Eu não confio no Google Desktop

October 15th, 2004 § 20 comments

Então o Google lançou o seu novo mecanismo de busca para o desktop. Eu, pelo menos, não tenho a menor intenção de instalar. A razão, pura e simples, é que eu não confio no Google mais. Não por causa do IPO, mas porque o Google diz que segue a sua política “Não seja mau” (tradução literal meia-boca), mas as ações da empresa não mostram isso mais. (Não que eles tenham que prestar contas para mim, é claro.)

A EULA do Google Desktop declara que o programa coletará informações não-pessoais se você usar a aplicação. Tanto na instalação quanto depois da mesma, através do painel de preferências da aplicação, você pode desabilitar esse comportamento. Mas há um porém: o Google Desktop instalará, quer você queira, quer não, um identificador único em seu computador e enviará esse identificador de volta para o Google. O identificador não é usado, aparentemente, se você opta por não enviar informações não-pessoais, mas está lá. Se a EULA mudar de alguma forma, você já sabe o que pode acontecer. E, além disso, o Google Desktop também usa os mesmos cookies dos outros serviços como o Google Search e Google Mail para correlacionar dados sobre o uso que você faz dos mesmos, Supostamente, são dados não pessoais também, mas o Google Mail me parece bem pessoal.

Podem me chamar de paranóico, mas eu não gosto do modo como o Google está usando todas essas informações. Eu uso o Google Mail esporadicamente, mas não para e-mails importantes, sejam de trabalho ou pessoais. Embora a EULA do Google Mail tenha mudado depois de reclamações, ela era estranha o suficiente no começo para me impedir de confiar meus e-mails ao Google.

(Antes que você pergunte, eu não uso nenhum tipo de e-mail que seja só webmail, tenho meu próprio servidor e uso encriptação sempre que necessário. Eu tenho um conta no Google Mail porque todo mundo dizia que ele era muito bom e também porque eu queria ver como a interface JavaScript funcionava. De qualquer forma, eu duvido que o Google leria o e-mail de seus clientes. Não vale a pena em nenhum sentido. Mas a EULA continua sendo estranha.)

E também há o Orkut, com sua EULA igualmente esquisita.

Eu provavelmente posso impedir que o Google mande mensagens para a nave mãe usando um firewall, mas eu não vou instalar a aplicação por princípio. Os problemas recentes com a versão Chinesa do Google News ilustram os problemas que eu vejo com a empresa, e é por isso que eu não confio nela mais.

De qualquer forma, o Google não me deve nada. Mais do que isso, agora eles são um empresa pública, com acionistas que eventualmente pedirão lucros (apesar de tudo o que a empresa disse sobre o assunto), e podem fazer o que bem entenderem. Mas isso não significa que eu vou confiar cegamente em qualquer tipo de produto que eles disponibilizarem, mesmo se for de graça, apenas por que eles não eram maus no passado.

Mas eu confesso: eu nunca confiei no Google. Os cookies do Google Search estão bloqueados no meu navegador desde que eu comecei a usar o serviço. Tudo que eu escrevi acima significa apenas que meu nível de confiança neles desceu ainda mais um pouco.

§ 20 Responses to Eu não confio no Google Desktop"

  • TaQ says:

    Eu sou suspeito de falar por que já estou paranóico com eles faz um tempinho já:
    http://beam.to/taq/blog.php?id=32

  • GOOGLE LANÇA DESKTOP SEARCH

    Google lança busca a partir do desktop O Busca do Google para desktop já existia, você colocava ela na barra de ferramentas… uma mão na roda. Pois agora o Google inouvou e agora faz buscas instantâneas por informaç…

  • Bonatto says:

    Eu instalei e o negócio é muito bom! Mas vejo que se você considera a possibilidade de instalar é sinal que deve usar Windows, e se usa, acho que um sistema operacional inteiro que tem seu código fechado pode ser bem mais perigoso (no que diz respeito ao acesso a dados pessoais) que uma ferramenta de busca ou um web mail, não?

  • Ronaldo says:

    Muito bom o seu texto. Seus argumentos estão formulados de uma maneira bem mais clara do que a minha, inclusive. Essa combinação dos serviços, sem termos claros, é justamente o problema, na minha opinião. Apesar de que, considerando que as pessoas já aceitam termos piores em tantos serviços e produtos, fica até difícil defender uma posição diferente. 😀

  • Ronaldo says:

    Tudo bom, Bonatto? Eu não duvido que seja bom o programa. O Google, até o momento, tem se distingüido em suas ferramentas. Mas a política deles está meio falha, na minha opinião.

    Sobre o sistema operacional, de fato é uma consideração. Em casa, inclusive, eu nem poderia instalar o Google Desktop, já que uso o Linux, com um firewall em um nível suficientemente alto para evitar os problemas eventuais de ataques. Windows, em casa, só para jogar. No trabalho, como eu desenvolvo para Windows, não tenho muita opção e o Google Desktop é menos atrativo ainda.

    Mas eu acho que meu argumento se aplica a qualquer sistema operacional que o Google venha suportar por causa dos termos, não por causa do serviço em si. E eu desconfio do Windows quase tanto quanto desconfio do Google. 😛

  • TaQ says:

    Ronaldo, obrigado pelos comentários.

    Para mais algumas “teorias da conspiração” a respeito do Google, entre na minha seção de news (http://beam.to/taq/news.php) e digite por Google no campo de texto lá. Vão aparecer mais alguns links interessantes … 😉

    Vamos ficar de olho neles! 😉

    []’s

  • Entendo as desconfianças em relação ao Gmail.

    Eu uso o Gmail como e-mail principal, mas não porque confie que não vão ler as minhas mensagens, apenas eu confio que elas não vão ser deletadas do servidor de uma hora pra outra. A mesma coisa que me faz usar o Blogger, saber que não terei meu blog “seqüestrado” da noite pro dia, como aconteceu com os usuários do Mblog.

    Eu não escrevo nada no Gmail que possa me comprometer. Na verdade, não escrevo absolutamente nada que possa me comprometer por e-mail, e se um dia o fizesse usaria um mailreader com criptografia.

    Vou testar o Google Desktop no micro da minha mãe, que tem um monte de arquivos do Word com nomes estranhos, em um monte de pastas diferentes, e o tempo todo ela fica pedindo para EU achar um documento que ELA fez. A conexão dela tem firewall (instalado por mim, é óbvio), e ela usa bem pouco a net, além do mais.

    Achei muito bom seu artigo, mas até o momento não bateu em mim esse alarme. Pra falar a verdade, não entendi direito por que você nunca confiou no Google. Se a explicação estiver no texto linkado, vou dar uma olhada…

    Abração!

  • Ronaldo says:

    TaQ, estou olhando os textos lá agora. Sobre ficar de olho, é como você disse, vigiar os guardiões. 😀

  • Ronaldo says:

    Tudo bom, Marcus?

    Sobre e-mail, eu concordo que e-mails são geralmente públicos. Mesmo encriptados, uma vez que o e-mail saiu de sua mão, ele corre o risco de ser publicado um dia já que você fica na dependência da outra pessoa para manter a privacidade. Não tem muito jeito mesmo, mas eu procuro minimizar o problema.

    Tem muita coisa para qual eu sou chato que é por uma mera questão de princípio — ou desconfiança… Eu prefiro as coisas bem claras para não ser pego de supresa. O abuso sempre começa quando nós abrimos mão de coisinhas aqui e ali até perceber que abrimos mão de tudo.

    Finalmente, sobre não confiar no Google, o texto apontado tem a ver sim. Mas, basicamente, é que o Google sempre foi um certo herói na Internet, como se fosse algo diametralmente oposto aos bichos-papões como a Microsoft. Isso nunca colou para mim, mesmo que eu prefira a companhia a muitas outras. 😀

  • jao says:

    putz ronaldo, eu não vou dizer que não entendo, ou que não concordo com o que você esta dizendo… Mas meu, a microsoft vem fazendo isso ha anos e nego nem liga.

    Eu acho que a utilização desses dados “pessoais” é uma simples forma de lutar contra um monopólio já instaurado. Mas sei lá, esse sou eu.. que usa Gmail, que usa Ggroups, que usa orkut, e que instalou o tal do google desktop.

    E essa briga toda, deve ser por causa do lançamento do longhorn, que virá com msdn/msn search embedado no código fonte do OS…

    E na boa, entre MS e Google, por enquanto eu sou mais o Google, mas como eu disse, esse sou eu.

  • Ronaldo says:

    Tudo jóia? Não precisa se justificar. :-) Como eu disse, é mais uma questão de filosofia. Comparado com Microsoft, Sun, IBM e outras empresas do gênero, eu não tenho muito a reclamar da história passado do Google, embora eu seja inerentemente avesso a qualquer coisa que posso representar um problema para meus dados. E eu acho que eles estão começando a se desviar da filosofia que sempre disseram seguir.

    O irônico é que em casa eu nem posso usar o Google Desktop, já que uso o Linux na maior parte do tempo. Eu praticamente não tenho dados no Windows, exceto “save games”.

    No mais, vamos ver o que o futuro do Google reserva. Não tem muito jeito de saber o que vai acontecer, mas que vai ser interessante, isso vai. :-)

  • Daniel Koch says:

    Ronando, tudo bem? Cara, eu sempre fui um adorador do Google, de certo modo ele revolucionou algumas coisas, digo, não só na organização dos dados mas a visão empresarial como um todo. Foi algo que começou do zero, e até onde eu sei eles tem bons dividendos e não usam terno e gravata. Outra coisa que me impressiona é a arquitetura, que mesmo sendo fechada, é de certa forma revolucionária.

    Gostaria de saber como funciona o banco de dados. Será uma alteração do MySQL? Será que o Google WebServer é uma alteração do Apache? Eu sei que lá tem muitos computadores trabalhando como se fossem 1 só. E é isso que me impressiona. No Gmail eles também revolucionaram muita coisa, o jeito como vemos nossos arquivos: “não importa aonde está, importa como você chega até eles”. Seu quarto pode ser uma bagunça, mas você sabe aonde está cada coisa, ou sabe como chegar até eles.

    Ouvi dizer recentemente que a Google teria contratado alguns desenvolvedores do IE da Microsoft e alguns desenvolvedores do Mozilla e que estes estariam desenvolvendo um navegador para a Google. Eu acredito que este seja um dos pequenos passos para uma nova evolução da internet e do modo como a vemos.

    O que mais me deixou “louco” foi pensar que, com esse Google Desktop rodando em sua maquina, uma boa depurada no executavel pode resultar na engine de busca (ou parte disso) do Google, já pensou?

    Pena que não tive ainda a oportunidade de testa-lo, pois até o momento não lançaram (e nem acho que vão lançar) binarios para GNU/Linux.

    Abraços

  • O Pedro Doria (www.nominimo.com.br, Weblog) publicou uma nota que fala sobre questões de privacidade e segurança no Google Desktop:

    * * * * * *

    O repórter Tom Spring, da PC World, andou fazendo testes com o Google Desktop. Num computador público, tascou inbox – caixa de entrada – no sistema de buscas. O resultado foram incontáveis mensagens escritas por outros – mensagens escritas em sistemas de webmail teoricamente protegidos por senha. Aliás, também descobriu algumas senhas.

    (…)

    A trupe do Google diz que é isso mesmo – e que o Google Desktop não é feito para ser instalado em computadores que mais de uma pessoa usa. Porque, se instalar, segue lá um rombo de segurança.

  • Ronaldo says:

    Análise interessante.

    Essa coisa de não poder ser usado em um computador com mais de uma pessoa é ridículo, na minha opinião. Praticamente em qualquer família que tenha apenas um computador o mesmo é usado por mais de uma pessoa. E no trabalho, sempre há a possibilidade de outros usuários ou o administrador acessarem a máquina. Se for por isso, quase nenhum usuário vai poder usar o sistema.

    O negócio é colocar senha no programa e criptografar os índices gerados.

  • Bem, nem ia fazer comentários nessa entrada, mas achei legal o comentário em http://bitworking.org/news/Google_Desktop

    “…This is just like WinFS.

    Except that it is shipping today.
    And it just works.
    And it doesn’t require an upgrade to your operating system.
    And it doesn’t require you to manually tag all your files with meta-data.
    And it works outside your “Documents and Settings” folder.
    And it’s only a 400K download.
    But besides that, it’s just like WinFS.”

    Por favor. Sem flames. :-)

  • Ronaldo says:

    Aí você me quebra, né? 😀

  • Desculpe, não era a minha intenção quebrar alguém. Mas parece que tem uma relação ‘Google Desktop’ x ‘Microsoft’. Algumas coisas como ‘instala caso você queira ou não’. Prefiro não falar, mas existem comentários de produtos da MS que também carregam informações pessoais e por ai vai. De resto, apenas achei engraçada (apesar de que não pretendo instalar o longhorn antes de 2010)

  • TaQ says:

    O WinFS era uma das armas de terror do Miguel de Icaza, líder do Mono, para tentar apavorar a turma do Linux (FUD?) com a idéia que “temos que ter isso no Linux senão ficaremos tecnologicamente muito defasados e impossibilitados de competir com a Microsoft”. Junto com o Avalon. Que pareceram afundar ambos faz pouco tempo (inclusive o Icaza agora está descendo a lenha no Avalon!). :-)

    O Avalon praticamente está sendo descartado de toda aquela solidez que tinha nos planos do Longhorn enquanto o WinFS está cada vez mais sendo aquele tipo de assunto “esquece, não fala disso não, deixa esfriar…” eheheh.

    A versão inicial do Longhorn (se tiver isso ainda né) vai sair com o WinFS como um add-on e não mais como o sistema de arquivos padrão. Isso até onde eu li, pode ser que mudem isso (ou tenham mudado já) à curto prazo.

    Uma implementação que já funciona com sistema de metadados é o ReiserFS4:
    http://www.namesys.com/v4/v4.html
    Mas que parece que ainda “pipoca” no kernel 2.6.x, somente estável para os 2.4.x.

    E ponto para o Google Desktop nesse sentido, Guaracy! :-) Realmente ele com 400k faz uma implementação similar a WinFS. A Microsoft deve estar morrendo de vergonha, apesar que a implementação do Google Desktop é mais simplista.

  • Ronaldo says:

    Tudo bom, Guaracy?

    Parece que as minhas piadas não estão funcionando muito bem hoje. 😛

    Sobre informações pessoais, esse é um problema generalizado. Microsoft, com Windows Media Player e o próprio Windows, Real com o Real Audio, Winamp em uma determinada versão. Tudo sob o manto de melhorar a usabilidade e o produto. A quantidade de requisições que os firewalls pegar por causa desses produtos não é brincadeira.

    Por isso é que eu fiquei desanimado com o Google. Se eles começarem a fazer a mesma coisa vai ser um ícone se quebrando.

  • Ronaldo says:

    Opa, TaQ!

    Na minha opinião, o WinFS é uma dessas quimeras. Tenta fazer tudo, não faz nada e ninguém vai usar porque vai demorar demais para aparecer, ser complicado demais para interfacear e por aí vai. Implementações no nível do sistema de arquivos são complicadas porque dependem muito da disposição do usuário.

    O engraçado de toda essa história é que o Google Desktop tem diversos concorrentes tão bom ou até melhores, mas a marca pesa e o pessoal elogia porque existe a mística por trás. E também é de graça. Nisso, ponto para o Google mesmo. Os caras sabem como pegar o mercado de supetão.

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