para onde estou indo?

Para o outro lado zarpei,
Esperando um dia chegar;
No ar, o cheiro de um novo dia.
E me perguntei:
O que vou encontrar?

Deslumbramento

September 27th, 2012 § 4 comments § permalink

Ele não sabe o que quer fazer da vida—já passou dos trinta e ainda não se decidiu. E—quer saber?—isso não importa porque o que realmente vale a pena é que se ele persistir em olhar o mundo através de olhos diferentes, haverá um momento em que a própria existência se reafirmará e tudo começará a fazer sentido.

Ou antes, ele sabe o que quer fazer da vida. Acontece que o que ele quer não é o que os outros querem, não é o que faz sentido para todos. O que os outros esperam não é o que deixa suas veias em brasa e seus olhos em fogo. Ele está confuso mas isso também é passageiro, como todas as outras coisas. Ele chegou até aqui e isso significa que ele nunca mais se quedará perdido—a sua própria ausência de concessões o tornou invulnerável para o canto da sereia que lhe tenta afastar de tudo o que há mais sagrado no mundo. Olhos de criança, olhos de vidente, ele olha para um mundo que não consegue lhe olhar nos olhos.

Isso foi o que ele tentou explicar para os outros, há muito tempo. Hoje, ele não tenta mais. Não porque desistiu, mas porque não vale a pena. Como alguém poderia entender o deslumbramento que há no puro ato de criação sem qualquer transigência exceto aquela que ele carrega consigo mesmo? Como seria vagamente possível que alguém percebesse que esse ato é nascido da necessidade e da dor, mas que a necessidade é tão doce quanto a liberdade e que a dor não é mais do que a vontade de expor ao universo a sua alma e perceber que ninguém conseguirá ver os mesmos caminhos que ele vê?

Mas, se ele não tenta mais isso não quer dizer que ele parou. Isso não seria possível. O seu próprio deslumbramento exige que ele codifique a si mesmo em uma exibição própria diante do olhar minucioso do mundo. Essa é a sua dor exposta novamente—e, se não pode ser lida, pode pelo menos ser intuída e essa intuição incomoda tanto que a única reposta aberta do mundo é devolver uma falta de decisão, multiplicada e suja por uma perene incompreensão.

Mas ele não se importa. Um jardim de caminhos bifurcados se abre diante dele, um livro de mudanças no qual ele pode escolher dentre todas as infinitas chances aquelas que se traduzem em um futuro desimpedido da banalidade das decisões do outros. Atrás de cada árvore, nesse jardim, se escondem deslumbramentos ainda maiores.