O futuro dos navegadores Web

June 17th, 2003 § 9 comments

As duas últimas semanas trouxeram novas interessantes para o mercado dos navegadores. Com duas decisões que chocaram a comunidade de desenvolvedores e usuários Web mais antenados, a Microsoft anunciou que está descontinuando os seus navegadores. Primeiro a companhia confirmou que o Internet Explorer para Windows não será mais desenvolvido como um produto separado e se transformará em um mero componente do sistema operacional, com atualizações dependentes deste último. Depois a companhia também corroborou que o Internet Explorer para o Macintosh deixará de existir em virtude do desenvolvimento do Sarafi, o navegador produzido pela próprio Apple.

Na minha opinião, esses dois anúncios marcam um ponto de mudança na Internet tal como ela existe hoje. Há alguns anos atrás a Netscape, por causa de práticas ilícitas por parte da Microsoft e por causa de suas próprias decisões erradas, perdeu o mercado dos navegadores para o Internet Explorer. O resultado foi uma estagnação, por algum tempo, no desenvolvimento de bons navegadores. O Mozilla demorou quatro anos para chegar à maturidade com uma versão 1.0 que podia realmente ser utilizada. Nesse meio tempo o Internet Explorer foi pouco desenvolvido e os seus problemas com a implementação dos padrões só se acumularam. Para se ter uma idéia, o suporte ao modelo de posicionamento CSS nesse navegador está totalmente incorreto desde a versão 4.0, lançada há seis anos atrás. A decisão da Microsoft de descontinuar seus navegadores implica em pelos menos mais quatro anos de estagnação no mercado Windows. A próxima versão desse sistema operacional está sendo planejada para 2005. Se sair no cronograma — o que é bem improvável dado o histórico da Microsoft — ele estará em uso amplo somente por volta de 2007. Até lá, o único navegador da empresa disponível para Windows será a versão 6 SP 1 do Internet Explorer. Ou seja, quatro anos ou mais sem nenhuma mudança no suporte a XHTML, o sucessor do HTML, e CSS, cuja especificação 3 está vindo em breve e sem qualquer adição de novos padrões.

Eu realmente não posso entender as razões reais por trás da decisão. Segundo pessoas com conhecimento interno do assunto, a Microsoft já havia tomado a mesma há cerca de um ano e estava esperando somente a resolução de dois problemas: o fim do processo por monopólio movido contra ela pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos e um acordo com a AOL. Ambos problemas estão fechados agora e a decisão veio finalmente à tona. Aparentemente, a Microsoft se sente suficientemente segura no mercado de navegadores para ignorar a necessidade de atualizações e produtos separados e acha que o Windows será suficiente para bancar isso. Pior, talvez ela acredite que a Web de hoje está morta. Qualquer que seja o motivo, ele é incompreensível — pelo menos por enquanto.

De qualquer forma, essa mudança é uma grande oportunidade para que o mercado de navegadores evolua e se torne competitivo mais vez. A evolução do Mozilla é visível e esse navegador é um dos melhores da atualidade, tanto para usuários comuns como para usuários avançados. O recente lançamento do Mozilla Firebird — uma versão mais leve do Mozilla, mas sem perder poder e flexibilidade — mostra que o projeto está alcançando a maturidade como produto e já é um sério competidor no espaço. O suporte aos padrões e as facilidades do mesmo estão levando muitas pessoas a adotarem-no como navegador padrão. Alguns sites, inclusive, já registram 30% ou mais de seus acesso como vindos de pessoas usando esse navegador.

Da mesma forma, a Apple, com o lançamento do Safari, também deu um impulso interessante ao mercado. O Safari é baseado no KHTML, um mecanismo de renderização livre, usado principalmente no Linux. Isso implica que mudanças nesse mecanismo, feitas pela Apple, serão devolvidas à comunidade, ajudando a melhorar outros navegadores baseados no KHTML. O resultado disso já pode ser visto na decisão dos criadores do OmniWeb, outro navegador para o Macintosh, de substituir o renderizador HTML do mesmo pelo KHTML.

O Opera também é um navegador que pode ser dar bem nessa história. Como ele é muito leve e tem um bom suporte aos padrões, além de ter recursos bem interessantes, ele pode acabar tendo uma adoção maior quando as pessoas perceberem que o Internet Explorer não está mudando.

Obviamente, a maioria dos usuários não está preocupada com o navegador que usa. Pelo contrário, eles apenas seguem usando o padrão do seu sistema operacional — primariamente o Windows, é claro. Isso implica que um grande parte dos usuários também não se dará conta do que a morte do Internet Explorer significa e não vai ser diretamente afetada. Por outro lado, empresas e organizações que tendem a padronizar em um navegador por questões de suporte e desenvolvimento verão cada vez mais interesse em uma solução alternativa. O Mozilla, nessa área, tem um grande potencial para se destacar já que, mais que um navegador, é também uma plataforma de desenvolvimento para serviços Web.

Assim, seja lá o que está para acontecer, estamos caminhando para tempos interessantes. Talvez as guerras de navegadores retornem mas de uma forma diferente. A Internet está muito mudada do que era quando essa guerra aconteceu. Um novo conflito pode, na verdade, se tornar algo positivo, com navegadores competindo pela maior e melhor implementação de padrões e não por formatos proprietários. Isso, sim, seria algo muito bom. Parafraseando erradamente um certo ditador, eu digo: Que milhares de novas versões de navegadores floresçam!

§ 9 Responses to O futuro dos navegadores Web"

  • Dennis says:

    Interessante Ronaldo, eu tenho duas opiniões distintas, e contraditórias, sobre a Microsoft.

    Uma delas é racional e pragmática e me diz que isso deve ser uma estratégia maior do que estamos enxergando por enquanto pra aniquilar definitivamente seus concorrentes e dominar o mundo (já não dominam ?!).

    A outra é absolutamente intuitiva e infundada, mas é uma voz que não cala já a algum tempo. Ela me diz que um dia Bill Gates vai acordar de extremo bom humor e dizer: “Agora chega, já ganhei mais dinheiro do que sonhei, já cheguei mais longe do que podia imaginar e me dei por satisfeito.” Daí ele desmembra a empresa, vende as partes para a concorrência, doa uma grana pra caridade e vai pra Las Vegas viver anônimo.

    Sei lá, divagações a parte, penso e espero, que talvez seja a hora e a vez do Mozilla.

  • Ronaldo says:

    Você pode estar certo quanto à primeira alternativa — quem sabe? A Microsoft já surpreendeu no passado, tomando o mercado das mãos da Netscape, e pode surpreender de novo. O que me deixa inculcado é pensar em qual pode ser a razão do abandono, já que a Microsoft ainda é dona do mercado. Tudo bem que em alguns sites os acesso com Mozilla superam os do IE, mas isso não é válido para a Web como um todo. Parece me puro orgulho e falta de consideração com os usuários — coisas que, afinal de contas, a Microsoft já é mestra em exibir.

    Sobre a segunda alternativa, Deus te ouça. 😀

    Quanto ao mais, espero que o Mozilla ganhe mais e mais usuários. Como a vinda do Mozilla Firebird o nosso trabalho de evangelização pró-padrões ficou bem mais fácil e eu espero boas novas para o futuro.

  • Futuro dos Browsers

    Ainda lá no Superfície Reflexiva, há uma excelente análise para o futuro dos Navegadores Web, principalmente agora que a Microsoft anunciou que o Internet Explorer 6 sp1 foi o último browser lançado por ela, que agora em diante, navegar na internet ser…

  • Dennis says:

    Lendo a íntegra do diálogo lá do TechNet no site da Microsoft, eu confesso que tive uma impressão um pouco diferente. Acho que estamos fazendo “muito barulho por nada”.

    Pelo que eu entendi do Rob Franco quando ele diz “IE will continue to evolve, but there will be no future standalone installations” creio que a única mudança que podemos experimentar será na forma de distribuição do sistema.

    Sendo que trata-se de um browser que SÓ roda em windows qual seria a utilidade de manter uma “standalone installation” sendo que ele está irremediavelmente integrado ao sistema operacional e o Windows Update (WU) deve dar conta de baixar e instalar futuros updates. Ninguém precisa de uma standalone installation para sistemas operacionais que não disponham do WU!

    Se eu entendi o recado, é o seguinte: “Versões do Windows mais antigas ficarão com o IE desatualizado e isso é mal, portanto atualize seus sistemas se quiser continuar a navegar pela internet com alguma segurança.”

    Lembra do tal plano “A” para conquistar ainda mais mercado ? Taí, eles vão forçar os usuários de Windows antigos a fazerem logo seus updates. Matei a charada ?!

  • Ronaldo says:

    Na verdade, quando eu me referi à ausência de evoluções na plataforma Windows pelo próximos anos, eu estava justamente pensando no fato de que a maioria dos usuários não se preocupa em atualizar seus sistemas e, portanto, não receberão as atualizações do Internet Explorer mesmo que elas sejam distribuídas via Windows Update. Se eu não me engano, o Windows Update está desabilitado por padrão em versões mais antigas no Windows. Considerando que o mercado ainda é dominado pelo Windows 98, isso complica ainda mais a situação. Além disso, nós não sabemos quão profunda será a futura integração do Internet Explorer com o Windows. Pode ser que versões mais antigas não possam ser atualizadas para a nova versão mesmo via Windows Update por causa das famosas incompatibilidades da Microsoft.

    Assim, na minha opinião, a sua análise está essencialmente correta. A mensagem que a Microsoft parece estar passando é a da necessidade de versões mais novas do Windows para usar os novos recursos que surgirão eventualmente na Internet. O que eu não entendo, nessa história toda, é por que isso faria alguma diferença, já que os planos para levar os consumidores para novas versões do Windows dificilmente serão afetados pelo Internet Explorer. O Office tem muito mais força nessa área.

    O jeito, como sempre, é esperar para ver.

  • Pelo menos para Webdesigner, o Opera é um must pelo recurso de permitir desativar o estilo da página (ou desativarseletivamente certas características do estilo) ou apresentar qualquer estilo alternativo que a página tenha. O Konkeror do KDE também tem este recurso.

  • Ronaldo says:

    Na verdade, eu não comentei sobre o Opera nesse sentido por que o Mozilla possui o mesmo recurso. Além disso, existem também bookmarklets que funcionam tanto no Mozilla como no Opera e Internet Explorer que permitem esse tipo de funcionalidade.

  • D!G says:

    Salve Amigos !
    Tb estou usando o Mozilla 1.4 e estou muito feliz. Tão feliz que aproveitei e troquei o Outlook que tava me chateando pelo cliente de email q veio no pacote.
    Estou quase a 1 semana usando e só tenho q elogiar o produto. Apenas 2 defeitos até agora: a página de ediçao do http://www.bloger.com.BR não abre direito, sendo imposivel postar algo por ali usando o Mozilla. O mesmo problema não ocorre no blogger.com .
    O outro problema é que ele parou, de uma hora para outra, de carregar a página de estilos de um determinado blog. Nao sei pq mas nao carrega de jeito nenhum.

  • Ronaldo says:

    Que bom que suas experiências estão sendo legais. O Mozilla é realmente o melhor navegador existente hoje. Na minha opinião, uma das melhores características dele é a extensibilidade através de pacotes independentes. Isso vale qualquer probleminha eventual. Eu ainda não uso o cliente de e-mail por uma questão de preguiça: preciso importar vários megabytes de arquivos e ainda não tive ânimo suficiente para a tarefa.

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