Confiança no Google

December 15th, 2004 § 2 comments

Uns meses atrás, por ocasião do lançamento do Google Desktop, eu escrevi um texto aqui falando que eu não confiava muito no Google, principalmente por causas de um certa dissonância entre a política declarada deles — “Don’t be evil” — e algumas das ações tomadas por eles em certos incidentes, como, por exemplo, o episódio da ajuda à censura na China por parte do Google News.

Na época, alguns até me chamaram de neurótico, mas isso não me incomoda porque, quando o assunto é privacidade, eu chego quase à paranóia mesma. Se eu não me defender nessa área, ninguém mais vai. Para certas coisas, eu realmente quero saber o que está sendo feito e como está sendo feito.

Mas, voltando ao assunto, a questão da confiança no Google continua aberta e com o lançamento de mais um projeto em larga escala da companhia, a digitalização de livros de vários bibliotecas grandes dos Estados Unidos, as pessoas estão voltando a considerar o assunto. Dessa vez, três nomes conhecidas na blogosfera dão sua opinião.

Scott Rosenberg diz:

The public has a big interest in making sure that no one business has a chokehold on the flow of human knowledge. As long as Google’s amazing project puts more knowledge in more hands and heads, who could object? But in this area, taking the long view is not just smart — it’s ethically essential. So as details of Google’s project emerge, it will be important not just to rely on Google’s assurances but to keep an eye out for public guarantees of access, freedom of expression and limits to censorship.

Rosenberg aplaude a inicativa do Google como sendo uma das melhores já tomadas pela companhia, mas não perde a visão de que o Google é uma empresa, com interesses comerciais que podem entrar em conflito com o que o público em geral quer ou precisa. Hoje, Rosenberg argumenta, podemos confiar no Google razoavelmente porque a companhia tem mais acertado do que errado no que tange ao interesses dos seus usuários. Mas, ele continua, isso provavelmente não vai durar. As pessoas que hoje dirigem o Google vão dar lugar a outras no futuro, com prioridades que podem não se alinhar com as políticas relativamente benéficas praticadas atualmente pela empresa.

Obviamente, eu concordo. O Google tem um glamour especial de companhia que sempre acerta no que faz, que realmente inova e eleva o patamar do que se espera de aplicações Web e isso muitas vezes faz com que as pessoas se esqueçam de fatos básicos. Nenhuma companhia alia os seus interesses corporativos com os dos usuários por bondade, é óbvio. Esperar que o Google seja diferente é um erro.

Dave Winer toca nesse ponto em seu comentário sobre o artigo de Rosenberg:

Another way of looking at it: What if Microsoft were doing what Google is doing? Of course we wouldn’t let them do it without a very serious and probably very shrill examination. Well, I’m telling you, Google today is as dangerous as Microsoft, and I wouldn’t bet on their trustworthyness (sic), not without a lot more light having been shed on this. The technology industry is built on a foundation of arrogance and disdain for users. Google is too. You may not have seen it yet, but I have.

A comparação com a Microsoft é interessante porque é sempre feita em relação ao Google, mas em um aspecto totalmente oposto. O Google é freqüentemente citado como sendo a nova Microsoft, no sentido em que será a companhia a quebrar o monopólia da gigante em áreas de interesse como a própria Microsoft fez com a IBM. Mas isso também ofusca as questões que devem ser feitas com o controle que o Google exerce sobre os dados de seus usuários. Comentando sobre os dois textos anteriores, Jon Udell comenta:

Bottom line: I think that stewardship of so much of our private as well as public information requires a lot more transparency than Google currently practices. For example, on the day that MSN Search was announced I pointed to a funny but tasteless prank that Google News played on Microsoft. Are we really supposed to believe that an algorithm chose that unflattering photo of Bill Gates? Of course it didn’t. But how can we know for sure?

O Google hoje controla um conjunto de informações imenso e eu não estou falando dos documentos que ele indexa para o seu mecanismo de busca. Seja no Orkut, no Google Mail ou no Blogger, o Google armazena em seus servidores uma quantidade gigantesca de dados em favor dos usuários desses serviços, muitas vezes sob termos que são para lá de duvidosos. Felizmente, eles ainda disponibilizam algumas ferramentas para a exportação desses dados, embora, algumas vezes, só depois de outros terem contornado as barreiras iniciais.

Essa mordomia dos dados, como Udell coloca, é uma responsabilidade muito grande e o Google ainda não enfrentou uma crise de tamanho suficiente para permitir julgar como eles reagiriam em caso de problemas. Inclusive, essa seria uma forma de ganhar a maior confiança de seus usuários: definir mais claramente os cenários problemáticos e como eles lidariam com os mesmos.

A questão da centralização também é importante. A centralização é sempre apontada como uma das características indesejáveis de protocolos, produtos e serviços. No caso do tipo de produtos que o Google oferece, a centralização é até desejável em certos aspectos por permitir a prestação de um serviço melhor. E descentralizar, obviamente, não faz sentido para uma companhia. Mas, mais uma vez, é necessário ter cuidado com a forma como o acesso é provido. Caminhos fechados para o acesso sempre prejudicam os usuários mais tarde.

Nesse tipo de situação é que eu concordo mais com a ideologia por trás do movimento de código livre. Ainda que existam inúmeras questões a serem resolvidas nas áreas de conflito entre os interesses comerciais de uma empresa e a necessidade de dar segurança aos usuários por meio da liberação do código, eu ainda penso que o código livre oferece o melhor caminho para a proteção dos interesses do público.

Em resumo, por melhor que o Google seja como companhia, eu acredito que o nosso papel como usuários é observar sempre o que está acontencendo. Não fazer isso é arriscar surpresas desagradáveis mais tarde. Como Rosenberg também diz em seu artigo, o que var acontecer na hora que uma nova geração no Google decidir que é preciso mais agressividade com o portifólio de produtos e procurar novas maneiras de lucrar? Os usuários é que têm tudo a perder se decisões erradas forem tomadas.

Assim, eu mantenho minha opinião. Sou usuário de alguns produtos do Google, mas faço minhas escolhas entendendo que eles podem mudar abruptamente suas políticas como é direito deles. Enquanto as águas estiverem amenas, eu continuo a nadar. E, na hora que for necessário, eu mantenho minhas opções abertas para qualquer eventualidade. Eu acredito que essa é uma posição sensível.

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