Links, pontes e favores

November 16th, 2004 § 9 comments § permalink

Com um pouco de atraso, a blogosfera brasileira começa o debate sobre o mérito ou desmérito da reciprocidade no ato de criar um link na Web, especialmente no que concerne a blogs.

Da minha parte, eu espero que o debate não dure muito. O assunto é um campo minado, como os debates na blogosfera em inglês o demonstraram alguns meses atrás, e o discurso civil tende a ir rapidamente pelo ralo — infelizmente.

Eu não vou entrar na história toda por trás do assunto, mas os interessados podem acompanhar o começo no blog do Alexandre, e apanhar as respostas nos blogs do Roberto e do Galvez. (Por favor, ao visitar essas entradas, mantenha uma coisa em mente: os estilos e personalidades desses blogueiros, como não poderia deixar de ser, são notoriamente diferente. Julgue o argumento pelo mérito, não necessariamente pela forma como foi apresentado.)

Voltando à parte que me toca, eu devo dizer que concordo com o Galvez. Na minha não tão modesta opinião, o argumento de que um link deve ser retribuído não faz o menor sentido. Nem no que tange ao processo, nem no que tange ao ato em si.

No que tange ao processo, se todo link fosse retribuído, a Web naufragaria em um mar de referências irrelevantes rapidamente. A intenção de um link é criar um elo significativo entre dois textos. Não implica, necessariamente, que o outro texto se beneficiaria de um link de retorno. Em certos casos, isso é válido. Mecanismos como trackback e pingback realizam essa tarefa de uma maneira bem coerente, onde é necessário. A palavra chave é necessário. O contexto é que determina a reciprocidade. Numa discussão como essa que está acontecendo agora, por exemplo, manter links entre os vários comentários é quase que imprescindível para o entendimento geral do assunto.

Um link é uma mera referência. É um apontador que indica que o leitor do texto atual vai encontrar em outro local algo que complementa o que ele está lendo. Usando uma analogia, o link serve como uma espécie de referência bibliográfica. Esperar, então, que links dessa natureza sejam retribuídos, é como esperar que o autor de um obra qualquer publique uma nova edição agradecendo o uso de seus pontos de vista cada vez que alguém menciona o seu trabalho. Esperar que a pessoa agradeça por isso faz menos sentido ainda. O fato de que na Web isso é mais fácil de fazer não implica que deve ser feito.

Imagine, por outro lado, o que aconteceria se todo link fosse retribuído. Mecanismos de busca como o Google, que usam a quantidade de links para um texto como um parâmetro de relevância, perderiam grandemente sua eficiência (como, inclusive, já pode ser visto no efeito causado por spammers).

Blogrolls, sob esse prisma, servem como indicativos também. Eles dizem: “Eu leio essas pessoas. Você pode visitá-las e talvez encontrará algo que o agrade também.” Nada mais do que isso. Não consigo enxergar onde eles implicam uma obrigação de serem retribuídos.

No que tange ao ato em si, eu também não vejo o ato de criar um link como sendo um favor. Se o link foi feito porque era relevante, esperar a retribuição não faz sentido pelos motivos explicados acima. Se ele foi criado com a intenção de ser retribuído, o seu propósito foi deturpado. Como eu disse em um comentário no blog do Galvez, se o que está envolvido é gratidão, esperar que ela aconteça tira completamente o sentido da ação.

Mesmo quando você está usando o link para recomendar alguma coisa de interesse para os seus leitores, esperar que o recomendado retribua o favor tira todo o mérito da coisa — você diminui a recomendação para um mera exploração da possibilidade de interesse do recomendado. O título da entrada do Galvez, pesado como alguns acharam, é uma mera reflexão desse fato.

Existem outras questões (como tráfego e notoriedade) que são periféricas e que eu acredito não haver necessidade de mencionar aqui. De qualquer forma, para elas eu mantenho a mesma opinião: se você faz alguma coisa esperando que os outros respondam da maneira que você deseja, você está cimentando o caminho para uma decepção.

Eu não tenho nada contra as ações em si (todo blogueiro é um narcisista, como eu já disse aqui outras vezes), mas acho a preocupação excessiva com elas acaba desviando a atenção do que é importante.

Finalizando, para o Alexandre, eu quero falar de dois aspectos dos seus comentários no blog do Galvez.

Primeiro, você disse que o Galvez não entrou de gaiato na história. Se isso é verdade, eu também estou entrando de gaiato. Mas eu não acredito que isso seja verdade. Uma razão é que a Web é pública. Se você não quer que os outros comentem sobre o que você escreveu, ou não coloque em público ou proteja de modo que apenas aqueles que você quer que comentem possam ver. Esse caráter público e semi-perpétuo do que é postado na Internet invalida o argumento de que alguém está metendo a colher no que não foi chamado. Servidores Web não fazem acepção de pessoas. E blogs também não são especiais em qualquer sentido.

Segundo, os seus argumentos no blog do Galvez careceram em alguns momentos de lógica. (E, sim, eu estou defendendo o Galvez.) Não há necessidade de partir para ataques pessoais, principalmente apelando para comparações que não fazem o menor sentido. Não só atrapalha a discussão, como diminui o poder do seu argumento. Por exemplo, você mencionou a gentileza do Roberto e esqueceu dessa mesma gentileza nos comentários do Galvez — especialmente se você considerava que ele estava errado. Quando não temos o contexto completo, mais cuidado ainda é necessário. Referências como a do Scoble e a da entrada feita pela Shelley Powers deixam ainda mais clara a questão para quem souber ler nas entrelinhas.

Espero que você saiba receber isso no espírito em que é oferecido, com respeito por outro participante nesse discurso global e como apreciador de seus textos (embora não de long data e mesmo que difiram muito da minha opinião algumas vezes).

Acabei escrevendo mais do que queria sobre o assunto, mas prefiro deixar minha opinião registrada. E que um milhão de flores desabrochem.

Death March

November 5th, 2004 § 9 comments § permalink

Todo programador já vivenciou o tipo de projeto conhecido como Death March. Aliás, eu acho que esse é o estado comum dos projetos em firmas aqui do Brasil, principalmente as pequenas, onde a competição em mercados restritos leva a estimativas muito baixas do tempo necessário para desenvolver um projeto. Conseqüentemente, as coisas falham, erros são cometidos e atrasos se acumulam.

Hoje, eu finalmente consegui sair dessa fase em um projeto e finalmente relaxar, sabendo que a situação está sobre controle. As três últimas semanas foram um caos de longas horas, pouco sono e muito desespero. O feriado prolongado que eu previa acabou desaparecendo em um mar de horas extras.

O projeto, na verdade, não era nem tão grande assim, mas algumas falhas internas tornaram os problemas muito maiores e levaram a algumas decisões incorretas que deixaram a aplicação fraca e incapaz de lidar com muitas das situações previstas da maneira necessária.

A única solução era corrigir os problemas e refatorar extensivamente, justamente o que eu passei fazendo nessa reta final. Código reproduzido infindavelmente por meio de Copy & Paste foi convertido em métodos. Métodos de 800 linhas caíram para 50 por meio do uso estratégico de sub-rotinas e com o tempo o código parou de parecer uma bagunça e eu comecei a acreditar que o projeto veria a luz do dia.

A história termina bem porque o cliente testou o sistema e, com exceção de alguns problemas de entendimento, o código funcionou muito bem. Nenhum erro catastrófico e nenhuma inconsistência. E eu vivi para mais um dia.

Mulher de Um Homem Só

November 5th, 2004 § 5 comments § permalink

Por meio do Roberto, eu descobri o blog do Alexandre Almeida, ao qual já estou subscrito por causa do interessante conteúdo das entradas que li no meu primeiro contato com o mesmo. Os artigos, que são provocantes e bem-pensados, apelam para o meu lado de advogado do diabo, mesmo que eu não concorde com uma boa parte dos mesmos.

Mas essa entrada é mesmo sobre o livro do Alexandre, Mulher de Um Homem Só, também recomendado pelo Roberto. Eu baixei o livro e, a exemplo de outros leitores, li rapidamente, em duas sentadas, tanto pelo tamanho curto (apenas 50 páginas) quanto pelo fato do mesmo absorver o leitor, deixando-o na expectativa de saber e entender mais sobre o que está acontecendo na estória.

Aliás, esse é, no meu entendimento, um dos maiores méritos de um livro. Se o texto conseguir provocar no leitor essa vontade de continuar a leitura indefinidademente, mesmo que o tempo para a mesma seja limitado, ele já atingiu a maior parte do seu objetivo. Ninguém lê um livro até o final, tão sofregamente, se o mesmo não consegue tocar alguma parte da alma da pessoa.

Dito isso, alguns comentários sobre a estória:

Quanto ao passo, eu achei excelente. A narrativa é um desabafo e o passo do livro, desesperado, conturbado e avassalador se encaixa bem no contexto da estória. Mais do que isso, se coaduna com o que percebemos sobre o que é contado. Ao buscar os momentos de sua vida em que desabafos aconteceram, o leitor percebe a coerência entre o passo da narrativa e a verdade do desabafo.

Estilisticamente, eu também gostei do livro. O Alexandre emprega perfeitamente o português, construindo frases que soam bem ao ouvido e reforçam a imagem mental que fazemos da personagem principal. Metáforas, símiles, metonímias e outras figuras de linguagem, com poucas exceções, dão um vigor ao texto que me apeteceu bastante. O uso da linguagem coloquial também é primoroso.

A estória, em si, é muito interessante. Comentando o livro com minha esposa e nos colocando na pele da narradora, nós tivemos que adimitir que a situação é uma em que não gostaríamos de estar. Seja do lado de quem for na estória. Em não vou comentar nenhum detalhe específico para não estragar a surpresa para outros eventuais leitores, mas acredito que ninguém se desapontará com o tratamento da mesmo, exceto, talvez, por um ponto que eu vou comentar mais adiante.

Um outro pronto interessante, comentado também pelo Roberto, é a subjetividade da estória. Eu geralmente não gosto de narrativas em primeira pessoa, mas essa é uma que me atraiu por levar ao extremo a falta de confiabilidade do narrador. Isso gera situações de forte ironia dramática que ajudam a carregar a narrativa adiante e servem para dar mais veracidade ao texto, sem insultar a inteligência do leitor que pode ler nas entrelinhas as possíveis problemas que essa desconexão provoca.

No que tange ao desenvolvimento dos personagens, eu vi apenas um problema. Carla, a narradora, é desenvolvida plenamente e parece real aos narradores. Os outros personagens, figuras indiretas da narrativa que ela faz, também ganham realidade atráves dela. Apesar disso, eu não consegui identificar bem as vozes dos personagens. Em outras palavras, todos acabam soando um pouco como Carla. Eu não considero isso um problema narrativo, mas sim um de construção de diálogo.

Um outro problema com a narrativa é a onisciência do narrador. O Alexandre optou por isso, conforme ele diz na apresentação do romance, como uma forma de complementar a subjetividade do mesmo. Na minha opinião, essa onisciência não só não funciona como prejudica as partes em que aparece.

Um dos meus mentores na arte de escrever costuma dizer que não existe certo ou errado em um texto. Tudo o que funciona é válido. Eu acredito que a onisciência no texto do Alexandre não funcionou a contento. Mestres como García Márquez podem conseguir, mas iniciantes como nós não. Espero que o Alexandre não encarre isso como denegrindo o seu talento. Meu mentor, com mais de vinte livros publicados na carreira, era o primeiro a admitir que não estava no mesmo níveis dos grandes mestres da literatura — ainda.

Explicando melhor a questão, a onisciência não funciona exatamente por causa da falta de confiabilidade do narrador, mencionada acima. Do modo como a estória é construída, se o narrador fosse onisciente, ele não falaria de suas dúvidas e questionamentos da mesma forma. A subjetividade da estória e a onisciência do narrador estão em contradição e por vezes me fizeram sair daquele estado voluntário de suspensão de descrença que caracteriza a leitura.

Ao contrário do que outro leitor apontou, eu não que o fato disso não funcionar decorra do tipo de texto ou do gênero do livro. Qualquer outro texto onde isso acontecesse ficaria prejudicado, exceto se a técnica fosse realmente muito bem trabalhada para fazer funcionar a opção — e mesmo assim eu não tenho certeza do resultado.

Um último problema que eu vi, foi o final abrupto do texto. O Alexandre explica também essa opção, mas eu acho que o final veio um pouco antes do que eu considero ser o final real do texto. A escritora Nancy Kress, em um dos seus livros de teoria literária, diz que o escritor faz um promessa implícita ao leitor no começo de cada estória. O leitor dá o seu tempo ao texto, e em troca recebe uma conclusão definitiva. Isso não exclui, é claro, finais abertos. Mas o final aberto, por mais abruto que seja, deve satisfazer a promessa implícita. Eu acredito que o final do livro do Alexandre falha nesse quesito por não estar à altura (em termos de peso, passo e força) do resto do livro.

Um dos primeiros contos que eu escrevi usava a mesma técnica. Meu mentor, depois de ler o meu conto, me disse exatamente isso. Eu não satisfizera a promessa ao leitor. E, por isso, o texto perdera algo.

Mas, chega de comentários. O Alexandre está de parabéns pela iniciativa. Colocar um texto na Web assim é ao mesmo tempo um boa estratégia e um ato corajoso. Um outro escritor que me vem à mente agora é o John Scalzi, que utilizou a mesma técnica com o seu primeiro livro, Agent to the Stars. (Infelizmente, o site do autor está em reforma e o link para o livro não está disponível.) O Scalzi conseguiu ser publicado eventualmente e hoje goza de um bom prestígio junto aos leitores do gênero que escreve. A estratégia que ele usou, além de oferecer o livro para download, foi cobrar pelo mesmo como shareware, ou seja, se o leitor gostasse, ele pagava o tanto que quisesse. Isso não só deu certo como ele conseguiu ainda alguns bons trocados com o livro.

No Brasil, onde conseguir ser publicado é algo quase impossível, qualquer estratégia para atrair a atenção dos editores é válida se for de bom gosto. No gênero que o Alexandre escreve, mainstream, é mais fácil do que o meu, ficção científica e fantasia, mas não muito mais.

Resumindo, eu recomendo o livro e o blog do Alexandre. Espero que ele não fique chateado com os meus comentários, mas eu prefiro ser honesto e apontar os erros que eu vejo e talvez aumentar as chances de publicação do livro do que simplesmente endossar e deixar por isso mesmo.

(A propósito, Alexandre, não é um mistério tão grande assim que pessoas leiam seu blog e não criem um link. Além de existirem outros mecanismos para isso — como o Bloglines, por exemplo — a preguiça humana é um fator a ser considerado. Eu, por exemplo, só atualizo o template do meu blogroll de tempos em tempos. E sobre gentileza, bem, eu acho que o Galvez já tratou disso.)

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