Vida, ironia é seu nome

April 29th, 2003 § 4 comments

Meu interesse por política sempre foi pequeno. Desde que comecei a acompanhar as eleições, nos tempos idos da minha infância, o que mais me chamava a atenção não eram as promessas eleitorais, e sim as estatísticas pré- e pós-eleições. Eu sempre fui mais curioso quanto aos aspectos matemáticos do processo do que quanto aos seus aspectos político. Um outro interesse era recolher a maior quantidade possível de santinhos, que antigamente podiam ser usado como blocos de anotações por terem o verso em branco. Hoje em dia, nem para isso eles servem mais. Mas estou me perdendo. Voltando ao assunto, atualmente meu interesse continua pequeno. Como muitos outros brasileiros, eu discuto os assuntos, procuro acompanhar as grandes mudanças na medida do possível e tento votar corretamente, mas continuo não tendo muita curiosidade quanto aos detalhes infindáveis do panorama político nacional.

Assim, eu acompanhei mais ou menos as tentativas da esquerda de eleger um presidente ao longo das últimas décadas. E como a esquerda sempre foi bem ativa, não era possível deixar de notar a propaganda da mesma mesmo que eu não me interessasse muito em discutir os prós e contras de suas propostas. E, notando a propaganda, também foi fácil notar os mantras constantes repetidos na mesma como “Abaixo o governo neo-liberal escravo do FMI”, “Fora com FHC”, “Morte aos que estão vendendo o Brasil para os Estados Unidos”, e coisas similares. Essas frases sempre me causaram um certo divertimento já que eram apenas artifícios de manipulação da própria esquerda sobre sua massa seguidora ignorante. Não que a direita seja melhor, é claro; eu me divertia é com o entusiasmo com que as pessoas repetiam isso sem nem mesmo questionaram as coisas implícitas nessas afirmações.

O tempo passa e o Brasil elegeu um presidente de esquerda, após anos de tentativas. Embora esse fato não tenha sido uma surpresa, dadas as condições do país antes das eleições, eu ainda me espanto em ver como as pessoas esperam tanto que o governo Lula seja diferente. Tudo bem, ele ainda tenho quatro anos para provar se é diferente, mas os sinais não são muito animadores. As promessas de um salário mínimo de 1000 reais já estão há muito esquecidas, e as justificativas para um salário de apenas 240 são as mesmas que a esquerda criticava duramente nos outros governos. Embora seja claro que só um tolo acreditaria em tais promessas. (Falando nisso, eu acho que vou tentar entrar do programa Fome Zero. Do jeito que as coisas estão, isso pode representar a salvação do meu orçamento mensal.)

Então, vindo para o trabalho hoje, de ônibus, eu reparei na conversa entre o cobrador e um outro colega seu sentado em um banco ao lado. O cobrador estava mostrando ao colega um jornal do Sindicato dos Rodoviários que continha uma nota sobre o recente acordo entre o Sindicato e os patrões em relação ao aumento de salários dos funcionários do transporte urbano, que inclusive resultou em um insosso aumento na passagem dos ônibus aqui em Belo Horizonte. Eu não pude ver a matéria, embora estivesse logo atrás do segundo cobrador, mas uma frase maior se destacou na página: “Abaixo o governo Lula”. Não é possível deixar de reconhecer a ironia dessa frase. Singela, e colocada entre as outras informações do jornal, ela mostra que trilhamos um longo caminho para chegar até aqui, percorrendo um círculo completo na política brasileira. As ironias são realmente uma parte da vida.

Pois é, o tempo passa, mas como um velho sábio disse: “Não há nada de novo sob o sol. Tudo o que é, já foi. E tudo o que será, também já foi. Tudo é sem sentido”. O rei está morto, longa vida ao rei!

§ 4 Responses to Vida, ironia é seu nome"

  • O presidente do Brasil sempre vai ser um messias que salvará o país das trevas em 4 anos. Presidente não é técnico da seleção.

    Um dia as pessoas vão acordar que antes de depender de governo devem correr atrás e fazer elas mesmo.

  • Ronaldo says:

    Com certeza! :-) Eu acho que um dos méritos do governo Lula pode ser esse: mostrar que não existe governo que mude um país se os valores não são mudados. Mesmo assim, do jeito que as pessoas são crédulas, o que provavelmente acontecerá é um governo Lula falido culpando os governos anteriores pelo fracasso, como um certo casal está fazendo no Rio. :-)

  • 3DBLOGMAN says:

    Umbiguismo temporal… Este é diagnostico que faço da ideia que um governo é igual o outro.
    É claro que em nossos pequenos instantes de existencia não podemos ter visão mais ampla dos caminhos historia. Mas basta olhar um pouco mais ao longe para ver um governo não é igual ao outro. Getulio fez uma coisa, Juscelino foi prum outro lado, e os militares pro outro, e o Collor para outro. Pode ser que tenham sido bons ou ruins, NÃO SEI. Mas a historia não para. NÃO ESTAMOS EM LOOP!!

  • Ronaldo says:

    Hehe! :-) Depende do modo como você encara a coisa. No sentido micro, os governos seguramente são diferentes. Cada um tem o seu contexto, problema e ações. Agora, no contexto macro, seguramente a história se repete por que o ser humano tende a repetir os mesmos erros. A burocracia e a corrupção são auto-perpetuadoras. Veja Sarney e Antônio Carlos Magalhães, por exemplo.

    Obviamente, as correntes históricas não são constantes; porém, a ironia que eu mencione está no fato de que as pessoas não reconhecerem que uma nação tem o governo que merece, ou seja, o governo que ele faz, como o Cristiano colocou.

    Realmente não estamos em loop no sentido que você disse. Mas estamos, com certeza, repetindo os erros do passado. O que o Lula tem que fazer é reconhecer isso e corrigir a tendência até onde ela pode ser corrigida.

    Pelo menos é isso o que eu acho. :-)

What's this?

You are currently reading Vida, ironia é seu nome at Superfície Reflexiva.

meta