O Terceiro Milênio

December 28th, 2004 Comments Off on O Terceiro Milênio

Revisitar obras que marcaram você em algumas épocas de sua vida sempre envolve um risco. Às vezes, o que você achou tocante ou digno de nota em uma primeira visita se transforma em algo banal e carecente de interesse em uma próxima passagem. Outras vezes, a obra consegue até manter parte do encanto inicial mas você percebe que a mesma possui fraquezas que você não notara anteriormente.

Esses dias, eu reli O Terceiro Milênio, de José Maria Domenech. A minha história com esse livro é engraçada, como eu já havia comentando em uma entrada anterior. Depois de quase dez anos sem me lembrar que o mesmo existia, ele é mencionado em uma lista de ficção científica da qual participo. No dia seguinte, eu topo o mesmo em um sebo, apesar de que ele é bem difícil de se achar — e em boas condições, ainda por cima.

Como eu disse também naquela entrada, esse livro foi um dos primeiros de ficção científica que eu li e um dos que me deu o gosto pela coisa. Eu devia ter entre nove e onze anos na época (se me lembro bem onde o consegui) e já me interessava profundamente por qualquer coisa relacionada com ciência, principalmente no que tangia ao espaço. Esse livro foi um dos que me mostraram que era possível combinar ciência e aventura, abrindo meus horizontes literários e me dando também a vontade de escrever minhas próprias estórias. Incluse, eu cheguei até escrever alguns pequenos contos relacionados com o tema do livro e com outras idéias que ele me deu — contos que, infelizmente, eu não guardei.

O livro me causou uma impressão tão forte que por todos esses anos eu me lembrava exatamente de linha geral da estória, embora não lembrasse detalhes específicos. Ao reler o livro, as surpresas vieram com coisas que me passaram despercebidas na minha leitura de infância. Principalmente no que se refere à filosofia pregada pelo livro, eu ainda não tinha a vivência na época para entender boa parte do que o autor queria dizer.

O Terceiro Milênio é uma estória escrita para defender um ponto de vista específico sobre a evolução da sociedade humana, na tradição de Admirável Mundo Novo, A Ilha, Walden II e Utopia. Não tem a mesma qualidade literária desses anteriores, mas possui o mesmo estilo.

No caso d’O Terceiro Milênio, o livro oferece uma visão otimista do futuro embora comece com a nota sombria de um holocausto nuclear, que, ironicamente, na visão implícita do autor, serviria para purgar a humanidade de seus impusos destrutivos. O livro ainda se apoia nas teorias Malthusianas como forma de atingir a sociedade perfeita.

Escrito em 1972, o livro é consideravelmente datado. A estória começa com a vigília espacial da primeira nave espacial humana de grande porte que, embora capacitada a percorrer as longas distâncias entre as estrelas, se destina, na verdade à colonização de Marte. No limiar dO Terceiro Milênio, a nave espera a ordem para o ínicio da missão quando um holocausto nuclear dizima a Terra. Os planos são então mudados pela tripulação e a nave parte para explorar sete estrelas numa caminhada milenar até que a Terra possa ser populada novamente. No retorno da nave, surpresas a esperam.

A estória não é original, mas tem o mérito de ser mais uma exploração das condições da sociedade da época e das possibilidades que a ciência começava a vislumbrar.

O livro é dividido em três partes principais. Os capítulos são bem curtos, geralmente ocupando duas ou três páginas e são bem expositivos. Uma das grandes falhas do livro está justamente aí. Os diálogos às vezes se convertem em grandes explicações que os personagens jamais precisariam de ouvir e que são dirigidas exclusivamente aos leitores. Ironicamente, a parte da qual eu mais me lembrava, que era a da viagem espacial, ocupa meros quatro capítulos no livro, totalizando não mais do que dez páginas.

A primeira parte do livro trata das condições que levaram à construção da grande nave e as evoluções tecnológicas que a possibilitaram. A segunda parte trata da hecatombe nuclear e da viagem da nave. A parte final narra o retorno da nave e as surpresas que a aguardam. Em todas as partes, as teorias do autor são minuciosamente exploradas.

Nessa leitura, eu descobri que não concordo com quase nada do que autor disse, mesmo desconsiderando as previsões incorretas do livro.

A visão de Domenech é de uma humanidade selecionada geneticamente e tecnologicamente controlada, lembrando em muito o livro de Huxley. Domenech divide a humanidade em duas classes, implicando que somente os superiores deveriam ser permitidos procriar. Embora isso não seja dito com todas as palavras, a idéia está lá.

Outra coisa que me desgostou profundamente foi o machismo do livro. As personagens femininas são meras coadjuvantes cujo objetivo é manter um ambiente agradável para os personagens masculinos. Na nave, existem três casais, além do comandante — que é solteiro. As mulheres (cujas qualificações científicas são notadas apenas de passsagem) tem a função de “donas de casa” que mantém a nave limpa, a tripulação masculina bem alimentada e tudo nos seus devidos lugares, dando ajuda ocasional na manipulação de instrumentos científicos.

Os avanços tecnológicos previstos por Domenech — hibernação, escudos magnéticos e inteligência artifical, entre outros — em sua maioria ainda não chegaram. O autor mostra uma certa desconfiança da tecnologia que deve ser mantida sob estrito controle para não voltar-se contra a humanidade. Na nave, três inteligências artificiais compartilham o controle da missão, colocadas, assim por dizer, uma contra a outra para que não se unam e tomem o controle que é devido aos seus mestres humanos.

Existem outros pontos, mas não quero cansar ninguém discutindo as falhas do livro exaustivamente. Apesar desses problemas, o livro ainda retém uma parte do seu encanto para mim. A estória é bem contada e, se não fossem algumas falhas de estilo e as tecnologias ultrapassadas, ainda seria bem capaz de prender a atenção da maioria dos fãs do gênero. Para a sua época, o livro teve o mérito de explorar questões que com o passar do tempo se tornaram ainda mais importantes. Embora as soluções indicadas pelo autor não sejam do meu agrado, a discussão é interessante.

Depois dessas críticas, acho difícil que alguém queira lê-lo. Mas como ele tem um certo valor histórico como um dos poucos livros de ficção científica publicados no Brasil, vale a pena dar uma olhada.

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