Netscape 4: hora de enterrá-lo

June 9th, 2003 § 14 comments

Esse mês marcou o aniversário de seis anos da versão 4.0 do Netscape Navigator, que saiu dos testes beta em junho de 1997. Essa versão, uma das mais usadas na história da Internet, marcou a tentativa da Netscape de recuperar o mercado que ela estava perdendo para o Internet Explorer, da Microsoft. Mesmo com a adição de vários padrões Web, o Netscape Navigator foi incapaz de fazer frente à versão 4.0 de seu concorrente que além de ser grátis também possuía um suporte nitidamente superior das mais novas tecnologias e formatos em uso na época. Para piorar a situação, a Netscape depois tomou a decisão fatídica de abrir o código de seu produto e criar uma nova versão do zero. O novo produto demorou anos para se materializar e então o dano já estava feito.

Apesar de sua derrota, o Netscape 4 continou em uso durante muitos anos e ainda hoje algumas empresas requerem que seus desenvolvedores suportem esse navegador. Essa é uma decisão que, na minha opinião, tem causado vários problemas na adoção dos padrões em algumas empresas. Um fato tem que ser reconhecido pelos desenvolvedores Web: o Netscape 4 está morto. Não é possível mais continuar usando um navegador com suporte terrível aos padrões da época e nenhum suporte aos padrões modernos.

Assim, quando seu cliente pedir que o Netscape 4 seja suportado (como eu já vi acontecer várias vezes na empresa em que eu trabalho) faça a ele e a você mesmo um favor: recuse polidamente e explique as razões. Você, seu cliente e os padrões Web certamente agradecerão mais tarde.

Na pior das hipóteses, se houver a exigência de suporte por parte do cliente, faça um compromisso para degradar o site graciosamente no Netscape 4. Este site, por exemplo, pode ser tranquilamente lido no Netscape 4, embora não exiba nenhum layout. Vamos dar descanso a um navegador que foi um dos maiores auxiliadores do crescimento da Internet, mas que passou de seus dias.

§ 14 Responses to Netscape 4: hora de enterrá-lo"

  • maratz says:

    ja o mozilla eh outro papo… :)

  • Ronaldo says:

    O Mozilla realmente é outro papo. É o meu navegador de escolha e os seus recursos e suporte aos padrões são realmente impressionantes.

  • Otávio says:

    Eu fico com o filho do monstro. Acho que como navegador, o Phoenix/Firebird faz o que promete. Tá, tem o Galeon tb …

    Ainda há o Opera que até hoje é só “um outro” navegador, mas é “um outro” que respeito. :)

    E para Netscape 4, @import para ele :)

  • Dennis says:

    E os estragos na rua dos Estados ?

  • Ronaldo says:

    Otávio,

    Eu estou experimentando com o Firebird também. Logo, logo pretendo dar uma olhada no Thunderbird para e-mail já que estou querendo parar de usar o Outlook Express. Eu nunca fui muito chegado no Opera por que ele nunca teve nada que fizesse diferença. Eu tenho instalado, mas é só para testes. Funciona bem, mas já existe um melhor. Quanto ao Netscape 4, você está totalmente certo! :-)

  • Ronaldo says:

    Dennis, confesso que não entendi o comentário…

  • Jeferson says:

    Vc defende o lado do developer. E o lado do user que precisa usar (ou até gosta) o NS4? 😉

    Eu concordo com você, mas depende do site. No caso de uma página pessoal, um user a menos não vai fazer diferença.

    Mas se for um site comercial, é importante ser navegável em todos os browsers. yahoo, amazon ou ebay abrem perfeitamente no NS4 (e acho que não é por acaso).

    Não fica bem para um site comercial e discriminar o user por causa do browser. É como ter uma loja e proibir o acesso a cadeira de rodas.

  • Dennis says:

    Jeferson, concordo contigo que os grandes portais/sites talvez ainda facam um esforco consideravel para manter a compatibilidade, na sei por quanto tempo, mas permita discordar de vc em um aspecto.

    Acredito que a metafora com a cadeira de rodas nao se aplica muito bem a browsers, mas se fosse para avancar com ela eu diria que nao haveria problemas em barrar o acesso a um determinado tipo de cadeira de rodas desde que voce desse ao usuario a opcao de trocar, de graca, por uma cadeira mais moderna. Eh esse o caso aqui.

    Acredito que o processo de nao-compatibilidade com NS4 e irreversivel e nao podemos segurar o progresso da web por causa disso.

    Entendo que muita gente tem uma relacao quase afetiva com este browser mas tambem deve ter gente que se sente assim em relacao ao Mosaic e outros ja esquecidos. Creio que esta na hora do NS4 descancar em paz e ser lembrado pelo que representou.

    Desculpem a falta de acentos. Problemas com meu teclado :-(

  • Ronaldo says:

    O Dennis já deu algumas razões e eu concorco com ele. Mesmo ignorando a questão da idade do Netscape 4 e sua base de usuários, o fato é que qualquer uso ou suporte do mesmo existe em detrimento dos padrões Web que, no final das contas, acaba prejudicando não só o desenvolvedor como o usuário também.

    Como o Dennis também comentou, a sua analogia não é válida. Ao contrário, tentar ou suportar o Netscape é como poder dar uma rampa ao um deficiente físico, mas dar uma escada no lugar. A falta de suporte as padrões Web no Netscape força os desenvolvedores a usar gambiarras que prejudicam o acesso ao site. Para perceber isso, é só acessar os sites que você citou em um navegador de modo texto como o Lynx ou o Links (você pode baixar os dois para o Windows). Você verá imediatamente que é impossível usar esses sites através de qualquer um desses navegadores porque eles não são acessíveis. Um usuário cego, tentanto navegar pelos mesmos com um navegador acoplado a um leitor de textos, ficaria totalmente desnorteado. O uso dos padrões permitiria compensar essas falhas.

    E aqui que entra o conceito de “degradar graciosamente”. Isso significa usar o máximo de recursos possíveis do navegador sem prejudicar a usabilidade e a acessibilidade. Tomando o meu site como exemplo, você notará que ele pode ser usado sem impedimento em qualquer navegador. É claro, existem falhas aqui e ali, mas o conteúdo está sempre acessível, incluindo os formulários. O site “degrada” de acordo com o navegador. Assim, no Mozilla, que é hoje o navegador mais conformante aos padrões, você vê o site com ele deve ser em termos visuais. No Opera, algumas coisas são perdidas pelo suporte parcial ao CSS 2. No Internet Explorer, vários itens visuais são perdidos por causa do suporte parcial ao CSS 1. No Netscape 4 e outros navegador textos nenhum elemento visual é renderizado. Entretanto, o conteúdo está sempre lá, plenamente acessível.

    Usar os padrões não significa ter um site feio ou com menos funcionalidades. Ao contrário, significa um site que faz um bom usos dos recursos oferecidos pela Web. Ignorar os padrões é que leva a sites com problemas que perdem usuários. Hoje temos visto exemplos de sites grandes que estão usando os padrões e dando aos usuários de qualquer natureza uma excelente experiência. É o caso do site da ESPN, por exemplo.

    Além disso, o uso de navegadores mais modernos beneficia o usuário final já que estes podem fazer mais uso de tecnologias modernas que enriquecem a experiência do usuário.

    Bem, é isso. 😀 Se você quiser, eu também posso dar algumas outras razões para não suportar mais o Netscape diretamente. A resposta ficou longo e eu espero que o tom não pareça rude. 😛 O seu comentário é muito bem vindo. Ter opiniões contrários é um excelente passo para a uma discussão mais aberta e mais esclarecedora. Assim, fique à vontade para continuar a discussão aqui no blog.

  • Jeferson says:

    (Ronaldo, uma pequena ressalva: me parece que a conotação que vc está dando a expressão “padrões da web” está incorreta. Afinal, uma humilde página usando puro HTML 3.2 também usando os “padrões da web”. :-) Deduzo que qdo vc fala “padrões da web” vc quer se referir ao XHTML.)

    Acho os argumentos pró-padrões [XHTML] bastante válidos. Entretanto, meu ponto de vista é mais pragmático. Se um cliente diz que “se até a amazon e ebay tratam com isonomia os poucos clientes que usam o NS4, por que o meu negócio deve discriminá-los?”. É um argumento bastante profissional e sólido, não? 😉

    Minha opinião se baseia no comportamento destes grandes sites. E são sites que levam a sério e investem em usabilidade. É importante levar isso em consideração quando antes de pensar em convencer o seu cliente de que o XHTML é o melhor caminho.

    Não sei dizer exatamente o motivo, mas os sites que citei são basicamente HTML 3.2. Algum razão há de existir para eles insistirem em usar [table]. 😉 E eu gostaria de saber. Talvez seja para não esquentar a cabeça com compatibilidade de browsers. Talvez seja simplesmente porque carrega mais rápido.

    Quando o amazon abandonar o HTML daí sim poderei concordar que o NS4 está morto.

    P.S. Sinto-me confortável para falar porque, além de usar o Mozilla, também sou um dos autores da tradução do Moz para o pt-BR. Portanto, talvez seja um dos maiores disseminadores do uso dos “padrões web” no Brasil. :-)

    http://www.openoffice.org.br/mozilla/

  • Ronaldo says:

    Jeferson, obrigado mais uma vez pela resposta. É um prazer ter uma boa discussão assim. :-)

    Quando eu falo em padrões Web, eu realmente tendo a colocar uma conotação mais específica na expressão referindo-me aos padrões mais novos. Entretanto, eu não excluo, de forma alguma, os padrões já superados por versões mais novas mas que ainda assim continuam válidos. Eu não discriminaria uma página HTML 3.2 — se a mesma fosse conformante. :-)

    Eu entendo o seu ponto de vista. Dependendo da situação eu seria bastante pragmático também. Eu acredito, entretanto, que é possível explicar para a maioria dos clientes por que o suporte ao Netscape 4 não é mais necessário ou vantajoso. Mas se houver uma exigência absoluta, eu não renegaria esse navegador. Por exemplo, há algum tempo atrás a empresa para qual eu trabalho fez uma proposta para uma intranet que usaria Netscape 4 sob o OS/2. Realmente cada caso é um caso. Entretanto, para sites públicos, eu acho cada vez mais difícil justificar um suporte completo ao Netscape 4 em detrimento de outros aspectos dos padrões Web.

    Quando ao Yahoo, Amazon e eBay, como eu já disse anteriormente, eles dificilmente são exemplos de boas práticas. Nenhum desses sites valida sob qualquer especificação (incluindo HTML 3.2) e eles não passam em nenhum teste de acessibilidade. Os sites do Yahoo e Amazon não têm nenhuma informação sobre qual a DTD que usam ou o conjunto de caracteres. No caso da eBay, o DOCTYPE está incorreto. E, como também mencionei anteriormente, se você tentar usar esses sites em condições mais extremas — por exemplo, leitores Braille ou sintetizadores de fala — você verá que eles se tornam completamente inúteis. Além disso, a experiência de outros sites de grande porte, como a ESPN citada no comentário anterior, mostra que é possível, sim, suportar os padrões, modernos ou não, sem perder a flexibilidade.

    Realmente pode haver uma razão séria para os sites acima ainda estarem usando a sopa de HTML que usam. Talvez os seus logs de acesso ainda mostrem que eles recebam uma parcela significativa de visitantes com o Netscape 4. Mas eu duvido. Eu acho que a razão mais provável é o costume de criar sites à maneira antiga. De qualquer forma, estamos entrando no terreno das especulação e não dá para tirar conclusões sérias sem conhecimento externo. Mas um fato continua a existir: esses sites podem ser refeitos com os padrões modernos e continuarem usáveis em navegadores mais antigos ou com menor suporte aos padrões. É justamente para isso que os padrões degradam graciosamente.

    Jeferson, em relação ao seu trabalho com o Mozilla, parabéns! Eu não quero de maneira alguma dar a idéia de que condeno sua opinião. A minha intenção é justamente ter a discussão que estamos tendo aqui. Espero não ter passado a impressão que sou rude. Eu sou bem veemente com as minhas opiniões, mas também aceito correções sem problema. 😛 Continue com o seu trabalho e saiba que respeito enormemente as pessoas que estão contribuindo para a evolução da Internet em um meio mais aberto e confiável. 😀

  • Jeferson,

    Também quero parabenizá-lo por seu trabalho voluntário em prol do Mozilla.

    Ainda estou de acordo com o Ronaldo e gostaria de acrescentar ao que ele disse minha discordância em relação a hipótese levantada em seu último comentário: “Talvez seja simplesmente porque carrega mais rápido.” referindo-se às [tables].

    Quero registrar aqui que em minhas experiências com XHTML 1.0 sem usar tabelas, as páginas criadas são renderizadas bem mais rápido pelos browsers mais modernos do que suas similares estruturadas em tabelas aninhadas. Vide o trabalho do Elcio e o Diego do site http://www.tableless.com.br.

    Note que na coluna da direita eles têm um comparativo de performance entre páginas criadas com tabelas e sem.

    Compartilho também da opinião do Ronaldo em relação ao bom nível desta discussão. E vamos em frente porque é assim que contruímos conhecimento.

  • “Eu nunca fui muito chegado no Opera por que ele nunca teve nada que fizesse diferença. Eu tenho instalado, mas é só para testes. Funciona bem, mas já existe um melhor. Quanto ao Netscape 4, você está totalmente certo! Postado por Ronaldo em 12 de Junho de 2003, 00:27”

    O botão do Opera que desliga a CSS e ainda mostra a estrutura da página é uma coisa que faz *muita* diferença para ensinar e aprender Folha de Estilos. Como também a opção de apresentar a página em várias folhas de estilo alternativas (recurso que existe também no Konkeror).

    Agora, uma coisa que todo o mundo esqueçe: Tim Berners-Lee pensou em um *editor* HTML, não apenas browser. Até hoje, nenhum produto chegou perto do AOLpress, nesta funcionalidade. Você vê a página e edita na mesma tela. Assim é que deveriam ser as coisas na Web.

  • Ronaldo says:

    Sobre o Opera, o Mozilla tem a mesma funcionalidade. Além disso, existem bookmarklets ou extensões para o Mozilla e Explorer que também são capazes de apresentar a estrutura da página. Por isso o Opera sempre fica um pouco atrás na minha opinião. Sua vantagem real, na minha opinião, é o tamanho. Menor até que o Mozilla Firebird.

    Agora, você está totalmente correto quanto à edição. Nenhum navegador hoje atende à idéia inicial de Berners-Lee e eu duvido que isso acontecerá em um futuro próximo. A cultura Internet mudou tanto que as pessoas simplesmente não pensam em HTML dessa maneira. A única coisa próxima a isso atualmente são os wikis e extensões para a anotação de páginas, e mesmo assim estes são muito limitados. Eu não preciso nem comentar sobre o Composer no Mozilla que, além de ser só local, deixa muito a desejar no HTML gerado.

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