Mandrake Linux 9.2

December 18th, 2003 § 9 comments

Há cerca de um ano atrás, a MandrakeSoft, produtora da distribução Linux de mesmo nome, anunciou que sua situação financeira estava crítica. Segundo a empresa, as necessidades de capital eram imediatas e, a menos que algo mudasse, a próxima versão em construção na época poderia nem existir. A empresa inclusive já entrara com um pedido de proteção contra falência na justiça européia.

Há poucos dias atrás, porém, a empresa anunciou que a situação financeira está, até onde possível, sob controle. Depois de sérias medidas de contenção, o ano fiscal foi muito bom, comparado com os anos anteriores. Embora o lucro tenha diminuído, por diversos fatores independentes, a margem de lucro da empresa aumentou e as perdas se reduziram. Novas versões foram lançadas, com imensas melhorias em relação às versões anteriores, e a empresa parece bem colocada para tomar o lugar da Red Hat, que recentemente saiu do negócio de desktops.

Essa situação me deixa contente com o desenvolvimento do mercado Linux. Apesar das recentes declarações do CEO da Red Hat, eu acho que o Linux está se tornando cada vez mais uma opção para o desktop do usuário comum, como já o é para o usuário mais avançado há um bom tempo. Digo isto porque, há cerca de três meses, finalmente completei minha migração definitiva para o Linux com plataforma primária de computação. Depois de muito tempo tentanto, principalmente devido à dificuldade de encontrar um modem em um mercado monopolizado por aparelhos baratos, projetados para funcionar somente com o Windows, por fim consegui um razoável para atender às minhas necessidades de conexão. Enquanto não consigo vencer a companhia telefônica e colocar banda larga em casa, ele vem me atendendo bem.

Na época da migração, o Mandrake Linux estava na versão 9.1, que, no geral, era excelente. Embora tivesse alguns problemas aqui e ali, já estava se revelando uma opção muito boa para um computador pessoal, onde bastante desenvolvimento seria feito. Infelizmente, naquele tempo eu enfrentei alguns problemas de instalação em algumas máquinas, resultando em sistemas que não funcionavam adequadamente e acabei desistindo e instalando o Red Hat 9 nas mesmas por uns tempos, enquanto esperava a nova versão.

Usar o Red Hat não foi uma experiência muito agradável. Mesmo com os problemas, o Mandrake era uma distribuição muito mais polida e agradável de se usar, qualquer que seja o window manager adotado. Como o Red Hat é uma distribuição fortemente voltada para o lado servidor, isso era de se esperar. O Mandrake Linux privilegia ambos os públicos e, como resultado, acaba fazendo um serviço melhor. Como a versão 9.2 estava prometida para breve, acabei ficando com o Red Hat 9 até que ela saísse.

E assim que a versão 9.2 saiu, fiz o download público e instalei tanto no computador em casa quanto no do trabalho. Embora, no geral, a versão não apresentasse mudanças externas significativas, como algumas revisões secundárias costumavam fazer no passado, as melhorias internas foram mais uma vez impressionantes. Em poucos dias, deu para notar que a estabilidade e performance do sistema haviam melhorado tremendamente. Depois de algumas semanas, a impressão foi confirmada. E tendo experimentado várias outras distribuições ao longo do tempo em que uso Linux, mantendo um sistema principal fixo, continuo a considerar o Mandrake a melhor distribuição do mercado atual.

A versão atual não é isenta de problemas. Por exemplo, ela insiste em não deixar que eu remova ícones de drives da área de desktop. Parece que considera não o link simbólico, mas o próprio dispositivo. Outros probleminhas similares aparecem aqui e ali, mas nada que impeça o uso completo do sistema. Tudo bem que, como programador, sei resolver coisas que seriam impossíveis para um usuário comum. Mesmo assim, o Mandrake tem se mostrado capaz de salvar o usuário comum das tarefas mais esotéricas do sistema. A maioria das coisas podem ser feitas por meio de assistentes que configuram as partes do sistema em questão.

Uma coisa que me impressionou, depois que eu passei a usar o Linux como plataforma primária, é como eu errei na previsão da minha necessidade eventual do Windows. Eu imaginava que precisaria mais dele no começo, mas desde o primeiro dia quase não tive necessidade de usá-lo.

Eu me considero um usuário razoavelmente comum. Minhas necessidades incluem o desenvolvimento de aplicações, algumas aplicações de escritório, um pouco de multimídia, conexão e um pouco de jogos. Nada de estranho. E o Mandrake tem se provado capaz de atender a virtualmente todas essas necessidades.

Quando ao desenvolvimento de aplicações, é indiscutível o fato de que o Linux é uma plataforma muito melhor do que qualquer outra existente hoje. A quantidade de aplicações, ferramentas, serviços e informação disponíveis é simplesmente incrível. Considerando o meu trabalho atual — com PHP, MySQL, Python e wxPython — eu não poderia estar melhor servido. A única coisa de que sinto falta é de um PHP mode decente para o Emacs.

No caso das aplicações de escritório, o OpenOffice tem se mostrado um pacote muito completo, atendendo a praticamente todas as minhas necessidades. A única coisa da qual eu sinto falta é de um bom dicionário interno (léxico e de sinônimos) para facilitar a vida na hora de escrever. Um bônus foi conseguir fazer o Dicionário Houaiss rodar sobre o Wine, facilitando a minha vida. Preciso conseguir agora é um em inglês e não vai faltar mais nada. E mesmo o problema com as fontes ruins foi praticamente resolvido.

Na hora de usar vídeo e som, as opções também são muito boas e variadas. Seja escutar um CD ou assistir a um DVD, dá para fazer qualquer coisa. E, embora o GIMP ainda precise evoluir muito na edição de imagens, já dá para fazer alguma coisa.

Conexão à Internet não é um problema nem de longe. FTP, Telnet, SSH e similares estão todos cobertos. E, melhor ainda, eu rodo os meus próprios servidores de DNS, e-mail e proxy, mesmo em dial-up, tudo com um firewall na frente. Segurança na medida certa. E até mesmo na hora de usar instant messaging a coisa é fácil como Gaim quebrando um bom galho. Mesmo sem todas as características dos programas que ele emula, dá para fazer muita coisa.

Somente quando chega no assunto de jogos é que a coisa aperta um pouco. Como esse mercado é mais complicado, em termos de necessidade de usuários em massa, produzir para o Linux nunca foi uma boa opção. Essa é a hora em que eu mais uso o Windows. E, a propósito, eu adoro os joguinhos simples que vem com o Linux. Sempre instalo todos. De qualquer forma, a coisa também está melhorando na área. Com a Bioware lançando a versão Linux do Neverwinter Nights, a possibilidade de outras empresas se interessarem pelo mercado aumenta. Quem sabe um dia não se torne comum?

No geral, a minha experiência com o Mandrake Linux no desktop está sendo excelente. É uma a distribuição que eu recomendaria para qualquer um, tanto para uso pessoal como para funcionar como um servidor. O pacote básico, que pode ser baixado da Internet, já possui tantas aplicações que fica difícil decidir o que instalar. E os pacotes à venda aumentam, e em muito, essa quantidade. Com o recente anúncio de uma versão especialmente voltada para o usuário sem muita experiência, eu não ficaria surpreso de ver a fatia de mercado da Mandrake Linux crescer. Só acho uma pena que eles cobrem a subscrição ao MandrakeClub toda de uma vez. Uma cobrança trimestral ou bimestral talvez incentivasse mais pessoas, ajudando ainda mais a empresa. E os pacotes, também infelizmente, são como o Windows: ireais para o Brasil.

Como da outra vez em que fiz uma resenha pessoal do Mandrake, nota 9 em 10, seja como servidor ou desktop.

§ 9 Responses to Mandrake Linux 9.2"

  • Daniel Knarda says:

    Cara, eu nunca pensei em fazer esse tipo de migração. Ou melhor, pensar eu já pensei, mas seria pra mim uma atitude meio que árdua fazer esse tipo de coisa. Primeiro que eu não to acostumado com esses GNU/Linux’es Red-Hat Like, eu sou do tempo do tar.gz e do tgz (vide slackware). Apesar do meu trabalho depender unicamente de softwares livres (Apache, php, mysql, mod_perl), eu uso alguns propretários que seria muito complicado pra larga-los. Como Macromedia Dreamweaver e Adobe Photoshop. O Mesmo eu falo para os demais programas de media, como Sony SoundForge e o Macromedia Flash. Agora, quando se fala em desenvolvimento de software, acho que eu ando mais preso ainda, pelo simples fato de eu estar desenvolvendo em Windows API pura (com C++ no Visual C++) e fazendo aquelas tarefas corriqueiras (que você provavelmente faz com Python) em Delphi. Hehe, como dizia Djalma Valois, “Software proprietario eh que nem cocaina”. Eu já to viciado =/

  • O que é bom no Linux é que é Linux. Não queres instalar uma nova fonte usando janelinhas? Abre um terminal e vai em frente. Ele não te obriga a nada. Como a maioria do que desenvolvo é no Windows, sinto-me mais a vontade usando as janelas (algumas coisas já prefiro a linhas de comando mas o mc é muito bom)

    Quanto aos aplicativos, até acho que alguns são difíceis de trocar se precisares de todas as funcionalidades. Outros são tranqüilamente substituíveis.

    Quanto ao problema de vício, acho que viciei no software aberto. Mais de uma vez precisei de alguma coisa, alterei o fonte, ./configure etc e pronto. Em menos de meia hora tudo exatamente como eu queria (é claro que existem casos que o meu conhecimento fica a desejar, mas via de regra é assim)

  • Luciano Chardon says:

    Uma correção: seu acrônimo para DVD está incorreto. DVD significa “Digital Versatile Disc”, e não “Digital Video Disc”.

  • Eu uso o mandrake 9.1 e tô com preguiça de atualizar, pois acho que as melhorias são pequenas[acho, pois sou apenas usuário final ;-)]
    A única coisa que ainda preciso do windows é pra usar meus scanner( um spectrum f610- for windows bem vagaba, mas que me quebra o galho).
    Vou testar o Kurumim, pois tenho interesse em inclusão digital de professores e queria algo mais leve e amigável(O mandrake já é!!!)

  • Ronaldo says:

    Daniel,

    Realmente, uma migração dessa é uma coisa trabalhosa se você está muito atrelado ao Windows. Alguns programas simplesmente não tem equivalentes no Linux, pelo próprio fato de que somente agora a cultura Unix está se voltando para os mesmos. Mas, como eu disse na entrada, a migração foi menos dolorosa do que eu imaginava e eu ainda mantenho o Windows para algumas coisas.

    No seu caso, se você quisesse levar adiante um projeto assim, não haveria problema em manter o Windows. Usar programas de código aberto dá até uma visão melhor de como desenvolver determinadas coisas, buscando mais integração. Você passar a fazer isso de forma automática.

    De qualquer forma, como todo vício, o Windows também pode ser abandonado. 😛

  • Ronaldo says:

    Guaracy,

    Concordo com seus comentários em relação à questão do Daniel. É toda uma questão de cultura mesmo e, como em toda mudança cultural, há um enorme inércia inerente à mesma. Mas eu também me viciei em código aberto. Dificilmente uso coisas proprietárias e prefiro pagar para ter o código fonte.

  • Ronaldo says:

    Luciano, sobre o acrônimo, a exemplo de VHS, DVD é uma sigla meio livre. A própria organização que define o padrão de armazenamento diz que nem é um acrônimo, mas um nome mesmo.

    Para mais informações, consulte a URL abaixo:
    http://www.dvddemystified.com/dvdfaq.html#1.1

  • Ronaldo says:

    Bem, como eu disse na entrada, eu achei que valia e pena trocar pelo aumento da performance e estabilidade e também pela correção de pequenos probleminhas que me incomodavam na versão anterior. Por outro lado, eu nunca resisto a uma versão nova de algo que eu uso. 😛

  • Ana Pinho says:

    Boa tarde,
    estou com um problema de intalação do meu scanner Spectrum F-610, já fiz d td, mas em vão, existe um erro de calibragem código 07, q não está no manual.
    Talvez vcs possam m auxiliar d alguma forma.
    Preciso d ajuda.
    Aguardo retorno. Obrigada.
    Ana Pinho

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