Por que usar o SCORM?

November 26th, 2004 § 12 comments

Uma amiga minha, que mexe com a área de educação, me fez as seguintes perguntas sobre o SCORM:

Por que o SCORM? Qual a diferença de ser usar SCORM e toda a parafernália que ele implica ou usar, por exemplo, um weblog mais JavaScript e puxar os objetos de aprendizagem para dentro de um ambiente de curso comum ou artesanal?

Faço esta pergunta pensando em escolas estaduais sem apoio ou suporte técnico, laboratórios pequenos sem servidor, professores sem muito conhecimento, etc.

Estas são questões muito pertinentes e eu já as considerei várias vezes durante os anos em que venho prestando consultoria no SCORM, embora ainda não tivesse pensando no contexto que ela menciona acima.

Qual é a justificativa para a adoção do SCORM? Como acontece com muitas tecnologias, às vezes a adoção ocorre somente porque é o que o mercado dita, sem considerações para o que a mudança representa.

Como eu sempre digo quando estou conversando com uma empresa que deseja usar o SCORM — seja para implementar o mesmo em um LMS já existente, comprar um LMS que o suporte, ou começar a produzir cursos no mesmo — a migração para o padrão não é um passo que você toma descuidadamente. Normalmente, você perde alguma funcionalidade quando adota o padrão. A questão é: esas perdas são compensadas pelo que o padrão oferece? A resposta é geralmente sim, mas obviamente depende do contexto.

Pensando tecnicamente, não há nada no padrão SCORM que não possa ser reproduzido em um LMS qualquer. A vantagem do SCORM não está no modelo de dados ou no ambiente de execução em sim. Como eu disse no meu primeiro artigo sobre o padrão, tecnicamente o SCORM é uma solução inferior. Ele é imaturo, tem problemas de segurança, é limitado em muitos aspectos e não oferece muito em termos de relatórios. O que o valoriza é o fato simples do mesmo ser realmente um padrão, com um corpo regulador por trás, especificações fechadas e um certo conhecimento acumulado no mercado.

Sendo um padrão, o SCORM oferece aos seus usuários a possibilidade de ter um alvo de implementação comum, o que facilita o desenvolvimento, reduz custos e amplia a oferta. Por outro lado, há sempre o fato de que nenhum LMS implementa o padrão em sua inteireza ou exatamente com os outros competidores. Cada implementação tem seus pequenos problemas e desvios, o que reduz consideravelmente a utilidade do padrão e o espectro de opções no mesmo que podem ser usadas.

Uma outra desvantagem do padrão, que eu não cheguei a mencionar em outros artigos, é o preço. As implementações mais conhecidas têm preços na casa dos seis ou sete algarismos. No contexto citado acima, é óbvio que isso impede qualquer uso. Um outro problema, na mesma linha, é que existem poucas implementações de código aberto, que são mais atrativas para escolas e instituições públicas em geral. As poucas implementações tem um suporte fraco para o padrão e em sua maioria são incapazes de lidar com a variedade que pode ser desenvolvida sobre o mesmo. A maioria das ferramentas acessórias também são proprietárias.

Se o padrão possui estas desvantagens, por que então não usar uma solução artesanal, mais simples e mais barata? A resposta é: coleta de dados. Simplesmente permitir que os usuários façam um curso não é o suficiente. É necessário recolher dados, agregar os mesmos e reagir de acordo com os resultados que eles apresentem. O SCORM apresenta um modelo de dados comum que os cursos podem usar para trocar dados com o LMS — independentemente de quem os criou ou de um conhecimento prévio do LMS alvo — permitindo que os cursos sejam acompanhados de uma maneira que não aconteceria em uma solução in-house.

Um fato sobre o SCORM é que se um curso é desenvolvido para o mesmo adequadamente, ele pode rodar sem muitos problemas em ambientes que não suportem o padrão. Módulos de mero conteúdo vão funcionar quase perfeitamente, embora percam a capacidadade de controle granulado de execução e acompanhamento, ou seja, o aluno pode ver o conteúdo, mas não pode ter o seu progresso acompanhado. Avaliações são um pouco mais complicadas, mas é possível fazer algo que permita o usuário fazer a avaliação. Sem o padrão, porém, os resultados não serão gravados — serão perdidos, na verdade.

Assim, implementar uma solução caseira sem suporte ao salvamento de dados limita completamente as possibilidade de interação de um curso e não fornece nenhuma base de crescimento para os alunos.

Implementar uma API à parte serve somente para reinventar a rodar. Na verdade, considerando que haverá pouco interesse em uma API paralela, a existência da mesma pode, na verdade, complicar a aquisição de conteúdo. O que fazer, então, se o seu LMS já tem sua própria API? Duas opções: implementar o SCORM como uma interface adicional ou envelopá-lo sobre a API já existente. A segunda opção não é vantajosa por causa das grandes diferenças existentes entre o padrão e as APIs ricas normalmente existentes, mas pode ser usada.

Em resumo, então, o que o SCORM oferece é agregação de dados com a possibilidade de distribuição de implementação de cursos.

Mas, como fazer se há limitações que impedem o uso do mesmo, sejam monetárias, técnicas ou de qualquer outra natureza?

Quando as limitações são de ordem financeira, eu acredito que a solução mais fácil seja usar um LMS que suporte uma API qualquer e que forneça flexibilidade suficiente para uma migração posterior para o SCORM. Nesse caso, o maior problema são os cursos que não terão compatibilidade para frente. Considerando a vida útil dos cursos, porém, isso provavelmente não vai ser um problema. Alguns dos LMS de código aberto possuem uma estrutura de plugins que pode ser usada para extendê-los. Um módulo SCORM poderia ser eventualmente desenvolvido para os mesmos, possibilitando o uso do padrão. O uso de uma API à parte impede que a instituição use cursos prontos no padrão. Mas é uma limitação que terá que ser aceita.

Voltando ao tema de simular uma a API do SCORM, isso pode ser feito também. Um envelope bem simples em JavaScript pode ser usada para fazer cursos SCORM funcionar sob um LMS que não suporte o padrão e ainda, dependendo do modo com a API original é implementada, beneficiar-se da coleta de dados nativo do LMS. Isso pode ser usado também para implementações criadas sem usar um LMS propriamente dito.

Se as limitações são de ordem técnica, eu acredito que um LMS de código aberto, com um boa comunidade em volta do mesmo, tem uma vantagem. Geralmente, essas implementações não requerem muitos recursos e possuem procedimentos de instalação mais simples do que soluções mais pesadas. Perdem um pouco, talvez, em ferramentas de gerências, mas cumprem bem o seu trabalho. Limitações técnicas, principalmente na questão de como instalar ou modificar o LMS para necessidade específicas, também impedem que algumas das soluções mencionadas acima seja usadas.

Finalizando, essa é a minha visão do problema exposto. Podem, inclusive, existir soluções já prontas das quais eu ainda não ouvi falar, embora eu procure acompanhar o mercado. Eu acredito que minhas respostas não são completamente satisfatórias, mas eu espero que elas tenham pelo menos esclarecido alguns dos pontos.

§ 12 Responses to Por que usar o SCORM?"

  • Fernando da Silva Trevisan says:

    Embora praticamente tudo que você falou seja novidade para mim (nunca tinha ouvido falar em SCORM); noto que seus artigos são lúcidos e inteligentes, Ronaldo e valem a leitura.

    Arriscando falar uma besteira enorme: não seria interessante a adoção de um modelo que disponibilizasse dados independente de plataforma, como XHTML, por exemplo, onde os dados podem ser convertidos/importados com relativa facilidade? Aí o contexto de blog/js citado no ínicio do artigo não seria tão prejudicial.

    Apenas uma idéia…

    [ ]’s

  • Gesiel says:

    Coincidentemente hoje eu havia conversado com meu filho sobre esta coisa de adotar padrões sem pensar “no porque adotar”, só porque todo mundo usa. Assunto interessante.

  • Mas por que não usar SCORM?

    “…é o que o mercado dita,…”. O mercado só pensa em “time is money”. O mercado é um ente político não técnico e, muitas vezes, é burro (ou se faz). Portanto, ele não quer a “melhor tecnologia” e sim a tecnologia “mainstream”. Esta tecnologia é, geralmente, determinada pelo marketing (que também não é uma entidade técnica). Resumindo, o mercado está diretamente relacionado com dinheiro. O que é mais caro é melhor. No caso da tua amiga, ela está vendo o outro lado do mercado. O lado que eu decidi trabalhar, mesmo sabendo que não vou ficar rico ou receber fortunas como se trabalhasse para o mercado financeiro, por exemplo.

    Esse mercado tem suas características específicas. Ele não possui pessoas especializadas, não possui muitos recursos (não é possível simplesmente atualizar todos os computadores para começar a rodar .NET ou Java, por exemplo). Esse mercado não se interessa em que tecnologia a solução é baseada. Apenas necessita que as coisas funcionem. Soluções baseadas no SCORM possuem preço proibitivo? São de difícil implantação? Esqueça. Não é a solução adequada. A solução adequada é a solução “inteligente” e não a solução “mainstream”. Não existe? Faça a sua. Reinventando a roda? Não. Você estará simplesmente criando uma solução que não existe para o mercado em questão. Não adianta tentar enfiar um elefante em um fusca. Dá muito trabalho e, no final, não entra. Perder tempo e dinheiro não é admissível nesse tipo de mercado.

    Mesmo sem conhecer LMS, SCORM e outros vírus, eu diria para a tua amiga que a melhor solução para um determinado problema pode variar de empresa para empresa e, mesmo na mesma empresa, a solução poderá ser diferente em épocas diferentes. Cabe ao profissional analisar e escolher a melhor, não apenas pensando nele mas, principalmente, pensando no que é melhor para a empresa, pesando os custos e benefícios de cada ferramenta.

    Não é porque o “mercado” diz que o Oracle é o melhor SGBD que eu vou dizer para o dono do açougue da esquina que ele precisa comprar uma licença para rodar o controle de estoque dele. Posso muito bem utilizar um PostgreSQL que também é um excelente SGBD e obro apenas o custo de instalação. Conforme a situação, um SQLite pode ser ainda a melhor opção, independente de ser inferior aos outros dois.

    Mas são questões difíceis de serem respondidas sem um real conhecimento e análise da situação. Parece que qualquer pergunta resume-se num sonoro: “Depende.” Não existem respostas prontas (a não ser para o “mercado” :-) )

    Feliz do TaQ que voltou a tocar. :-)

  • Gesiel says:

    Guaracy, esta é a pura realidade. Mandou bem.

  • Su says:

    Obrigada pela resposta :) Ela e os comentários que já começam a pipocar estão me ajudando bastante a pensar esta questão. E até me fazendo expandir o foco da questão :)
    Mesmo que eu considere, e bata pé nisso, a escola como algo que deveria estar além do ‘mercado’ ou, pelo menos, a salvo dele na maior parte do tempo, sei que ela não está imune, sei que se defende justamente porque é tocada pelo que dizem as personificações do capitalismo.
    Uma tendência que me incomoda nesta padronização e na sua implementação por meio de aplicativos proprietários é a tendência para ’empacotar’ e automatizar a educação (por aqui não é necessário um professor, por ex). Uma tendência que não escapa da parte de ‘vender’ os tais pacotes.
    No meu entender, conhecimento é bem e não mercadoria e não pode ser empacotado como se fosse. O que realmente se empacota e distribui (e isso pode ser feito via scorm ou no mais simples rss way) é conteúdo/informação.

  • to scorm or not to scorm

    Perguntou aquela professora (de inglês) da Escola Estadual, olhando o cadáver de um processador 486…

    Brincadeiras à parte esta foi uma pergunta que andou atormentando o meu cérebro, um tanto leigo nestes assuntos, nos últimos tempos. Há um an…

  • Ronaldo says:

    Pessoal, desculpe as respostas atrasadas. Os últimos dias foram bem cheios.

    Fernando, obrigado pelos elogios. :-)

    Sobre sua pergunta, o problema do SCORM não está no formato. Inclusive, ele usa um manifesto XML bem completo e um modelo de distribuição bem simples (arquivos ZIP). Mas faz sentido até pensar em um novo padrão. O SCORM tem bastante falhas e não há indicativos de que serão corrigidas tão cedo. O que eu acho difícil é conseguir penetração de mercado. Para bem ou para mal, isso o SCORM tem.

    Gesiel, eu tenho a opiniãp herética de que padrões surgem assim. Se todo mundo usa, é porque funciona. Veja o caso do RSS. Cheio de falhas, mas revolucionou a Web.

    Guaracy, eu concordo em grande parte com o que você fala. Quando o mercado se torna prejudicial e o contexto favorece mudanças, você perde em adotar alguma coisa limitada só porque esta coisa é percebida como unanimidade.

    Mas, mesmo considerando um certa liberdade advinda de uma mercado que não se interesse por padrões em si, refazer todo um trabalho pode se provar tão caro quando adotar um já existente. A não ser que realmente exista um impedimento completo, um padrão tente a facilitar as coisas, como nós sabemos.

    No final das contas, é como você disse: depende. Eu ainda estou procurando encontrar o balanço correto.

    Su,na verdade, eu é que tenho que agradecer. A sua pergunta me abriu novas perspectivas sobre o assunto. Nesses dois últimas dias eu tenho pensando em formas novas de ver a situação que você colocou e estou buscando alguns caminhos alternativos. Logo devo colocar alguma coisa no blog relativo a isso.

    Sobre a questão da automatização, realmente o ensino à distância tem essa característica de afastamento do professor. Mas, eu acredito, é só em um momento inicial. Eventualmente, com mais experiência, banda e outras necessidades, isso deixará de ser verdade. Um amigo meu fez mestrado à distância. Ele disse que se convenceu de que a coisa funcionava quando um professor o mandou calar a boca a mil quilômetros de distância. Ironicamente, o mestrado dele era em educação à distância também.

  • Gesiel says:

    Ronaldo, talvez não tenha me expressado bem: eu adoto padrões e acho que são importantes. Na verdade sou defensor de se adotar padrões. Eu havia me referido a avaliação crítica do padrão antes de usar. Usar só por usar não faz um aplicativo melhor. As vezes torna-o pior.
    Outro aspecto é que surgem “padrões folgazes” a toda hora, que não agregam valor ou se perenizam. O que defendo é o “raciocínio” sobre a escolha e o uso de certos padrões.

  • Ronaldo says:

    Desculpe se eu entendi a sua colocação incorretamente, Gesiel. Realmente, se tudo se transformar em um festa de uso de padrões só porque parecem atender alguma necessidade da aplicação, a coisa complica. Mas eu ainda acho que é melhor exagerar um pouco certas horas… :-)

  • RSS interativo

    Um experimento com RSS interativo.

  • geine says:

    com sua esperiência gostaria que me ajudasse

    quais softwares seria mas conveniente e eficaz para desenvolver cursos online, que é esta a minha real intenção.
    Se for utilizar toobook por exemplo onde entra o scorm acho que não capitei o que realmente é a função do scorm, estou iniciando agora gostaria que pudesse me ajudar.
    abraço
    geine

  • Ronaldo says:

    Geine,

    Sobre ferramentas, eu não tenho muito experiência porque tendo a fazer na mão. As que experimentei era muito limitadas e não valia a pena ficar lutando contra ela.

    Quanto ao SCORM, a sua função é permitir a comunicação fácil entre os cursos e os locais onde eles vão rodar. Essencialmente, é um padrão que permite a reutilização fácil de conteúdo.

    Para saber mais, subscreva-se à lista implementando-scorm no Yahoo! Groups. Lá, pessoas com experiência poderam responder mais rapidamente às suas dúvidas eventuais quando você começar a mexer com o padrão.

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