Blogs e 1984: alguma coisa a ver?

February 13th, 2003 § 2 comments

Navegando ao acaso pela Internet ontem, dei com o seguinte texto escrito em um blog:

O legal dos blogs é que todo mundo assume a mesma profissão do personagem central do livro 1984, que trabalha como “manipulador do passado”, criando e apagando fatos acontecidos.

Você vai num blog hoje e lê uma coisa. Daqui dois dias, aquilo não está mais lá, como se nunca tivesse estado.

É uma idéia interessante: fatos que só existem por instantes, frases desditas.

Na minha opinião, essa é uma analogia que não se harmoniza nem com o livro 1984, nem com a fênomeno dos blogs tal como este se manifesta hoje. Mesmo considerando a última frase como que desviando a analogia para fatos pessoais — em oposição a fatos compatilhados em uma escala maior, seja geográfica ou socialmente — ainda assim a idéia expressa é incorreta.

1984, de George Orwell, é um livro muito conhecido. Eu até diria que é o livro de ficção científica mais conhecido, e certamente a distopia mais popularizada. Um dos “personagens” centrais do livro, o Grande Irmão (Big Brother), é um dos poucos seres literários a alcançarem um lugar no coletivo mental da humanidade. O personagem central a que o texto citado se refere é Winston Smith, membro do Partido Exterior e empregado do Ministério da Verdade, local onde ele passa os seus dias a reescrever o passado sob as ordens do IngSoc (Socialismo Inglês, que é o Partido como um todo). Um dos exemplos dessa reescrita ocorre quando o Partido anuncia que a ração de chocolates será aumentada para 20g e Smith deve apagar todas as referências à antiga ração de 30g existentes em qualquer tipo de mídia.

Considerando o exemplo acima, é fácil perceber porque a idéia apresentanda, não possui mérito. A própria natureza dos blogs e serviços relacionados tende a criar relações mais fortes entre eventos reportados ao redor do mundo preservando não só a realidade dos acontecimentos mas também as reações pessoais e a cadeias de análises, comentários e discussões que surjem sobre os mesmos.

Um exemplo real disso foi a renúncia do senador americano Trent Lott há algum tempo atrás por causa de algumas declarações impensadas de teor racista. Quando a própria mídia organizada já havia começado a ignorar essas declarações e suas implicações como notícia velha, alguns dos blogueiros mais influentes da Web começaram a botar a boca no mundo e não só a questionar as idiotices ditas pelo senador como também a levantar mais informações sobre ele. As repercussões e discussões sobre o assunto foram consideradas mais tarde como tendo parte importante em manter o assunto à tona e levar Lott à renúncia.

Um blog, como forma de expressão pessoal, nega o alvo central do Partido imaginado por Orwell, que é controlar a população. É fácil ver isso no recente bloqueio ao serviço Blogspot por parte do governo chinês. Como foi comentado na época em que bloqueio foi iniciado, a intenção velada do mesmo era impedir a contaminação do povo chinês pelas idéias ocidentais de livre pensamento. Para o governo chinês, a discussão livre de idéias que os blogs trazem representa um perigo claro. Também na época, algumas pessoas se ofereceram para espelhar os blogs chineses, ou seja, para preservar os fatos ocorridos, não apagá-los. Caso um estado hoje chegasse à situação descrita em 1984 é óbvio que blogs seriam algumas das formas de expressão que já teriam desaparecido há tempos.

Mesmo aqueles fatos pessoais do tipo “Onde você estava quando [insira um evento importante aqui] aconteceu” representam uma agregação que pode ser preservada e recuperada depois. Da mesma forma, o espalhamento gradual de determinados pontos de vista também representam uma salvaguarda contra o desaparecimento da informação. Assim, de qualquer ângulo que se olhe, os blogs constituem, na verdade, o contrário da manipulação descrita por Orwell.

É interessante notar que a própria existência do conceito de permalinks nega a volatilidade dos fatos sugerida no texto mencionado. Permalinks existem justamente para que fatos referenciados possam sobreviver em um universo de informação em constante movimento.

Um último ponto a ser considerado é a recuperação de fatos passados. Os arquivos de blogs representam um verdadeiro arsenal de informações pesquisáveis que servem para validar acontecimentos atuais ou distorções eventuais do que já aconteceu. É claro que existem ocasiões em que determinadas coisas desaparecem de um blog específico. Mas, se os fatos foram reportados em larga escala, a própria natureza da Web se encarrega de manter as associações mesmo que alguns elos eventuais sejam quebrados. Os pedaços que faltam podem ser encontrados em outros locais. Existe, é claro, um pequeno espaço para a manipulação, mas esta tende a ser automaticamente corrigida pela própria dispersão dos fatos.

Resumindo, ao contrário do que o autor do texto citado afirma, os blogs são na verdade um sistema relativamente eficiente de preservação do relato dos acontecimentos. Obviamente, não é um sistema perfeito porque estamos lidando com seres humanos aqui. Mas de forma alguma é um sistema que se presta à manipulação de fatos da maneira constante e metódica que é descrita em livro 1984.

§ 2 Responses to Blogs e 1984: alguma coisa a ver?"

  • Livingstone says:

    Adorei teu texto… mas convenhamos, as coisas somem dos registros, às vezes…

    Dica de livro. Admirável mundo novo – aldous huxley. Se não leu, leia, coisa muito boa mesmo.

  • Ronaldo says:

    As coisas somem sim. Mas o ponto do meu texto é justamente dizer que isso dificilmente caracteriza-se como a manipulação apresentando em 1984, especialmente no que concerne a informações aparecendo em múltiplos blogs.

    Ironicamente, o link original para o qual meu blog apontava foi movido para outro lugar. Embora corrigido agora, é engraçado que muita gente deve ter lido esse texto e imaginado o que aconteceu com o texto original. Mas também, para mostrar como a questão de preservação funciona, o contexto original foi preservado aqui.

    Pessoalmente eu acho 1984 mais perturbador que Admirável Mundo Novo, embora este último, sendo mais recente, tenha elementos mais atuais que também são muito relevantes para o futuro.

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