Mulher de Um Homem Só

November 5th, 2004 § 5 comments

Por meio do Roberto, eu descobri o blog do Alexandre Almeida, ao qual já estou subscrito por causa do interessante conteúdo das entradas que li no meu primeiro contato com o mesmo. Os artigos, que são provocantes e bem-pensados, apelam para o meu lado de advogado do diabo, mesmo que eu não concorde com uma boa parte dos mesmos.

Mas essa entrada é mesmo sobre o livro do Alexandre, Mulher de Um Homem Só, também recomendado pelo Roberto. Eu baixei o livro e, a exemplo de outros leitores, li rapidamente, em duas sentadas, tanto pelo tamanho curto (apenas 50 páginas) quanto pelo fato do mesmo absorver o leitor, deixando-o na expectativa de saber e entender mais sobre o que está acontecendo na estória.

Aliás, esse é, no meu entendimento, um dos maiores méritos de um livro. Se o texto conseguir provocar no leitor essa vontade de continuar a leitura indefinidademente, mesmo que o tempo para a mesma seja limitado, ele já atingiu a maior parte do seu objetivo. Ninguém lê um livro até o final, tão sofregamente, se o mesmo não consegue tocar alguma parte da alma da pessoa.

Dito isso, alguns comentários sobre a estória:

Quanto ao passo, eu achei excelente. A narrativa é um desabafo e o passo do livro, desesperado, conturbado e avassalador se encaixa bem no contexto da estória. Mais do que isso, se coaduna com o que percebemos sobre o que é contado. Ao buscar os momentos de sua vida em que desabafos aconteceram, o leitor percebe a coerência entre o passo da narrativa e a verdade do desabafo.

Estilisticamente, eu também gostei do livro. O Alexandre emprega perfeitamente o português, construindo frases que soam bem ao ouvido e reforçam a imagem mental que fazemos da personagem principal. Metáforas, símiles, metonímias e outras figuras de linguagem, com poucas exceções, dão um vigor ao texto que me apeteceu bastante. O uso da linguagem coloquial também é primoroso.

A estória, em si, é muito interessante. Comentando o livro com minha esposa e nos colocando na pele da narradora, nós tivemos que adimitir que a situação é uma em que não gostaríamos de estar. Seja do lado de quem for na estória. Em não vou comentar nenhum detalhe específico para não estragar a surpresa para outros eventuais leitores, mas acredito que ninguém se desapontará com o tratamento da mesmo, exceto, talvez, por um ponto que eu vou comentar mais adiante.

Um outro pronto interessante, comentado também pelo Roberto, é a subjetividade da estória. Eu geralmente não gosto de narrativas em primeira pessoa, mas essa é uma que me atraiu por levar ao extremo a falta de confiabilidade do narrador. Isso gera situações de forte ironia dramática que ajudam a carregar a narrativa adiante e servem para dar mais veracidade ao texto, sem insultar a inteligência do leitor que pode ler nas entrelinhas as possíveis problemas que essa desconexão provoca.

No que tange ao desenvolvimento dos personagens, eu vi apenas um problema. Carla, a narradora, é desenvolvida plenamente e parece real aos narradores. Os outros personagens, figuras indiretas da narrativa que ela faz, também ganham realidade atráves dela. Apesar disso, eu não consegui identificar bem as vozes dos personagens. Em outras palavras, todos acabam soando um pouco como Carla. Eu não considero isso um problema narrativo, mas sim um de construção de diálogo.

Um outro problema com a narrativa é a onisciência do narrador. O Alexandre optou por isso, conforme ele diz na apresentação do romance, como uma forma de complementar a subjetividade do mesmo. Na minha opinião, essa onisciência não só não funciona como prejudica as partes em que aparece.

Um dos meus mentores na arte de escrever costuma dizer que não existe certo ou errado em um texto. Tudo o que funciona é válido. Eu acredito que a onisciência no texto do Alexandre não funcionou a contento. Mestres como García Márquez podem conseguir, mas iniciantes como nós não. Espero que o Alexandre não encarre isso como denegrindo o seu talento. Meu mentor, com mais de vinte livros publicados na carreira, era o primeiro a admitir que não estava no mesmo níveis dos grandes mestres da literatura — ainda.

Explicando melhor a questão, a onisciência não funciona exatamente por causa da falta de confiabilidade do narrador, mencionada acima. Do modo como a estória é construída, se o narrador fosse onisciente, ele não falaria de suas dúvidas e questionamentos da mesma forma. A subjetividade da estória e a onisciência do narrador estão em contradição e por vezes me fizeram sair daquele estado voluntário de suspensão de descrença que caracteriza a leitura.

Ao contrário do que outro leitor apontou, eu não que o fato disso não funcionar decorra do tipo de texto ou do gênero do livro. Qualquer outro texto onde isso acontecesse ficaria prejudicado, exceto se a técnica fosse realmente muito bem trabalhada para fazer funcionar a opção — e mesmo assim eu não tenho certeza do resultado.

Um último problema que eu vi, foi o final abrupto do texto. O Alexandre explica também essa opção, mas eu acho que o final veio um pouco antes do que eu considero ser o final real do texto. A escritora Nancy Kress, em um dos seus livros de teoria literária, diz que o escritor faz um promessa implícita ao leitor no começo de cada estória. O leitor dá o seu tempo ao texto, e em troca recebe uma conclusão definitiva. Isso não exclui, é claro, finais abertos. Mas o final aberto, por mais abruto que seja, deve satisfazer a promessa implícita. Eu acredito que o final do livro do Alexandre falha nesse quesito por não estar à altura (em termos de peso, passo e força) do resto do livro.

Um dos primeiros contos que eu escrevi usava a mesma técnica. Meu mentor, depois de ler o meu conto, me disse exatamente isso. Eu não satisfizera a promessa ao leitor. E, por isso, o texto perdera algo.

Mas, chega de comentários. O Alexandre está de parabéns pela iniciativa. Colocar um texto na Web assim é ao mesmo tempo um boa estratégia e um ato corajoso. Um outro escritor que me vem à mente agora é o John Scalzi, que utilizou a mesma técnica com o seu primeiro livro, Agent to the Stars. (Infelizmente, o site do autor está em reforma e o link para o livro não está disponível.) O Scalzi conseguiu ser publicado eventualmente e hoje goza de um bom prestígio junto aos leitores do gênero que escreve. A estratégia que ele usou, além de oferecer o livro para download, foi cobrar pelo mesmo como shareware, ou seja, se o leitor gostasse, ele pagava o tanto que quisesse. Isso não só deu certo como ele conseguiu ainda alguns bons trocados com o livro.

No Brasil, onde conseguir ser publicado é algo quase impossível, qualquer estratégia para atrair a atenção dos editores é válida se for de bom gosto. No gênero que o Alexandre escreve, mainstream, é mais fácil do que o meu, ficção científica e fantasia, mas não muito mais.

Resumindo, eu recomendo o livro e o blog do Alexandre. Espero que ele não fique chateado com os meus comentários, mas eu prefiro ser honesto e apontar os erros que eu vejo e talvez aumentar as chances de publicação do livro do que simplesmente endossar e deixar por isso mesmo.

(A propósito, Alexandre, não é um mistério tão grande assim que pessoas leiam seu blog e não criem um link. Além de existirem outros mecanismos para isso — como o Bloglines, por exemplo — a preguiça humana é um fator a ser considerado. Eu, por exemplo, só atualizo o template do meu blogroll de tempos em tempos. E sobre gentileza, bem, eu acho que o Galvez já tratou disso.)

§ 5 Responses to Mulher de Um Homem Só"

  • Olá Ronaldo! Muito obrigado pelos comentários! Já fiz um post sobre isso, e fiz outros comentários, vai lá ver.

    Achei que a posição do Galvez sobre os links muito antipatica e ingrata.

    Eu tenho por hábito linkar de volta para todos que me linkam e, sério, quem não linka para quem lhe linka é um tremendo ingrato.

    abraços

  • Jonas Galvez says:

    Só para esclarecer: eu acho que faz parte do “código de ética” da blogsphere não apenas linkar os blogs que você lê, como também sempre citar suas fontes de maneira bem explícita. O que eu não concordo é o pedido explícito: “Ei, seus malditos, cambadas de filhos da p… ingratos da p…, vocês lêem meu blog, então têm que me linkar”. Eu não acho muito conveniente, até para a imagem do próprio blogueiro, fazer esse tipo de “pedido”, e ainda rotular os outros como ingratos. Com certeza, há meia dúzia de blogueiros que eu sei que são leitores do meu blog, tiram conteúdo dos meus posts, e NUNCA me linkam, mas eu não me perturbo com isso. Não merece a minha atenção, nem o meu protesto.

  • galvez, isso é como a piada do bife.

    estao dois amigos à mesa, chega um bife grande e um bife pequeno. um amigo pega logo o bife grande e outro protesta, que falta de educação!, e o primeiro pergunta: peraí, o que vc teria feito? Bem, responde, eu teria pego primeiro o pequeno. Então deu na mesma.

    Pois pois, se vc concorda que acha que as pessoas devem linkar os blogs que leem e citar as fontes, entao como pode ser errado que o blogueiro que é lido sem ser linkado peça JUSTAMENTE isso que vc acha que todos deveriam fazer?

    nao faz sentido pra mim.

    Ou as pessoas devem fazer isso ou nao. se devem, e nao fazem, cabe a cutucada.

    abraços,

  • Jonas Galvez says:

    Alexandre, você disse que “quem não linka para quem lhe linka é um tremendo ingrato”. Para mim, é uma situação análoga à cortesia de presentes e favores. Quando se faz algo de bom a alguém, é natural esperar, desejar, que o favor seja retribuído de alguma forma. Mas isso não é terminantemente necessário. Eu linko um monte de gente no meu blogroll (que aliás, preciso atualizar), mas nem 1/10 deles me linkam, e eu não reclamo por isso. Não há por que reclamar. O fato de uma pessoa me linkar não implica nenhuma obrigação de minha parte em retribuir o link. Eu linko quem eu realmente leio e respeito ou acho interessante de alguma forma. Você, aliás, não entrou no meu blogroll ainda por pura preguiça.

    Enfim, entendo a sua revolta, mas você consegue entender a lógica do meu pensamento?

  • Ronaldo says:

    Bem, como eu mencionei de passagem na entrada acima, eu continuou em concordância com o Galvez. Eu não consigo compreender a *necessidade* de reciprocar um link, principalmente olhando-se do lado de citar uma fonte.

    Você não faz um favor quando criar um link para alguém (exceto se a pessoa o pediu e você concordou). É um mero processo da Web. Para mim, fazer o link pensando em receber um recíproco é vender o ato — deturpa a mensagem. Se o que está envolvido é gratidão, esperar que ela aconteça tira completamente o sentido da ação.

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