Um Cântico para Leibowitz

Um Cântico para Leibowitz, de Walter Miller, é um desses livros que deixam o leitor com uma sensação de desconforto após a leitura. Essa sensação vem da maneira como o autor lida com o tema principal de sua obra, trazendo às claras um dos maiores medos da nossa geração: o apocalipse que pode ser precipitado pelo poderio nuclear desenfreado.

A estória começa seiscentos anos após uma catástrofe nuclear global que praticamente varreu a humanidade da face da Terra. Após o desastre, que inundou o planeta em um dilúvio de fogo, os sobreviventes procuram destruir não só o conhecimento científico, julgado por eles um dos causadores da hecatombe, como também eliminar os homens responsáveis por esse conhecimento, resultando no mergulho da humanidade em uma era de barbárie e primitivismo. Apesar disso, nos anos de escuridão que se seguem à tragédia, um ordem de monges, cujo padroeiro é São Leibowitz, procura preservar alguns restos da antiga ciência através da Memorabilia: textos científicos que ninguém mais compreende copiados incontáveis vezes à espera de que alguém surja para integrá-los em um novo Renascimento. Em um mar de desconhecimento, esses monges permanecem como um pequeno barco procurando uma distante costa iluminada. O tempo passa e a humanidade retorna ao progresso graças, em parte, ao esforço desses homens. Nessa nova era, será a memória do dilúvio nuclear suficiente para impedir um novo desastre?

O livro, que venceu o Hugo em 1961 e provavelmente teria vencido o Nebula também se este existisse na época, causa um impressão profunda pela sua riqueza e complexidade. Miller tece uma trama sutil que envolve o leitor e o deixa em um estado de permanente descrença quanto aos motivos humanos. Essa é, em si, a maior qualidade do livro. Longe de ser uma apologia ao progresso, o livro é um questionamento sobre o valores por trás dos avanços tecnológicos da humanidade, embora, de maneira alguma, seja contrário à ciência ou ao desenvolvimento da mesma. Assim, o autor chama a atenção para as questões realmente importantes do crescimento da saber científico.

Desde a primeira vez em que o li, há muitos anos atrás, Um Cântico para Leibowitz ganhou um lugar entre os meus livros preferidos de ficção científica. É um dos livros que eu procuro reler de tempos em tempos pela sua qualidade literária, e é certamente digno de figurar em qualquer relação ou biblioteca dos melhores livros de ficção científica de todos os tempos. Em suma, totalmente recomendado.

10 Comments

  1. Posted June 22, 2003 at 7:08 pm | Permalink

    Muito bom mesmo, o modo como você compilou a estória.
    Concordo completamente com teus argumentos e aproveito para parabenizar pelo teu web-trabalho.
    Este livro é muito especial para mim, pois marca uma fase de deslumbre pela Ciência e pela Sci-Fi.
    Além do que, me foi indicado por um amigo muito querido.
    Abraço

  2. Posted June 22, 2003 at 10:20 pm | Permalink

    Muito obrigado pela visita, pelo comentário e pelo elogio também. :-) É bom saber que o blog tem conseguido o seu propósito de criar discussão, informar e promover o conhecimento por mais limitados que sejam meus esforços.

    Eu adoro leitura e fico sempre contente também em encontrar outras pessoas que tem a mesma paixão. Esse livro também é muito especial para mim e, como eu disso, um dos que vivo relendo sem que ele pare de causar o sentimento de encanto que causou na primeira vez. A propósito, se você tiver dicas e comentários sobre quaisquer livros, mesmo sobre os que eu não postei aqui, eu gostaria de ouví-los. Volte sempre! :-D

  3. Posted June 27, 2003 at 8:15 pm | Permalink

    Inspirativo livro, que nao somente encanta pela transparencia da possibilidade real e proxima, mas faz refletir pelo o que eh o aprendizado – aquele q temos e usamos ou aquele que nos enchem de informacoes q ao serem repassadas, jamais serao compreendidas pois nao fazem parte do processo evolucionario ao qual todos estamos sujeitos?
    Qual a mensagem q estamos deixando? com q pedras estamos deixando o caminho que passamos? por que queremos q os proximos facam igual a nos?
    ciencia a servico do humano ou humano a servico da ciencia?
    maravilhoso
    http://www.holon.kit.net
    http://www.comcienciaja.hpg.ig.com.br/index.htm

  4. Marcelo
    Posted August 2, 2003 at 2:48 pm | Permalink

    É um excelente livro. Recomendo a todos que gostam de boa leitura de ficcao e reflexao. Nao sei atualmente, mas quando o comprei só achava em sebos. Há alguns links na internet que disponibiliza o livro em formato digital para baixa-lo

  5. Posted August 3, 2003 at 11:18 am | Permalink

    Como eu não canso de dizer, esse livro é realmente leitura indispensável para qualquer fã. Eu comprei o meu em um sebo: novinho e por R$ 8,00. Não acreditei quando vi o preço. :-D

  6. Daniel
    Posted August 4, 2003 at 11:34 am | Permalink

    Excelente resumo. Um dos livros mais intrigantes e interessantes que já li. Obrigado por ter colocado essa página na net para que mais pessoas possam ter contato com essa obra!

  7. maria das merces apostolo
    Posted November 1, 2003 at 10:51 pm | Permalink

    sou professora de historia da escrita e historia do livro e esse livro é bibliografia obrigatótia no meu curso.
    parabéns pela sensibilidade

  8. Posted November 2, 2003 at 10:25 am | Permalink

    Obrigado. :-P

  9. Cristiano Moreira
    Posted November 16, 2003 at 1:31 pm | Permalink

    este livro, o li fazem 10 anos e não consigo esquecê-lo, agora leio o Admirável Mundo Novo de Huxley e percebo em ambos a voz apocalíptica.

  10. Aurélio
    Posted January 2, 2005 at 1:59 am | Permalink

    Penso que faltou citar uma da temáticas do livro que é a deturpação de textos científicos, dando-lhes conotação religiosa. Toda a síntese do livro é em torno dessa deturpação que nos leva à própria deturpação dos textos bíblicos. O que é científico e incompreensível para um leigo nesse míster, transforma-se em texto religioso. Imagine-se a 2005 anos atrás um tratado sôbre física nuclear ser traduzido e interpretado por um frade da época…Elétrons, Neutrons…seriam novos deuses?