Metodologias, cultura corporativa e satisfação

March 18th, 2003 § 1 comment

Navegando hoje, achei um texto interessante de Peter Lindberg sobre a colisão entre a cultura corporativa e a metodologia Extreme Programming. O texto nota que, a menos que haja um trabalho no sentido de incorporar a metodologia à cultura de uma empresa, ela provavelmente falhará na prática. Lindberg também cita David Putman sobre a existência de dois tipos de culturas corporativas: as emergentes, em que os desenvolvedores e gerência colaboram para a mesma e as forçadas, em que a gerência impõe regras metodológicas sobre os desenvolvedores. Obviamente, como Putman diz, uma cultura emergente é necessária para a adoção da metodologia Extreme Programming.

Na verdade, eu acho que esse é uma asserção válida para qualquer metodologia. Qualquer mudança dentro de uma empresa vai contra a inércia natural da mesma e, a não ser que seja apoiada em todos os níveis, não pode ser efetuada. Eu já experimentei isso na pele dezenas de vezes em todas as empresas pelas quais passei. Já cansei de “convencer” superiores das vantagens de uma determinada prática para ver a implantação da mesma boicotada ou ignorada por causa de falta de vontade, visão ou compreensão. Claro que é necessário que o próprio grupo de desenvolvedores abrace a nova tecnologia, como Lindberg também mostra no texto. Esse é um problema que pode ocorrer, mas na minha experiência é muito mais raro do que o equivalente nos níveis hierárquicos superiores. Desenvolvedores são naturalmente propensos a adquirir e experimentar novidades.

Culturas que negam esses fatos tendem a criar ambientes menos inovadores e que alienam os programadores. Isso eleva a rotatividade da equipe, diminuindo a produção e aumentando os custos. Esse é um cenário muito comum aqui em Belo Horizonte, onde eu moro e trabalho. Ironicamente, as mesmas metodologias que poderiam dar uma vantagem competitiva a essas empresas são excluídas da consideração das gerências por causa de ignorância ou medo. Mesmo a situação de recessão do mercado não tem sido suficiente para salvar algumas empresas.

Como programador, um dos meus objetivos é favorecer esse tipo de mudança. Para programar melhor e obter maior satisfação nisso, eu preciso de um ambiente adequado. E para criar esse ambiente adequado, eu preciso mudar a cultura da empresa. É uma tarefa complicada, onde o sucesso é raro. Porém, algumas das melhores recordações da minha carreira são justamentes os pontos em que contribuí para a melhoria dos processo internos da empresa onde trabalhava com um aumento resultante na qualidade geral dos mesmos.

Os fatos acima mostram um problema conhecido: a produtividade de uma empresa depende grandemente da qualidade e satisfação dos seus programadores que, por sua vez, depende de uma cultura adequada que, por sua vez, depende da aceitação, por parte dos níveis hierárquicos superiores, de valores muitas vezes erroneamente percebidos como contrários ao mercado. Esse é um problema complexo e sua resolução depende de um balanço delicado entre os diversos setores de uma empresa. Entretanto, esse balanço é claramente percebido em empresas vistas com bons locais de trabalho. Assim, é um problema passível de solução. E se solucionado, um chave para o sucesso de qualquer empresa.

§ One Response to Metodologias, cultura corporativa e satisfação

What's this?

You are currently reading Metodologias, cultura corporativa e satisfação at Superfície Reflexiva.

meta