O porquê

February 5th, 2003 § 2 comments

Eu tinha nove anos então, e cursava a terceira série em uma pequena escola estadual no bairro onde eu morava. Eu era um garoto muito curioso que adorava ler e estudar. Meus dias eram divididos entre a escola e os livros que eu conseguia emprestar da biblioteca. A bibliotecária muitas vezes não acreditava que eu podia ler tão rápido e relutava em permitir que eu levasse novos livros.

Nesse ano em particular, minha professora de português era Dª Natividade, uma mulher pequena e muito bonita, com cabelos louros que chegavam aos ombros e um sorriso aberto que falava do seu amor por seus alunos. Na época, ela estava grávida, o que a tornava muito emotiva e a levava a chorar sentada em sua mesa. Nesses momentos, meus colegas e eu permanecíamos imóveis, não ousando respirar, até que seu choro parasse. Era amendrontador ver um adulto chorar. Mas não importava; nós a amávamos. Ela era gentil e se importava conosco.

Ela encorajava a classe a escrever. Eu sei que era parte dos seus deveres de professora, mas ela fazia daquilo algo especial. Corrigia nossos erros e às vezes selecionava alguns dos textos para ler em voz alta na classe. Para os escolhidos, este acontecimento era glorioso.

Um dia, ela nos pediu que fízessemos uma redação. Não especificou o assunto, ao contrário do que fazia usualmente. Podendo deixar a imaginação livre, escrevi sobre uma fazenda. A estória contava como o fazendeiro estava com problemas por causa de pássaros que insistiam em comer o seu grão, e como ele conseguiu resolver o seu problema. O texto era infantil e simples, mas ela o elogiou e disse que tinha adorado a estória. Eu acreditei nela. A folha original, com as observações escritas por ela ainda estão guardadas em minha casa.

Eu nunca mais a vi depois que o ano terminou. Mas muito do aprendi com ela ainda é parte da minha vida hoje. Ela nutriu minhas habilidades nascentes, e me ajudou a desenvolver o domínio do idioma. Aquelas primeiras experiências com a escrita se tornaram as primeiras de muitas outras idas aos reinos da literatura.

Enquanto eu progredia pelos anos escolares, desenvolvi um gosto maior pela escrita. De maneira alguma eu era um escritor prolífico; apenas tinha prazer em trilhar caminhos que antes me eram desconhecidos. Escrevi poemas sobre a luta das peças em um jogo de xadrez. Teci contos sobre corajosas tripulações de naves estelares que arriscavam suas vidas a explorar a galáxia. Falei da minha fé, e de qualquer outra coisa que me interessava no monento. Minha própria vida tornou-se uma crônica em diários pessoais escritos ao longo dos anos. Pensamentos, esperanças e medos eram derramados sobre o papel. E eu lia. Sempre admirando aqueles que escreviam melhor do que jamais poderei fazer.

O tempo passou. Tive que esquecer a faculdade por causa da situação financeira da minha família. Um emprego era muito mais importante, e assim coloquei as minhas habilidades técnicas para bom uso. O ato de escrever foi relegado para um lugar inferior.Nunca abandonei a leitura, mas a escrita praticamente desapareceu da minha vida. Mais tempo se passou. Eu me casei, e mudei de emprego.

No decorrer do primeiro ano no novo trabalho, eu descobri os weblogs. Tropecei em alguns que falavam de tecnologia, e encontrei a agregação. Ler esses diários virtuais se tornou um prazer diário. Eu me impressionava com a qualidade do que algumas pessoas escreviam. Suas vozes despertaram o desejo há longo esquecido de escrever novamente. Poucos meses depois eu tinha o meu próprio espaço. A maior parte do tempo eu simplesmente comentava sobre assuntos que chamavam minha atenção. Algumas vezes, até arrisquei alguma coisa original.

No meio tempo, encontrei colegas de trabalho que compartilhavam o mesmo gosto pela leitura. Dois se tornaram amigos. Um deles tinha sido músico profissional e agora trabalhava para ganhar a vida em uma profissão não relacionada. O outro, embora trabalhando em seu campo de escolha, escrevia poesia em suas horas vagas, e esperava poder publicá-las um dia.

Um desses dois amigos — o músico — também tinha seu weblog; havia me precedido por poucos meses na blogosfera. Nossa amizade cresceu e ele sugeriu um projeto em conjunto. Convidamos o nosso amigo em comum, e criamos um weblog compartilhado onde podíamos simplesmente jogar nossos pensamentos. Foi uma experiência incrível. O weblog se tornou um canal para nosso desejo de escrever. Esses amigos encorajaram o meu retorno à poesia, e me ajudaram em meus primeiros passos cambaleantes de volta à nobre arte. Ríamos de nossos erros, e compartilhávamos nossos sonhos. Escrever era parte da minha vida outra vez.

Eu tenho um weblog porque amo escrever. E também porque amo ler o que outros escrevem. Eu admiro a paixão de Shelley Powers quando ela fala sobre as coisas que realmente a tocam. Admiro a eloqüência de Jonathon Delacour quando ele expressa aquilo que importa para ele na vida. Admiro Dorothea Salo quando ela compartilha pequenos pontos de sua vida que mostram o ser humano por trás das palavras. E admiro Doc Searls quando ele conta as reações de seu filho de seis anos sobre a tragédia do Columbia.

Admiro as outras mais de sessenta pessoas em meu blogroll que vezes sem conta me forneceram valiosos insights sobre coisas do meu interesse e que compartilharam suas vidas em seus textos. Não concordo com tudo que dizem, mas aprendi a respeitá-los mesmo sem conhecê-las pessoalmente. E também admiro os incontáveis escritores lá fora, nos vastos espaços da Web, que colocam sua alma naquilo que escrevem.

A Web está cheia de vida. E a vida conta a si mesma. Por isso eu escrevo. Ainda estou encontrando minha voz, mas posso ver para onde estou indo. Alguns sonhos há muito perdidos são reais novamente. Pode não importar para mais ninguém, mas não estou preocupado com isso. Eu encontrei parte de minha vida outra vez.

§ 2 Responses to O porquê"

  • ventonegro says:

    Obrigado por estar aí do lado, embora eu ache que nem sempre haja o que ler lá no meu blog. Mas como você, eu gosto de escrever e gosto bastante de ler o que os outros escrevem. E então aquele blog lá vai andando, às vezes aos tropeços, mas sempre em frente…

  • Ronaldo says:

    Eu sou sincero em dizer que aprecio o que você escreve. Eu acredito que estas histórias do cotidiano compartilhadas são algumas das melhores coisas que os blogs no deram. E as diferenças entre as visões do mundo servem para enriquecer ainda mais as relações criadas, virtuais ou não. Continue o bom trabalho :)

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