Blogs, vozes e imagens mentais

June 29th, 2004 § 3 comments

O Manifesto Cluetrain declara que as pessoas se reconhecem como tal pelo som de suas vozes. Quão verdadeira é essa afirmação… Existem coisas que são tão óbvias, mas nós tendemos a não pensar sobre as mesmas até que elas se tornem tão aparentes que fica difícil ignorar.

Eu venho lendo blogs por mais de dois anos, e blogando por quase esse mesmo tempo. Desde o começo, alguns aspectos dos blogs em relação às outras tecnologias me pareceram claros, enquanto outros eu só entendi quando eventos específicos trouxeram os mesmos para o primeiro plano. Por exemplo, um aspecto que ficou óbvio desde o princípio é que blogs são mais como e-mail e instant messaging. Isto fica evidente quando se pensa em blogs como conversas, mas a comparação inevitável com outros tipos de sites e mesmo o fato de que blogs podem ser usados em vários contextos que não o de conversação podem esconder isso.

O que eu estou falando não é nada de novo. Desde que os primeiros blogs começaram a ser escritos, questões sobre a natureza dos mesmos foram levantadas e ainda estão sendo levantadas quase que diariamente. A análise de fenômeno é constante por parte dos praticantes, numa tentativa, muito provavelmente, de entender as próprias motivações. A consciência do processo, que é muito mais nítida do que em outros meios escritos, requer isso.

Recentemente, uma dessas realidades sobre os blogs me chamou a atenção de uma maneira tal que eu fiquei surpreso por não ter pensando nela antes. Eu tenho quase certeza de que o assunto já foi tratado por outras pessoas, embora no momento eu não consiga lembrar-me de nenhuma instância específica nos blogs que eu leio. O que me levou a pensar sobre o assunto foram três acontecimentos recentes: a mudança nas licenças do MovableType, o fim da hospedagem grátis por parte do Weblogs.com e uma foto trivial postada por um blogueiro em seu próprio blog.

Acompanhar a reação aos dois primeiros eventos, observando como as pessoas reagiram em graus diferentes, variando com sua proximidade do assunto e participação no mesmo ou a mera vontade de dizer alguma coisa para chamar a atenção, me mostrou como a voz de um blog não tem relação nenhuma com a imagem mental que criamos de seu escritor ou escritores.

A questão ficou ainda mais clara quando eu vi a foto mencionada acima. Naquele instante me ocorreu como a minha interpretação da voz do blog era manchada pela imagem mental que eu fazia do blogueiro. A minha percepção era colorida pelos meus preconceitos e suposições prévias sobre o mesmo, baseado em informação tão pouco confiável como frases soltas, relacionamentos e aspectos demográficos entendidos muitas vezes de maneira errônea ao longo do tempo em que eu acompanhava o blog referido. Um fato engraçado foi ouvir a voz (real, não escrita) de alguns blogueiros durante o episódio do fechamento do Weblogs.com. Novamente, a desconexão entre essas vozes e o que eu lia era interessante.

Por acaso, ontem, lendo um dos outros blogs que eu acompanho, eu encontrei um artigo criticando o best-seller recente Eats, Shoots & Leaves. Depois de uma crítica avassaladora sobre o mesmo, o autor do artigo tece algumas considerações sobre as diferenças entre a voz falada e a voz escrita. Quase no final, inclusive, o artigo se converte numa análise dessas diferenças. Lê-lo me ajudou a colocar em foco o que eu estava pensando sobre o assunto.

A diferença entre a voz falada e a voz escrita, conforme o artigo mostra, é que a primeira é uma função somática, composta de muito mais do que a pura articulação dos pensamentos, sendo espontânea e fluída. A voz escrita, por outro lado, carece dessa espontaneidade, embora, no final das contas, sua intenção seja alcançar essa própria fluidez.

E então me ocorreu que os blogs são um balanço delicado entre essas duas vozes. É impossível que eles se aproximem completamente da voz falada, porque são incapazes de expressar a informação subjacente requerida pela mesma; por outro lado, são mais do que simplesmente a voz escrita, pela forma como o meio propicia a espontaneidade. Esses dois fatos podem ser visto claramente nas incompreensões causadas pelas interpretações incorretas tão presente na blogosfera. A falta de contexto deixa o caminho muito mais aberto para esse tipo de problema.

Existe também a questão da editorialização. Como o artigo citado acima demonstra, escrever é algo que geralmente implica em um processo de refinamento, de concentração de idéias em blocos correlatos que maximizam a compreensão mas que também carecem do fluxo livre e destituído de autoconsciência da voz falada. Blogs tendem a sofrer esse processo de editorialização — automaticamente, inclusive, pelo fato de ser um meio predominantemente escrito — distanciando-os um pouco mais da voz falada.

(Uma coisa relacionada, embora indiretamente, pode ser vista aqui, no meu próprio blog. Eu não sou um falante nativo do inglês. No processo de tradução dos meus textos para o inglês, eu tenho uma certa dificuldade em comunicar determinados conceitos como gostaria por causa da barreira do idioma. Isso mascara ainda mais a minha voz natural, por melhor que eu fale ou escreva em inglês.)

Assim, voz que percebemos nos blogs tem pouca relação com a voz das pessoas que os escrevem, por causa de uma série de processos automáticos que ocorrem na conversão do falado para o escrito, incluindo, entre outras coisas, a nossa própria percepção falha dos escritores.

Não é um problema a ser resolvido, mas uma conseqüência natural do modo com que nos relacionamos. Blogs são conversações, reconhecidamente humanas, mas carecem da fina granularidade que estamos acostumados no contato face-a-face. E essa percepção me levou a encarar os mesmos de uma maneira diferente, mais uma vez. E, estou certo, como acontecerá novamente.

§ 3 Responses to Blogs, vozes e imagens mentais"

  • Achei o texto excelente porque reabre uma discussão sobre a relação do autor (blogueiro) com sua obra (blog). Penso que motiva um distanciamento entre ambos o fato de na blogosfera, muitas vezes, rolar um heterônimo do autor, ou mais de um. Especialmente porque é um meio que protege a pessoa e permite que ela expresse mais o que gostaria de ser e menos o que ela é, de fato. Isto faz com que o autor projete nos seus posts um componente de ficção sobre ele próprio, em maior ou menor grau. Na maioria das vezes subconcientemente. Acho que é por aí que surge uma diferença entre a voz falada e a “escrita” na web. Não que na voz falada também não se projete algo de ficção ou esteriótipo sobre si, mas acho que o contato interpessoal complica isso porque as pessoas tem medo de parecer falsas e a maioria não tem grande auto-confiança na própria capacidade de persuadir o outro.

    Pensando no assunto acho que rola até mesmo uma diferença entre vozes faladas pelas mesmas pessoas em ambientes diferentes como por exemplo um locutor de rádio tem uma “voz” no rádio e outra conversando com um amigo num bar. E não é porque o rádio distorce sua voz, mas seu inconsciente o faz.

    Bom, acho que já viagei muito… hehe!

  • Leocadio says:

    Olá, paz e bem!

    Ao pesquisar a respeito do nome do teu filho (no post mais recente vc diz q não comceça com “R”), fui no post comemorativo do nacimento e nada.

    Percebi o link ao lado pra este post e cá estou.

    À época não existia o fenômeno do podcasting. Gostaria de sugerir a vc que experimentasse tb produzir um pra nós, “seus leitores”, termos a oportunidade de “ouví-lo”.

    Aprecie a sugestão com carinho.

    []s

    Leo

  • Ronaldo says:

    Sobre o podcasting, estou considerando a idéia. Aluguei um servidor novo com muito mais banda e daria para aguentar a carga de downloads. Seria só uma questão de gravar algo que prestasse. Vou pensar na idéia com carinho. :-)

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