Séries de livros

May 24th, 2004 § 11 comments

Visitantes freqüentes desse blog sabem que eu sou um leitor inveterado. Eu leio tudo e qualquer coisa em que consigo colocar as mãos. Livros nunca são demais. Aliás, se você está querendo me presentear com alguma coisa, dê-me um livro.

Quando eu era mais jovem, eu costumava ler dois livros por dia. As bibliotecárias da escola onde eu estudava não acreditavam que eu podia ler tão rápido — mesmo que os livros, na época, não fosse tão grandes assim — e algumas vezes me proibiam de pegar mais livros por um tempo depois que eu devolvia os que estavam comigo. Minha paixão por leitura é uma das poucas coisas constantes em minha vida. Eu tenho, inclusive, que evitar entrar em livrarias para não gastar demais com eles.

É claro, eu tenho meus gêneros favoritos — no caso, ficção científica e fantasia. Eu cresci querendo ser um cientista, e sonhando acordado com lugares distantes em passados remotos, futuros longínquos e mundos imaginários. A vida eventualmente decretou que eu seguiria um caminho diferente, que eu ainda estou tentando descobrir.

De qualquer forma, esse é um texto picuinha de um amante de livros. Sinta-se à vontade para ignorá-lo. É só um texto que eu queria escrever há muito e que agora estou contente de ter, enfim, me livrado dele.

Eu vou falar sobre séries de livros. Séries são uma tradição na literatura. De estórias serializadas em múltiplas edições de uma revista a outras publicadas em múltiplos volumes, escritores com contos longos para contar sempre encontraram um modo de fazê-los chegar as seus leitores. Ao longo do tempo, séries se tornaram um aspecto tão comum da indústria de livros que muitas casas publicadoras hoje esperam que os escritores automaticamente pensem em seqüências para seus livros — especialmente, é claro, para aqueles que são bem sucedidos.

Eu gosto de estórias longas. Se o enredo é interessante, se os personagens são fascinantes e se o livro não apresenta falhas gritantes, eu estou mais do que disposto a seguir o autor por quanto tempo ele quiser me conduzir por seus mundos. Eu também estou mais do que disposto a esperar enquanto o autor escreve a melhor continuação que puder.

Há tempos, quando eu ainda jogava RPG, eu considerava o processo de criação do mesmos uma das mais satisfatórias experiências criativas que já tive. Eu sempre queria ser o mestre do jogo porque isso me dava a oportunidade de elaborar estórias infindáveis que estavam sempre se expandindo para seguir novos personagens ao longo do tempo. Eu realmente gosto de longos arcos de enredo.

Entretanto, nos últimos anos, eu desenvolvi um certo desgosto para séries de livros. Exceto por uns poucos autores, eu não consigo suportá-las mais tanto como antigamente.

Tome, por exemplo, a série The Wheel of Time, por Robert Jordan, um sucesso de vendas mundial. É uma boa estória. Ela tem arcos de enredo interessantes, um fundo mitológico bem rico e idéias curiosas. Ou antes, tinha. Quando eu comecei a ler essa série, eu não conseguia deixar os livros de lado. Eu sempre queria saber o que aconteceria nos próximos capítulos, aonde a estória estava indo. Eu li os primeiros livros um depois do outro, sempre desejoso de saber as próximas revelações da estória. Até que cheguei no sexto livro.

No sexto livro, a série começou a mudar de direção. A estória nesse livro ainda era interessante, mas lhe faltava o estilo rápido e enxuto dos livros anteriores. Longas passagens descritivas, sem movimento nenhum, atulhavam o enredo. Os próximos quatro livros só pioraram a situação. Exceto pelo final do nono livro, todo o resto da estória nos mesmos foi extremamente lenta. O décimo livro na série foi o pior de todos. Mesmo fãs de carteirinha se entediaram com ele. Onde é que já se viu um livro de quase mil páginas em que metade delas são desperdiçadas com um único personagem que passa todo o seu tempo no livro em questão esperando que algo aconteça? Os fãs agora estão se debatendo se o Robert Jordan realmente tem intenção de terminar a estória.

A série de George R. R. Martin, A Song of Ice and Fire, parece estar seguindo em uma direção similar. O quarto livro está tão atrasado que os fãs já estão duvidando que alguma coisa que preste sairá dele.

Terry Goodkind, o autor da série The Sword of Truth, escolheu sabiamente uma estratégia melhor. Quando sua série começou a perder o vapor, ele anunciou que escreveria somente mais três livros, que tratariam do mesmo tema, fechando a estória toda — um bom jeito de acalmar as reclamações de que os livros anteriores haviam sido entediantes.

(Na verdade, o Terry Goodkind merece um aparte. Eu sempre fico admirado com as coisas que ele diz. Eu realmente não sei de onde ele tira tanta cara de pau para dizer o que diz.

Uma vez eu estava escutando uma entrevista com ele, e ele declarou que havia, sozinho, acabado com o gênero de fantasia. E continou dizendo que a ficção científica era um gênero que havia cometido suicídio. Na última vez em que eu verifiquei, não muito tempo atrás, os dois gêneros estavam indo muito bem, obrigado. Isso foi depois que ele disse que não escrevia fantasia, mas “romances”. Tudo porque os livros dele estão lotados com o Objetivismo, que ele considera ser a Única e Verdadeira Doutrina. Mais adiante na entrevista, eu me diverti ao ouvi-lo dizer que seu editor lhe contara que seus livros vendiam bem porque as pessoas queriam ver como ele quebraria as regras do gênero no próximo livro. Ele não conseguiu citar uma única regra. Primeiro, ele não disse que não escrevia fantasia? Segundo, o que o editor de um cara que sempre estréia na lista dos mais vendidos vai dizer para ele?

Não me entenda mal. O Terry Goodkind é um bom escritor. Eu li todos os livros na série, e gostei da maioria. Os livros dois e seis tem estórias muito boas, e todos os seus livros tem aquela qualidade evocativa que é a marca de uma estória bem escrita.

O problema com ele é que ele não liga muito para a consistência entre os livros, que algumas vezes se contradizem, e ele termina muito de suas estórias com finais que são praticamente um deus ex machina. Se ele não tivesse múltiplas linhas de estória andando simultaneamente e não fosse um bom ficcionista, ele não sobreviveria.

Eu não gostei dos últimos dois últimos livros na série principalmente por causa da natureza de pregação dos mesmos. O personagem principal, nesses dois livros, muitas vezes parava tudo o que estava fazendo para dar longos sermões sobre os perigos do altruísmo e para exaltar as virtudes do Objetivismo. Eu estou falando sobre info dumps reais disfarçados como diálogo.

O que é mais engraçado na história toda é que o valor principal que o personagem central dos livros na série professa é a liberdade. A série inteira é uma apologia aos direitos do indivíduo em oposição aos perigos do coletivismo. Mas se você visitar o site oficial do Terry Goodkind e tentar colocar alguma coisa criticando algum aspecto dos seus livros lá, você será imediatamente banido e seus comentários serão removidos antes que qualquer outra pessoa possa comentar sobre os mesmos. Eu visitava o site com alguma freqüência um tempo atrás, e vi vários comentários perfeitamente honestos e polidos — alguns dos quais até sobreviveram por algum tempo antes e tiveram respostas interessantes — serem eliminados do fórum porque os mantenedores do site não gostaram das coisas que as pessoas disseram sobre a série. Não estou falando sobre ataques pessoais, mais de críticas válidas.

Mas eu estou me desviando demais do assunto principal do texto.)

Os autores que eu mencionei acima são todos bons escritores. Eles conseguem perfeitamente criar estórias fascinantes se assim o desejarem, como demonstraram. Mas eu duvido que alguns dos seus últimos livros teriam sido aceitos por seus editores se eles já não estivessem estabelecidos no mercado ou se suas séries não forçassem os leitores a comprarem mais livros para saber com elas terminam.

Eu ainda sinto o gosto do desapontamento que tive quando terminei o décimo livro na série The Wheel of Time. Inclusive, eu só consegui terminá-lo, lendo cada palavra em cada página do mesmo, porque a cada capítulo eu tinha esperança que a estória então começaria de verdade. Nunca começava, e eu perdi a conta das vezes que quis jogar o livro pela janela. Como é possível que um livro gaste vinte página simplesmente seguindo um personagem enquanto ele fica no mesmo lugar reclamando que não pode fazer nada sobre o fato de sua esposa ter sido capturada?

Esses autores são apenas um pequeno grupo entre os centenas ou milhares que possuem séries em andamento. Para qualquer lado que você olha, existem outros. O Terry Brooks vem escrevendo sua série The Sword of Shannara pelos últimos vinte anos, misturada com outros estórias e séries menores. Para ser sincero, a maior parte dos livros nas séries dele são independentes, embora você precise ler todos para ter uma visão geral da mesma.

Como eu mencionei antes, a indústria de livros espera que uma autor comece automaticamente a escrever um seqüência para livros bem sucedidos. Uma vez, eu li um artigo de uma escritora que havia acabado de ter seu primeiro livro aceito para publicação. No artigo ela contava os eventos que levaram à publicação e mencionava que seu editor a havia telefonado quase no mesmo dia em que o livro fora aceito para aconselhá-la a escrever uma continuação para o mesmo. Séries fazem sentido comercialmente. É por isso que a indústria as ama tanto.

Eu não tenho nada contra as séries em si, como eu já disse antes. O que eu não gosto é de séries que somente existem porque seus livros anteriores eram bons o suficiente para angariar seguidores que agora não têm outra opção senão comprar o próximo livro nas mesmas na esperança de conhecer o final das estórias contadas. Tais séries geralmente terminam de modo pouco satisfatório, geralmente porque o autor se cansou do que estava contando. Outras, com a do Terry Brooks, começam a contar a mesma estória vez após vez, mudando apenas o nome dos personagens.

O meu escritor favorito, Stephen Donaldson, é o que eu considero um escritor capaz de séries. Quase todos os seus livros são partes de uma. Ainda assim, todas as séries que ele escreveu estão terminadas — com exceção de uma, cujo último livro ainda falta.

Ele escreveu duas séries magnificentes sobre os mesmos personagens. Estas séries, conhecidas como First and Second Chronicles of Thomas Covenant, the Unbeliever, tem três volumes cada uma, e são extremamente satisfatórias. O estilo de Donaldson é um tanto ou quanto verboso às vezes, mas é forte e ele consegue contar uma estória muito bem. E sem precisar de dez mil páginas. Se ele tivesse escrito algumas das outras séries que eu mencionei, elas não teriam metade do tamanho que têm.

Quando ele escreveu Second Chronicles, ele já estava planejando uma série seguinte. Seria um série final, de quatro livros, para fechar o ciclo. Ele está escrevendo essa série agora e, em uma entrevista, disse que provavelmente demorará dez anos para completá-la. E eu vou dizer uma coisa: eu não me importo em esperar por essa série porque eu sei que ela terá um final completo e bem resolvido. O Stephen Donaldson é um autor que escreve para explorar os temas que ele tinha em mente quando pensou sobre a estória, não para mostrar que pode lidar com um milhão de personagens e sub-enredos ou para pregar uma mensagem.

Eu agora me sinto receoso de comprar quaisquer livros que se dizem parte de uma série maior. É claro que existem boas séries lá for a. O Senhor dos Anéis é uma delas. As Crônicas de Nárnia, outra. O Stephen Donaldson, que é um fã de fantasia ele mesmo, recomendou em na mesma entrevista, a série Tales of Malazan Book of the Fallen do Steven Erikson, que eu pretendo ler um dia. Ainda assim, eu acredito que a demanda por séries está erodindo a qualidade da maioria delas.

Eu não estou dizendo que escritores não devem escrever séries. É o contrário, na verdade. Como eu disse, eu gosto de estórias longas. Mas, como Nancy Kress escreveu uma vez, toda vez que uma estória começa, o autor da mesma faz uma promessa de que coisas acontecerão nela e que os leitores entenderão porque essas coisas aconteram. Séries que não chegam a nenhum lugar quebram essa promessa.

O que eu peço dos escritores de séries, então, é que eles permaneçam fiéis às estórias que começaram. Afinal de contas, séries sólidas significam leitores satisfeitos. E isso quer dizer que mais dinheiro fluirá na direção do autor — como deve ser, a propósito.

§ 11 Responses to Séries de livros"

  • jao says:

    bem, leia Battlefield Earth, e sua série então… vc não irá se arrepender, eu espero ;)

    []s

  • Diego Eis says:

    Ahh, vc vai gostar de um site que estou planejando fazer… Espere e verá.

  • Ronaldo says:

    Jao,

    O Battlefield Earth eu já li umas dez vezes. :-) É uma das space operas mais divertidas e legais que eu já vi. Falem o que quiserem, mas o L. Ron Hubbard sabia escrever ficção científica.

    Sobre a série, você está falando daquela em dez volumes? Eu nunca me animei porque não achava todos os livros para comprar em nenhum lugar. Mas se for boa eu começo a fuçar os sebos aqui na cidade.

  • Ronaldo says:

    Diego,

    Fiquei curioso! Quando é que sai esse projeto misterioso?

  • Daniel Koch says:

    Cara… felizmente (ou infelizmente) eu só leio livros técnicos. Tenho 18 anos e vou pro colégio lendo livros de C, chego em casa leio livros de técnicas e as vezes continuo a árdua leitura de ler a documentação da Intel.

    Mas ando lendo alguns livros de auto ajuda financeira, e alguns de psicologia, pois acho assuntos interessantes também. Um dia, quem sabe, eu não leia um romance…

    Abraços

  • Ronaldo says:

    Bem, eu leio vários livros técnicos e outros que não são ficção também (estou lendo agora um sobre mitologia que é excelente), mas não dispenso um romance. Para relaxar, não tem coisa melhor. Troco um livro por qualquer pilha de jogos. :-)

  • Fabiano Cruz says:

    Engraçado, não tinha acessado este post ontem quando escrevi sobre as consequências benéficas de uma leitura. :)

    Muito bom encontrar um amante de livros dentro de um meio tão “Googlista” de saber. :D

    Se quiser me dar a honra de sua visita neste post, aqui vai a url: http://www.fabianocruz.com/blog/arquivos/000067.html

    Abraços!

  • Ronaldo says:

    Fabiano,

    Eu é que fico honrado com sua presença aqui no blog. E feliz também por encontrar outra pessoa que gosta de livros.

    Visitei e comentei o seu texto lá.

  • Romeo says:

    E o Frank Herbert, Ronaldão? Cê nem falou do Dune… mas esse aí acho que nem precisa ser citado, né!?

  • Ronaldo says:

    Duna é leitura imprescindível — nem precisa comentar muito. É a descrição mais interessante do futuro que eu já vi.

    O engraçado é que é uma série inacabada também; embora, obviamente, por uma causa bem diversa: a morte do Frank Herbert em 1986. Mas é um clássico entre clássicos. O filho dele disse que vai lançar uma conclusão ano que vem, baseada nas notas do pai. Vamos ver no que dá.

  • Denis Santos says:

    Bem, Ronaldo, Dune é, sem dúvida, uma das melhores estórias de FC que já li. Parei no quarto livro, creio que o autor mudou o foco da estória, e não tive condições de ler a continuação da estória.
    um outro autor que gosto muito (que foi meu iniciante na FC) é Isaac Asimov, e a sua série Fundação é bastante consistente (quero dizer, a trilogia – Fundação, Fundação e Império e Segunda Fundação – que no Brasil foi lançada em um único volume – Fundação- , pois no quarto livro – Fundação II – a estória não segue muito o enredo original, mas acho que isto acontece com quase todas as séries, não?) e também tem alguns romances muito bons sobre robôs, que, embora sejam estórias separadas, podem ser consideradas uma séria. Sugiro a coletânea de contos Nós Robôs e a estória Fim da Eternidade.

    Abraços

    Denis.

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