His Dark Materials

December 18th, 2004 Comments Off on His Dark Materials

His Dark Materials é a bem imaginada, mas em última instância desapontadora, trilogia de Philip Pullman.

O primeiro contato que eu tive com Pullman foi através da Amazon. Eu estava olhando alguns livros de fantasia para comprar e uma das recomendações na página em que eu estava era o livro inicial da trilogia, The Golden Compass (ou Northern Lights, como ele chamado nas edições inglesas).

Eu li a sinopse e me desinteressei imediatamente. Para começar, o protagonista é uma criança, coisa que raramente me interessa atualmente. Com exceção de alguns clássicos e alguns livros muito bem escritos, a maioria das estórias onde o personagem principal é muito jovem tende a estar abaixo do nível que eu espero. Segundo, uns dos personagens era um urso de armadura. Eu não sei por que, mas no momento me ocorreu que eu nunca leria um livro com um urso de armadura como personagem. Eu estava enganado, mas no momento me pareceu uma coisa ridícula demais para o meu gosto. O livro parecia uma história bem infantil.

O tempo passou e eu acabei esquecendo do livro. Uma breve menção apareceu em um dos blogs que eu li, falando justamente sobre os tais ursos de armadura. Mas eu já tinha esquecido do livro e só lembrei do fato bem depois.

Quando eu comecei a comprar livros na Fictionwise, comecei a fazer uma lista dos que queria adquirir gradualmente. E mais uma vez topei com a trilogia do Pullman que, se não me engano, estava sendo oferecida em uma promoção na época. Dessa vez, por algum motivo, minha opinião foi diferente. A resenha presente no site dava uma visão diferente e mais agradável dos livros — sem mencionar nenhum urso em armadura — e eu acabei comprando os três livros.

Eu baixei os livros da Fictionwise, e os coloquei na minha fila de leitura. Mesmo depois de tê-los comprados, eu acabei relutando um pouco para começar a ler, com medo de me decepcionar. Mas, depois de algum tempo, finalmente tomei coragem e comecei a ler o primeiro livro.

Eu me apaixonei na primeira frase. Para um obra de fantasia, a frase é simplesmente perfeita. E o resto do primeiro livro só me convenceu de que a minha primeira opinião sobre a estória estava errada. A protagonista, Lyra, embora uma criança, é tão bem construída que é impossível não se interessar pelo destino dela. Os personagens secundários também não ficam para trás. E — eu sei que isso é irônico — os ursos de armadura se revelam criaturas fascinantes do final das contas. Nesse primeiro livro, Pullman mantém um ritmo bem balanceando alternando partes mais rápidas e mais lentas para um bom efeito geral. O uso da linguagem, com algumas gírias e expressões forçadas, me incomodou um pouco em algumas partes, mas não chega a atrapalhar a leitura. A única falha grave do livro talvez seja o fato de que ele demora a chegar em algum lugar. Os eventos intermediários são muito interessantes, o que impede o livro de se arrastar, mas ele termina de uma forma muito brusca, revelando que a trilogia, na verdade, é um único livro de mil e trezentas páginas dividido em três partes.

Os eventos narrados nessa parte inicial da estória são, assim, uma preparação para o próximo livro, The Subtle Knife.

Nesse próximo volume, livre de algumas restrições da primeira parte da estória, Philip Pullman revela o alcançe real de sua trilogia: uma releitura de Paradise Lost, de John Milton. Digo uma releitura, porque Pullman não está simplesmente recontando Paradise Lost, mas oferecendo uma visão completamente diferente da do poema, embora compartilhando o tema básico. Eu não vou comentar sobre como isso é feito, até porque minha herança filosófica revelaria mais do que o necessário. Leiam e tirem suas próprias conclusões.

Em The Subtle Knife, Pullman introduz uma quantidade grande de novos personagens, incluindo o segundo protagonista, Will, que, embora também muito jovem, tem um encanto especial. Os dois personagens infantis de Pullman são um pouco inteligentes demais para a idade deles, mas o autor consegue explicar isso em termos da estória e o leitor não se sente enganado com o fato. Will e Lyra são um par excelentemente realizado e o segundo livro é ainda melhor que o primeiro, expandido o universo e mostrando melhor os objetivos dos grupos principais de personagens.

Como na primeira parte da trilogia, a falha dessa segunda é gastar tempo demais em eventos que são interessantes, mas que poderiam ser resumidos para expandir em outras áreas. Mesmo assim, algumas cenas são memoráveis e ganharam um lugar em minha lista de passagens favoritas.

É no terceiro livro que a coisa desanda. Já no primeiro capítulo de The Amber Spyglass, é possível notar que o estilo do livro não está de acordo com os outros. Embora alguns recursos interessantes sejam usados, do ponto de vista estilística, a narrativa simplesmente não tem a força dos dois primeiros. Os eventos são previsíveis, lentos e sem muito sentido. O que era uma aventura perigosa e cheia de significado, se torna uma caminhada em direção a nenhum lugar. O luneta de âmbar do título desse terceiro livro, ao contrário do compasso do dourado do título do primeiro, virtualmente não tem função na estória. Personagens interessantes são envolvidos em eventos irrelevantes quando no segundo livro muito fora prometido sobre os mesmos.

O fim do livro é desapontador, como eu mencionei no começo dessa resenha. A narrativa degenera para o sentimentalismo e perde completamente o interesse. Pullman não é capaz nem de atar as cordas da estória que ele deixara soltas nos dois primeiros livros. As resoluções de algumas linhas do enredo chegam a ser patéticas pela forma como foram costuradas, ao invés de serem tecidas dentro da trama e tema maiores. O clímax da estória é vazio, e priva a narrativa de um vilão completo, deixando apenas um estereótipo no lugar.

Apesar disso, como eu disse, a trilogia tem seus grandes méritos. Lyra e Will, e seus amigos e inimigos — bruxas, ciganos, ursos de armaduras, mercenários, cientistas, e anjos — são muito bem trabalhados. O aletiômetro, o compasso dourado do título do primeiro livro, é um objeto fascinante. A teologia experimental do mundo de Lyra e os dæmons são muito bem imaginados e encantadores em si. Mas um dos pontos principais dos livros (Dust, ou Pó na tradução) se revela praticamente um MacGuffin mais tarde — pelo menos na opinião deste leitor.

Assim, embora seja muito bem imaginada, a trilogia deixa a desejar, com um final que me decepcionou profundamente. Embora a leitura tenha valido a pena, pelas novidades que apresenta, o término da mesma quase me fez desejar não tê-la lido.

Um filme do primeiro livro está em produção, com os demais a serem filmados na seqüência, como O Senhor dos Anéis. Pelo que foi dito, porém, há modificações substanciais na estória, suficientes para tornarem o filme completamente do livro. Eu não pretendo ver se isso acontecer da forma como estou pensando, mas fica o aviso.

Resumindo tudo isso, se um final problemático não é suficiente para fazer você desistir de um boa leitura intermediária, eu não tenho problemas em recomendar a trilogia para você. Caso contrário, nem comece.

Comments are closed.

What's this?

You are currently reading His Dark Materials at Superfície Reflexiva.

meta