Blogs como espaços informacionais

December 31st, 2003 § 3 comments

Recentemente o Caffo, do Pattern Recognition, tocou no assunto do formato dos blogs, reclamando da mesmice que impera tanto nos layouts quanto na estruturação de conteúdo dos mesmos. O assunto é interessante e possui várias ramificações, passando inclusive pela cultura compartilhada da chamada blogosfera.

Comentando no blog dele, eu disse que o maior problema é a inércia: nós nos acostumamos com o que todos usam e há uma certa dificuldade em quebrar o padrão. Isso dificilmente é uma surpresa, considerando que a inovação sempre procede da atuação de uma parcela consideravelmente menor de um determinado ramo de atividade humana. Em um meio imitativo e de fácil disseminação como a Web, isso se torna especialmente válido, mesmo que as oportunidades para inovar na mesma sejam também consideravelmente maiores.

Para constatar esse fato, basta olhar para sites na curva superior da lei de poder que descreve a blogosfera. Mesmo estes sites, contanto com um potencial superior em termos de possibilidades de realização, tendem a gravitar em torno dos mesmos padrões estruturais comuns. Eu digo isso não como uma forma de ofensa já que meu próprio site, que nem mesmo aparece na curva, também segue o modelo usual de conteúdo e barra lateral de acesso com dezenas de links que se atropelam perdendo muito do significado e utilidade. O fato que permanece é que há pouquíssimo trabalho sendo realizado neste tema. Uma parte do problema vem, como eu mencionei anteriormente, da própria cultura da blogosfera. Um exemplo disso são os blogrolls, quase que obrigatórios nas páginas iniciais de um blog. Como item de informação, não há nenhuma necessidade específica que exija a presença dos mesmos na página principal de um site. Se a intenção é mostrar por quais sites a pessoa se interessa, vários outros pontos melhores da estrutura organizacional de um site poderiam ser utilizados. Blogrolls aparecem na página principal, na vasta maioria dos blogs, pela necessidade implícita de chamar a atenção para os próprios links e conseguir, assim, maior visibilidade. De novo, acho que todos nós somos ou fomos culpados disso. Raciocínios similares se aplicam a muitos outros dos elementos comuns de blogs, com os próprios comentários.

Isso me leva a pensar em dois assuntos sobre essa questão. Esses assuntos são distintos, mas interligados. O primeiro refere-se à própria questão da estruturação e a existência de formatos alternativos de apresentação e organização que possibilitam um uso mais eficiente dos recursos da Web, do espaço disponível em uma página e do próprio conteúdo do site em relação aos seus usuários. O segundo assunto, refletido pelo título desta entrada, é a própria utilização de um blog, e por extensão um site pessoal, como uma forma de espaço informacional. Nesse sentido, um blog transcenderia o seu papel como mero apresentador de entradas cuja relação entre si é fortuita.

Cogitando um pouco sobre o primeiro assunto, certamente existem modos melhores de tornar disponível o conteúdo de um blog. Movido pela sua própria insatisfação, o Caffo modificou a página inicial do seu blog dando uma ênfase maior no conteúdo, priorizando principalmente o que é mais recente e mais relevante e ressaltando algum conteúdo de interesse extra que de outra forma desapareceria rapidamente da página principal um blog comum, normalmente organizada em ordem cronológica reversa de entradas. Embora essa reorganização seja ainda um passo menor para uma verdadeira reestruturação, já é um excelente começo.

Considerando a existência de inúmeros padrões de informação (mesmo para sites puramente pessoais), é de se imaginar por que eles não são mais utilizados. Como comentei também no blog do Caffo, atribuo isso a pelo menos três grandes problemas.

O primeiro é a questão do conhecimento. Mudar coisas no layout é uma tarefa razoavelmente simples. E não estou falando do trabalho de criar um visual agradável, mas simplesmente trabalhar com os elementos gráficos de uma página. Qualquer pessoa com um mínimo conhecimento de tecnologias Web pode fazer isso. Experimentar com a estrutura informacional de um site já é outra coisa. Exige conhecimento e trabalho maiores. Um exemplo muito simples desse problema é a duplicação de informação presente na maioria dos blogs, com arquivos que apresentam exaustivamente o mesmo conteúdo sem agregar nada ao usuário.

O segundo problema é a dificuldade de recolher meta-informação. Como já foi discutido à exaustão na Web, recolher meta-informação é um trabalho hercúleo, quase impossível na maior parte das situações. Recolher meta-informação confiável é provavelmente impossível em quase todos os contextos. Se usuários interessados no assunto não conseguem fazer isso de maneira regular, é difícil esperar que usuários comuns o façam. Infelizmente, meta-informação é necessária para possibilitar a variedade de transformações de informação que podem tornar um site mais útil. Por exemplo, meta-informação é necessária para criar relacionamentos entre conteúdo diverso.

O terceiro problema é a falta de ferramentas e também a falta de integração entre ferramentas já existentes. Mesmo ignorando a questão da meta-informação, faltam às ferramentas maneiras fáceis de trabalhar a estrutura de um site de modo mais adequado, priorizando a informação e não a apresentação. Um exemplo simples disso é a criação de markup válido que possibilite a utilização da informação em vários contextos e, mais importante ainda, ferramentas embutidas para a manipulação desse markup.

Todos esses problemas contribuem para dificultar a criação de formatos alternativos, criando uma escada cada vez mais íngreme de problemas para a estruturação adequada de um site. E também é difícil falar em soluções quando os problemas estão tão espalhados e são tão genéricos. É um caso em que pequenas modificações são melhores do que nada, por pelo menos permitirem uma base de mudança.

Tomando agora o segundo assunto, que é a utilização de blogs como espaços informacionais, é fácil perceber que ele depende, em sua quase totalidade, do primeiro. Transformar um blog — ou, na verdade, um site qualquer — em um espaço que agregue informação diversificada e permita que a mesma seja acessada de maneira eficiente requer muito mais do simplesmente entrar informação: requer um trabalho extra de classificação e relacionamento para alcançar um patamar mais significativo de utilidade.

Pensando no meu próprio site, uma das coisas que eu sempre tive vontade de fazer é carregar cada item do mesmo com mais informação relevante. Por exemplo, tomando uma entrada qualquer no blog, realizar pelo menos as seguintes agregações de conteúdo: ligar termos que careçam de explanação ao verbete correspondente na Wikipedia; recolher informações em entradas anteriores relacionadas ao tema e introduzir links no texto para estas entradas, além de estabelecer uma lista de relacionamentos contextuais para o mesmo; e permitir a anotação livre ou por meio de palavras chaves do texto. Outros tipos de agregações poderiam ser imaginados, embora só as citadas já possam, se forem realizadas sem o cuidado necessário, sobrecarregar o texto com irrelevâncias.

No contexto do site em si, embora isso seja bem mais difícil de ser construído, existem dezenas de outras agregações possíveis. Um exemplo recente é o surgimento dos chamados blogmarks, ou seja, listas de links que não merecem necessariamente um comentário, mas que merecem arquivamento. Isso está ligado com a necessidade de preservação da memória de navegação. Esta poderia ser uma função extra de um site: criar uma teia de informações arquivadas que podem ser relacionada entre si, com as entradas de um blog e outros conteúdos quaisquer do site como bookmarks e artigos, para citar apenas dois.

Unindo-se os elementos acima a uma interface que permita anotações e cruzamento de informações, no estilo de um Wiki, chega-se a um espaço bem mais qualitativo do que um simples site, realizando melhor a visão de uma Web onde hiper-documentos são a norma e não a exceção. Uma interface assim também exigiria uma forma qualquer de transclusão. A questão chave aqui é fazer com que o conteúdo recente ganhe um elo real com o conteúdo passado, impedindo que este último se torne obsoleto por mero obscurecimento.

É claro que a existência de sites assim não removeria a necessidade e função de sites mais simples. Há sempre espaço para formas menos elaboradas de apresentação de conteúdo — especialmente considerando que estas formas elas não tiram a utilidade e qualidade do mesmo de maneira alguma.

A etapa seguinte, que não é onde eu quero chegar, seria a Web Semântica, que funcionaria em um nível ordens de magnitude superior, mesmo em manifestações mais localizadas. A idéia, repetindo o que foi dito anteriormente, não é criar um espaço inteligente e auto-gerenciável, capaz de se modificar para atender necessidades que vão além do mero acesso à informação. É, sim, criar uma espaço mais organizando, fazendo uso melhor da informação acumulada.

Voltando ao início, permanece o problema da inércia. Talvez, no futuro, ferramentas e técnicas sejam desenvolvidas para lidar com os problemas descritos aqui, dando origem, por sua vez, a novos problemas. Por ora, é uma questão de prosseguir em pequenos passos, lutando contra a entropia que insiste em absorver o conteúdo que produzimos.

§ 3 Responses to Blogs como espaços informacionais"

  • Eu acho simplesmente que todo mundo “faz igual” (ou bem parecido) porque dessa maneira funciona.

    Se for assim vamos “reclamar” que todo site de notícia é igual, que todo site esportivo é igual e até que todo site pornô é igual. É menos problema de falta de criatividade ou espírito inovador e mais um modelo comum.

    Eu já tive neguim reclamando no meu blog que os links não abriam em outra janela. Foi a única “regra dos blogs” que eu quebrei e o usuário já se sentiu incomodado, já estranhou.

    Uma coisa boa que a Microsoft faz é que se você sabe usar um programa deles você sabe usar qualquer um. Os blogs seriam isso… Ou não! 😛

  • Ronaldo says:

    Verificando o modo como eu escrevi a entrada no blog, percebi que deu a impressão que eu estava falando do formato dos blogs. Mas a minha intenção foi falar um pouco sobre possibilidades de agregação de informação em blogs que se adequam a isso.

    O seu argumento está perfeitamente correto para a vasta maioria dos blogs já que estes são um misto de comentários pessoais, links de interesse, com alguns artigos eventuais colocados no meio — o que é exatamente o que um blog normal é. E eu acabei não deixando mais claro que eu estava pensando em blogs mais focalizados, com um tópico mais ou menos únicos, que são os que se beneficiariam de tal agregação.

    Por outro lado, mesmos blogs bem pessoais poderiam se beneficiar de alguma agregação extra. Uma das vantages, por exemplo, seria reduzir o ruido em mecanismo do busca.

    O que você acha?

  • Su says:

    Passei pra dar um ‘oi’ e um feliz 2004. Gravei este post para ler depois. linquei por lá :*

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