Estresse

February 9th, 2003 § 3 comments

Há alguns dias atrás, James Robertson comentou brevemente sobre o estresse sofrido por programadores em função da escolha imprópria de tecnologia em projetos — no caso específico citado, Visual C.

É fácil me identificar com a situação desses programadores. Embora em nunca tenha experimentado um nível tão alto de estresse por esse motivo, devo confessar que em alguns dias a frustração com a tecnologia usada no meu trabalho chega quase na estratosfera.

Como eu trabalho em uma empresa que é Microsoft da cabeça aos pés, a plataforma escolhida para a vasta maioria das aplicações é uma combinação de ASP e SQL Server. Na verdade, essa escolha deve-se em parte pelas condições do mercado brasileiro. Quase todas as empresas na área de Internet usam as mesmas tecnologias e a mentalidade de que nunca alguém foi mandado embora por escolher produtos Microsoft é quase onipresente. Mas que isso não muda a frustração, não muda.

No meu caso, parte do problema é que eu fiquei meio mal acustomado. No meu emprego anterior, eu era o encarregado das escolhas tecnológicas. Como sempre fui fã da Borland, a decisão óbvia foi usar o Delphi. E foi realmente o que fiz nos três anos em que estive lá para quase todos projetos. As poucas exceções foram alguns trabalhos baseados no Site Server Commerce Edition da Microsoft para algumas lojas virtuais — experiência que, diga-se de passagem, espero nunca precisar repetir.

Como o Delphi é maduro tanto no ambiente quanto na linguagem, o tempo com o mesmo me deixou um tanto que impaciente para quaisquer outros soluções inferiores. Na época eu utilizava bibliotecas que eu mesmo desenvolvera para várias tarefas comuns, principalmente no que tangia à camada de dados da aplicação. Criei desde de bibliotecas simples com classes lightweight para acesso gerenciado ao banco de dados a frameworks completos de persistência com geração automática de SQL, serialização XML e modularização da interface de usuário a partir de transformações XSLT.

Depois desse tipo de experiência, usar ASP é um retrocesso. O máximo que pode-se fazer em projetos é separar alguma da funcionalidade em bibliotecas reusáveis. E mesmo assim, essas bibliotecas costumam não passar de um bando de funções. Claro, pode-se usar objetos COM, mas, por incrível que pareça, existem certos clientes que não querem ou não permitem o uso de módulos desse tipo em seus servidores. A maioria, na verdade, não quer saber. Quando dá para convencer o cliente, normalmente o Visual Basic tem que ser usado, o que não fica muito longe do ASP.

Obviamente, tudo isso implica em tempos de desenvolvimento muito maiores do que os que poderiam ser obtidos com outras ferramentas. E como há consciência disso, a frustração só aumenta. Tanto por saber que as coisas poderia ser feitas de uma maneira melhor, quando por haver preocupação sobre o prazo. E quando a data de entrega começa a ser aproximar, todos estes fatores acabam colaborando para que o estresse notado surja.

Pelo menos a tendência do mercado hoje no Brasil parece estar se encaminhando para .NET. Se é para ser Microsoft, que seja pelo menos em uma plataforma suportando metodologias modernas de desenvolvimento. A frustração talvez continue, mas provavelmente será menor.

A opção óbvia para resolver o problema no lado do programador, que seria tentar mudar a cultura da empresa, é um esforço inglório que garantidamente resultará em mais frustração e estresse. Além disso, há poucas chances de seja bem sucedido. Quanto às empresas, a inércia que impede a procura de soluções efetivas para esse tipo de problemas é proporcional ao tamanho e ao coeficiente dilbertiano das mesmas.

Assim, temo dizer que não vejo uma solução simples. Ironicamente, o próprio mercado é que normalmente impede que as empresas percebam a perda resultante da situação. O caso citado por Robertson, em a empresa percebeu seu erro e tomou as decisões apropriadas, é uma raridade. Assim, são os próprios programadores que devem procurar desenvolver mecanismos de proteção para evitar essa dissabores. A frustração provavelmente vai sempre existir, mas o estresse pode ser evitado. Afinal de contas, eu só digo o óbvio quando falo que não vale a pena de maneira alguma acabar consigo mesmo por causa do erro de outros.

§ 3 Responses to Estresse"

  • O engraçado é que já ouvi muita gente dizendo que queria usar solução baseada em ASP por ser mais barata. (“ASP vem de graça no IIS”)

    Aumentar o custo porque vai demorar mais para fazer aquela mesma coisa em ASP nem pensar, né? É o tal do custo total…

  • Ronaldo says:

    É essa falta de visão que me mata :) Eu simplesmente não consigo entender alguns tipos de raciocínios que existem na nossa área.

  • Juliana says:

    O quê o estresse pode causar para as pessoas?

    O quê vc pensar sobre o estresse ?

    O estresse pode causa morte para as pessoas?

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