1 = 0

July 24th, 2003 § 4 comments

O Dennis escreveu outro dia uma poesia binária. Eu li a poesia e acabei ficando inspirado o suficiente para escrever um conto sobre um motivo similar, que está abaixo. Opiniões são muito bem-vindas.

1 = 0

Josimar era um daqueles professores chatos que estão sempre atazanando a vida de seus alunos com teorias malucas sobre a matéria que ensinam — no caso dele, a matemática.

Não contente em impingir abstrusos teoremas sobre seus alunos, Josimar também tinha o costume de parar no meio da aula, fosse qual fosse o assunto que estivesse ensinando, para começar uma longa digressão sobre algum ponto complexo da matéria. Os alunos suportavam calados o suplício até que o sinal de fim de aula tocasse e eles pudessem sair correndo da sala deixando Josimar a falar com as paredes. O professor parecia não se importar e ninguém nunca entendeu também por que os diretores da escola permitiam esse seu comportamento.

Acontece que Josimar também era interessado por computadores. No laboratório da escola, ele era visto até altas horas da noite experimentando com suas mais desvairadas conjecturas. Usando programas que ele mesmo construía, o professor elaborava gráficos e simulações que rodavam noite adentro em busca de respostas para questões que só ele entendia. Sua reputação era tal que nem os alunos mais fascinados por computadores chegavam perto do laboratório quando Josimar estava lá.

E foi da união do seu amor pelos computadores e de sua propensão por hipóteses sem nexo que nasceu a sua mais louca idéia. Em um belo e calorento dia de verão, durante uma das suas aulas, Josimar explicava aos alunos de terceiro ano as sutilezas das derivadas — sem muito sucesso, inclusive, já que a maior parte deles estava distraída com o prospecto de passar algum tempo na piscina da escola depois da aula. Quando faltavam alguns minutos para o final da aula, Josimar parou completamente de falar. Seus alunos, acostumados com a sua estranheza, continuaram a cochilar ou conversar. Depois de ficar em silêncio por alguns minutos, Josimar pronunciou então a frase fatídica:

— Vocês não vão acreditar, mas eu descobri um fato surpreendente nesse momento. Aliás, o que descobri vai mudar totalmente a matemática como a conhecemos. Eu descobri que posso provar que um é igual a zero!

Não é necessário dizer que os alunos — os que ainda estavam despertos nessa hora — caíram na gargalhada. Os outros alunos, retirados de seus devaneios particulares pela barulhada, começaram a rir também, mesmo sem entender a razão. Nesse momento, o sinal tocou. Ainda gargalhando os alunos saíram para o corredor.

A frase de Josimar foi o assunto da semana. Mesmo para o professor maluco, pensar que se pudesse provar que um fosse igual a zero era um disparate dos maiores. O consenso era que Josimar enlouquecera de vez. Depois disso, qualquer aluno que o encontrava pelo corredor ostentava um pequeno sorriso de mofa.

Para Josimar isso não fez a menor diferença. Agora que ele encontrara o seu grande chamado, sua vida ganhara um novo rumo. Todo seu tempo livre era gasto no laboratório de informática, criando programas para provar sua grande teoria. Impressionantemente, suas aulas melhoraram — ele agora terminava todas em ponto, sem digressões e explicando bem o assunto.

O tempo passou e o assunto foi meio esquecido. Josimar era inofensivo, e ninguém se importava com o fato de que ele queria provar algo impossível. Desde que suas aulas fossem dadas corretamente, nem mesmo os diretores pareciam ligar para suas esquisitices.

Três anos depois de ter feito seu anúncio, Josimar entrou em uma sala e declarou que havia finalmente concluído o programa que o ajudaria a provar sua grande teoria. O programa rodaria continuamente, em um máquina que ele havia separado para esse fim, e um dia — embora ele mesmo não soubesse dizer quando — anunciaria se a teoria estava correta ou não.

— Será um grande dia para a ciência quando o programa terminar! — anunciou orgulhoso o professor.

Mais uma vez Josimar foi o assunto da semana. Curiosos visitavam o laboratório para tentar ver o programa funcionando. Infelizmente, ninguém conseguia ver coisa alguma. A máquina que rodava o programa não exibia mais do que um cursor piscando no canto esquerdo superior de sua tela. Quando perguntado se a máquina estava realmente fazendo alguma coisa, Josimar apenas respondia que os cálculos necessários eram muito complexos e consumiam todo o processamento da mesma: quando a resposta finalmente fosse computada um frase apareceria no monitor.

O tempo passou e o assunto foi novamente esquecido. Várias gerações de alunos se formaram e a máquina continuou funcionando no laboratório. Josimar converteu-se em uma espécie de curiosidade da escola. Os alunos veteranos levavam os alunos novos ao laboratório e, sussurrando, explicavam a teoria do professor e finalidade da máquina. Josimar parecia não perceber os risos baixos que acompanhavam a revelação.

Quinze anos depois a máquina continuava a funcionar. Josimar, agora com uma grande barba branca, continuava a dar as suas aulas e a cuidar de seus programas. A máquina, que havia funcionado por todo esse tempo, ainda não dava sinais de ter resolvido o problema. Zeloso de seu programa, o professor não permitia que ninguém encostasse a mão nela, com exceção dos técnicos que vistoriavam o equipamento do laboratório de quando em quando.

Finalmente, algumas semanas antes de vigésimo terceiro ano de funcionamento da máquina, uma simples mensagem foi impressa na tela do computador:

Hipótese provada. 1 = 0.

Quando Josimar chegou ao laboratório e viu a mensagem, quase sofreu um ataque do coração; saiu correndo pelos corredores gritando que sua teoria estava provada. Seus escritos poderiam finalmente ser publicados e seu gênio finalmente seria reconhecido.

Pela terceira vez em sua vida, Josimar foi o assunto da semana na escola. Todo mundo comentava a história do professor maluco e de sua ainda mais louca teoria. Josimar parou de dar aulas e se recolheu ao seu escritório preparando os seus escritos para publicação. Nos corredores na escola, toda vez que ele passava, os alunos começavam a cantar baixinho:

— Zero é igual a um. Um é igual a zero.

Josimar não se importava. O seu gênio logo seria reconhecido pelo mundo. Continuou a trabalhar e a aperfeiçoar a sua teoria para o grande dia em que pudesse apresentá-la em um congresso internacional de matemática.

Alguns dias depois, quando retornou ao laboratório para conferir um detalhe no programa, notou que a máquina havia desaparecido. Desesperado, temendo que todo trabalho de sua vida fosse perdido, ele correu para o almoxarifado. Quando chegou ao local, esbaforido pela corrida, foi logo perguntando:

— Onde está minha máquina!

— Qual máquina, coroa? — respondeu irritadamente o técnico de plantão, que conhecia a reputação de Josimar.

— A minha máquina pessoal, que estava rodando o meu programa nos últimos anos! — continuou o professor.

— Ah! Essa máquina. Bem, sinto dizer, mas ela foi para a manutenção. Na última vistoria, anteontem, o outro técnico descobriu que um dos componentes dela, o coprocessador matemático, estava com problemas.

— O quê!? — gritou Josimar.

— Exatamente o que eu disse — respondeu o técnico. — A máquina estava com problemas. Qualquer operação matemática feita nela estava dando um resultado errado. O problema é recente; na última vistoria estava tudo funcionando bem, apesar da idade da máquina — completou ele com um sorriso irônico.

O professor levou as mãos ao peito, gemeu e fez uma carreta, caindo estatelado no chão em seguida.

Pela quarta e última vez, Josimar foi o assunto da semana na escola.

§ 4 Responses to 1 = 0"

  • Rafael Valverde says:

    Muito interessante seu conto, antes de ler o fim que o destino reservou ao pobre Josimar, pensei que se tratava de uma espécie de autobiografia. 😛
    Hehehe, brincadeira, muito bom!

  • Ronaldo says:

    Fico contente em saber que você gostou do conto, Rafael. A propósito, você já é a segunda pessoa que diz que eu pareço com o professor. Mas eu garanto que não sou louco e nem tenho barba branca. :-) Pelo menos não por enquanto… 😛

  • Luis Américo says:

    hahahaha
    bom demais Ronaldo.
    hehe

What's this?

You are currently reading 1 = 0 at Superfície Reflexiva.

meta