A nota fiscal do inferno

October 7th, 2004 § 10 comments

Há quase um ano atrás, eu fui contatado por um funcionário de um faculdade do Rio. Ele me encontrara através de um grupo de discussão sobre SCORM que eu criara no Yahoo! Groups e queria que eu o ajudasse a resolver uns problemas que eles estavam tendo em criar um curso com múltiplos módulos para o LMS de um de seus clientes.

A princípio, eu não quis pegar o projeto. Eu estava muito ocupado na época e não gostei muito da maneira como fui aproximado pela pessoa. Depois de muitas conversas, eu acabei aceitando o trabalho — contra o meu melhor julgamento. A pessoa propôs algumas condições melhores, mas eu não me sentia muito à vontade mesmo assim. Mas eu acabei pegando o projeto e comecei a fazê-lo.

Depois de cerca de dois meses de trabalho esporádico, o trabalho ficou pronto. Eu entreguei, conforme o que havíamos combinado e eles testaram. Alguns problemas foram corrigidos, a despeito da imensa dificuldade de comunicação (eu estou em Belo Horizonte e não podia ir até o Rio na época e eles não tinham acesso direto ao LMS mesmo se eu pudesse ir). Mas o problema se resolveu e eles deram ciência de que estava tudo certo.

Aí é que começou a encrenca. Depois de algumas semanas, eu não consegui nenhuma informação sobre o pagamento. Obviamente, eu comecei a ficar preocupado. Depois de alguma insistência, eles falaram que pagariam somente contra a emissão de uma nota fiscal, coisa que eu não tinha na época. Esse é o grande problema de trabalhos free-lance aqui no Brasil.

Depois de tentar convencê-los a usar qualquer outro meio legal que não fosse uma nota, sem sucesso, eu tive que me conformar com a idéia de conseguir uma. Passei mais de um mês procurando alguém que pudesse me fazer o favor legalmente até conseguir com um amigo que tinha uma empresa. Eu tinha que ir ao Rio na semana seguinte, e deixei a nota com uma amiga de lá para ser entregue em mãos no departamento financeiro da universidade.

Nisso, dois meses já haviam passado. Eu liguei para o departamento financeiro para saber se a nota havia chegado — minha amiga dissera que a entregara para a pessoa indicada — mas o meu contato na universidade disse que ainda não recebera a nota. E para piorar, a pessoa que me contratara saíra da faculdade e eu não tinha mais ninguém conhecido para pelo menos corrobar a minha situação.

Depois de mais quase um mês de espera, ligando no celular para o Rio quase todo dia e gastando quase 5% da nota nessas ligações, eles finalmente disseram que a nota fora recebida e estava sendo encaminhada para a contabilidade. Eu achei que seria apenas uma questão de dias até ver a cor do dinheiro. Ledo engano.

Mais um mês se passou e nada. A pessoa com a qual eu devia falar nunca estava na faculdade ou, se estava, saía assim que ficava sabendo que eu estava no telefone. Eu tentei falar com outras pessoas, mas nenhuma delas reconhecia o problema. E o tempo continuava correndo.

Eu já estava a ponto de desistir e pagar os impostos devidos ao meu amigo, quando ele se ofereceu para ajudar. Eu aceitei de bom grado e ele começou a pressionar a universidade. Ele teve o mesmo tratamento, sendo evitado pelas pessoas responsáveis. Mais quase dois meses se passaram com ele fazendo ligações ocasionais para a universidade. Quando ele percebeu que estava sendo enrolado, resolveu falar um pouco mais sério. Depois de muita insistência, eles finalmente aceitaram pagar a nota. Mas teria que ser um cheque nominal à empresa que emitira a nota. O problema é que a empresa não tinha uma conta corrente.

Nessa hora eu já estava pensando que a nota estava amaldiçoada e que eu devia deixar para lá. Mas meu amigo disse que poderia resolver a situação. O cheque foi enviado do Rio, finalmente, e chegou alguns dias depois. Agora era hora de endossar o cheque e depositar em outra conta. O gerente do banco disse que não haveria problemas com isso. Foi então que meu amigo decidiu imprimir atrás do cheque o carimbo que eles usavam para isso. E na hora de imprimir, a impressora travou e o cheque rasgou.

A nota fiscal realmente não queria ser paga. O meu amigo conversou com o gerente e este disse que tentaria depositar assim mesmo. O chegue foi enviado para a agência e então os bancários entraram em greve. Ironicamente, foi isso que resolveu a situação. Por causa da greve, o cheque acabou sendo depositado sem ser conferido e compensou nos cinco dias usuais por causa da praça diferente.

Semana passada, quase um ano depois do trabalho ter sido acordado, o dinheiro entrou em minha conta. Até então, eu estava seguramente convencido de que eu nunca veria o resultado do meu trabalho.

E desde então eu estou convencido que essa nota fiscal não veio de outro lugar senão o inferno.

§ 10 Responses to A nota fiscal do inferno"

  • leo says:

    olá,

    que do inferno nada… como vc recebeu após esse tempão todo, devia é agradecer pois teve é sorte pra ca* com toda essa série de eventos.

    isso não é post, é roteiro de filme trash!

    []’s

  • Ficou excelente o seu post. Acho que você devia fazer um spamzinho dele no “carreirasolo”, pois sem dúvida isso vai interessar aos leitores de lá.

    Abração!

  • Neto Cury says:

    Na bem da verdade, a nota até te ajudou….rs isso só prova que coisas públicas insistem em dar “trabalho”… e não estou falando em empregos….rs
    Abraços

  • Ronaldo says:

    Leocádio, eu fiquei é traumatizado com a necessidade de emitir a nota fiscal. O governo só dificulta as coisas para quem é honesto. E as empresas não ajudam em nada. :-)

  • Ronaldo says:

    Marcus, obrigado pelo elogio! Sobre o Carreira Solo, talvez seja melhor evitar o spam. Você tem contato com alguém de lá que se interesse.

  • Ronaldo says:

    Neto, como eu disse pro Leocádio lá, eu fiquei foi abalado por causa da nota. Eu recebi, mas com tanto trabalho que dá até medo de ter que emitir outra. 😛

  • leo says:

    concordo com vc Ronaldo…

    o q entendo ser o “melhor” da história é saber q um grande profissional apesar de tudo ainda recebe o seu honestamente.

    ponto pra sua resiliência e integridade.

    []’s

  • Pensei que já tinha respondido a seu comment, Ronaldo, mas como não está aparecendo vou repeti-lo:

    Só postei um comment uma vez lá no carreirasolo, Ronaldo, mas tenho certeza que se você colocar um link, polidamente, explicando o motivo, o pessoal de lá vai achar normal. É como off-topic numa lista, se interessa aos leitores vai bem.

    Abração!

  • Ronaldo says:

    Leo, obrigado pelos elogios 😀 Se Deus quiser, na próxima vez eu não vou precisar fazer tanto esforço.

  • Ronaldo says:

    Marcus, na verdade, você tinha respondido meu e-mail, que eu mandei em resposta ao comentário. A demora foi minha, não respondendo a sua resposta. Eu olhei o site lá e vou mandar o link. Se eles não encrencarem, legal. :-)

    A propósito, obrigado pela dica. O site é bem interessante.

What's this?

You are currently reading A nota fiscal do inferno at Superfície Reflexiva.

meta