Perdido Street Station

December 3rd, 2004 § 2 comments

Há livros que deixam uma impressão tão duradoura no leitor que este não consegue deixar de pensar nos mesmos por dias a fio depois de terminada a leitura. Perdido Street Station, do China Miéville, é um dos livros que me causou essa sensação. Eu terminei a leitura desse livro fantástico há algumas semanas e ainda me pego pensando nas situações, personagens e possibilidades descritos ou sugeridos pelo livro.

Definir Perdido Street Station é uma tarefa complicada. O próprio autor o caracteriza como weird fantasy, mas eu acho esse rótulo meio sem significado. Toda fantasia (e, por extensão, toda ficção fantástica) tem que ser weird na minha opinião, exibir esse senso de maravilhamento que deixa o leitor preso ao mundo criado e o leva a fronteiras inexploradas. Mas, seja lá qual for a categoria em que Perdido Street Station se encaixe, o livro leva essa estranheza ao extremo e apresenta o leitor com um dos melhores mundos fantásticos já criados, povoados de criaturas ímpares e complexas cujas vidas e desventuras compelem o leitor, o atraindo e repelindo ao mesmo tempo. Falando em personagens, o título de livro se refere à principal estação de trens da Cidade Estado de New Crobuzon. A cidade, por si só, é uma das figuras importantes do livro, exibindo em uma incrível complexidade e diversidade. A estação é onde o clímax da estória acontece, embora cada pedaço da enorme e decadente metrópole retratada por Miéville tenha seu próprio encanto, por mais esquisita e degradada que pareça.

Voltando à questão do gênero, o livro talvez possa ser classificado sob o manto geral da science fantasy por falta de um gênero melhor, aplicando-se as ressalvas mencionadas anteriormente. Ele apresenta elementos tanto de ficção científica quanto de fantasia, mas, ao contrário de muitos autores que experimentaram ou escreveram sagas complexas nesse estilo de ficção, Miéville é capaz de criar um balanço perfeito entre os elementos fantásticos e os científicos que não chegam a se contradizer ou soar falsos um ao lado do outro. Eu fiquei especialmente encantado com a versão imaginária da Grande Teoria Unificada apresentada por Miéville, que se converte em um dos pontos principais do livro. Genial e imaginativa.

O enredo do livro é razoavelmente complexo e eu não quero entregar muito para os que pretendem lê-lo. Resumindo, a história é centrada em Isaac Dan der Grimnebulin, um cientista da cidade que é fascinado pelas mais esotéricas questões seja elas da própria ciência, taumatúrgicas ou ocultas. Isaac, enquanto trabalhando em seu laboratório, recebe a visita de uma garuda (uma espécie humanóide com características de aves e capazes de vôo). A garuda faz uma proposição para Isaac, que aceita o projeto com grande interesse. No meio do projeto, alguns fatos inesperados acontecem, resultado da curiosidade insaciável de Isaac, jogando a cidade nas garras de um terror intolerável. Isaac toma então sobre si a responsabilidade de corrigir os seus erros. No meio dessa busca, amigos e inimigos de Isaac se envolvem, cada um com seus alvos e problemas, em uma trama complexa e extremamente satisfatória.

Personagens cativantes aparecem em todo o livro, tanto em papeis principais como secundários. Exemplos são Lin, a amante khepri (uma espécie de humanóide com características insetóides) de Isaac, e o próprio Yagharek, o garuda. Como não ficar encantado com um personagem trágico e chamado de Indivíduo Muito Muito Abstrato Que Não Deve Ser Respeitado Yagharek. Eu também fiquei especialmente fascinado com o Embaixador do Inferno e sua espécia (cuja participação, infelizmente, é breve); os Remade, seres fisicamente modificados por ciência e artes taumatúrgicas das maneiras mais horríveis e dolorosas possíveis, mas com uma humanidade inalienável; e o Weaver, que é um dos personagens mais incríveis com os quais já me deparei. Só mesmo lendo para ver.

Apesar do que é descrito acima, Perdido Street Station não é uma mera exploração de um milieu fantástico, fruto de uma imaginação fértil. Antes, o livro é uma exploração daquilo que nos faz humanos e de como diferenças são necessárias e parte da nossa experiência. Os personagens de Miéville tocam uma corda profunda no leitor, levando-o a pensar em temas como consciência, amor, sacrifício e o papel do ambiente na formação pessoal. Este último está muito relacionado com as predileções políticas do autor que se manifestam na obra de uma maneira coerente e interessante. Nenhuma linha do enredo é deixada sem resolução, embora algumas delas possibilitem seqüências imediatas. Na verdade, existem dois livros do autor que se passam em New Crobuzon, embora não diretamente relacionados com a estória de Perdido Street Station.

Estilisticamente, o livro é também quase perfeito. O tom sombrio e o passo rápido, aliados com um vocabulário bem próprio, repleto da agressividade da linguagem moderna e da decadência e ennui vitorianos, tornam o leitura agradável. É difícil não gostar dos jogos de palavras e das inovações estilísticas do autor. O único problema é o exagero em certos momentos.

Em resumo, o livro é um desses que deve ser parte obrigatório na biblioteca de fãs do gênero. Aliás, Miéville demonstra tanta maestria que eu acredito que fãs de qualquer gênero fantástico apreciariam o livro. Eu já estou com o próximo livro do autor, passado no mesmo mundo, engatilhado e acredito que vou gostar tanto quando gostei desse primeiro. Leitura mais do que recomendada.

§ 2 Responses to Perdido Street Station"

  • Olifante says:

    Concordo inteiramente. Já há muitos anos que não lia um livro que me marcasse tanto como Perdido Street Station. A combinação de SciFi, Fantasy e Horror é estupenda! Para além de o livro ser extraordinariamente imaginativo e bem escrito, consegue assustar a sério – nalgumas partes, como p.ex. a cena dentro do covil das bestas dentro da redoma das cactacae deixaram-me com o coração quase a sair para fora do peito. Este é um livro que irá ser recordado como um dos maiores clássicos de sempre da Weird Fiction / SciFi / Fantasy / Horror.

  • Ronaldo says:

    Eu estou agora é com o outro dele, The Scar, na minha fila. E depois quer conseguir o Iron Council também. Virei fã de carteirinha do Miéville mesmo. No que depender de mim, ele pode viver para sempre. :-)

    Essa parte que você cita é realmente assustadora. Agora, o que mais me empolgou foi o Weaver mesmo. Fascinante o conceito e o uso da linguagem feitos.

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