Ecos e borrões

January 1st, 2005 § 4 comments

Primeiro dia do ano. Quando eu era mais jovem, eu tinha o costume de passar a virada do ano acordado. Ficar acordado mais do que vinte e quatro horas seguidas pelo menos uma vez a cada trezentos e sessenta e cinco dias era uma forma de indicar uma nova etapa na minha vida. Depois que me casei, os hábitos mudaram. Ficar mais velho, trabalhar até o último segundo do ano algumas vezes, ir para casa cansado; tudo isso acaba tirando aquele ânimo juvenil de desafiar o próprio corpo e o tempo.

Esse ano, acabei passando a noite acordado por coincidência. Não tinha planejado, mas acabei ficando e sozinho ainda por cima. Assisti um filme com meu irmão, e depois ele foi dormir. Minha irmã acordou, ficou sem sono e assistimos outro filme. Enquanto isso, o resto da casa dormia. Terminei a noite no computador, lendo as últimas notícias, navegando a esmo e pensando na vida.

O dia lá fora está amanhecendo. A luz de um sol ainda pálido está se espalhando lentamente pela janela, iluminando as casas ao redor e colorindo o céu de um rosa esmaecido que, fugaz, já começa a perder o seu lugar para o suave azulado da manhã. E eu penso naqueles cujo nascer do dia não foi ou não será tão calmo.

Fim de ano é sempre tempo de reflexão, por mais que se tente evitar isso. A aura fugidia de mais um ano que se escoa, deixando para atrás apenas ecos e borrões que vão sumindo e se apagando lentamente, convida a mente a refletir sobre sua mortalidade. O fim do ano velho e o início do ano novo são o limiar da realidade, onde o passado e o futuro se encontram por um breve instante, ficando face a face em uma luta silenciosa.

O ano de 2004, em retrospecto, foi um ano incrível para mim. A minha vida sofreu uma reviravolta completa com o nascimento do meu filho e isso me deu uma perspectiva completamente diferente de tantas coisas que eu não saberia por onde começar se quisesse enumerá-las. E mesmo os outros eventos menores acabaram coloridos por esse acontecimento.

Esses dias, eu estou lendo Tomorrow Now, do Bruce Sterling, e ele usa bastante a parternidade como uma analogia para algumas previsões do futuro que ele faz. Uma frase dele, em especial, chamou minha atenção: “Nós somos o passado de nossos filhos”. Nada como um nascimento para deixar isso claro. Eu sou o passado de meu filho. Quando ele olhar para atrás, nos anos vindouros, eu serei uma das referências pelas quais ele julgará a sua vida assim como os meus pais são uma das referências pelas quais considero a minha.

E embora essa frase do Sterling possa parecer desanimadora, ela me afigura como cheia de otimismo. Ao colocar o passado nesse foco tão claro, fica mais fácil por o resto de nossas vidas em perspectiva. O tempo voa, como é proverbialmente dito, mas o tempo também escoa com uma suavidade que chega a doer, uma doçura que pode ser saboreada a cada instante indivisível da existência.

Eu me lembro de esperar ansiosamente pela virada do milênio. Que época para ter vivido! Poder contemplar o momento em que três noves se converteram em três zeros movendo o ponteiro do relógio em um salto tão pequeno e ao mesmo tempo tão gigantesco. E agora, cinco anos se passaram desde a própria virada — mais do que oito desde aqueles dias de espera. Eu cresci e diminui. Eu aprendi e esqueci. Eu me evergonhei e me orgulhei. Eu ri e chorei. E cada um desses segundos de memória é um tijolo avermelhado em minha identidade. Ecos e borrões, mas trilhas também. Marcações no caminho.

O futuro? Eu não sei. Usando as palavras de um velho sábio, a única coisa que me cabe é fazer o melhor uso possível do tempo que me é dado. E essa talvez seja a única resolução que eu possa fazer nesse começo de ano: considerar o potencial de cada minuto. Alguns, inevitavelmente, eu desperdiçarei. Mas os outros, que compensem aqueles que eu perderei. Afinal de contas, há uma casa a terminar — e eu preciso de tijolos.

§ 4 Responses to Ecos e borrões"

  • Dael says:

    Sem palavras, Ronaldo!
    Só tenho a desejar um 2005 de grandiosas realizações para você e que continue nos felicitando com o Superfície, que anda melhor do que nunca.

  • Realmente, é impossível não fazer um “balanço” do ano que se finda. Ao mesmo tempo, acalentamos sonhos sobre o que virá. Afinal, a escansão do tempo – essa coisa tão imponderável – nos oferece momentos de “pausa para reflexão” e nos dá trégua na luta diuturna para controlarmos o horror proporcionado pelo conhecimento da finitude. Mas a frase que você citou, “somos o passado de nossos filhos”, é um alento. Muito bom. Feliz 2005.

  • Gesiel says:

    Putz, muito bacana seu texto, parabens. Como vc disse, o nascimento dos filhos nos modifica e cria novas possibilidades.Hoje sou diferente do que era, e justamente por causa deles. Daqui a pouco (pouco mesmo) poderei ver nos olhos dos meus filhos esta mesma fase de descoberta.

  • Leocadio says:

    Olá, paz e bem!

    Felicidades neste novo ano que se incicia. Realmente, é por aí… e pra lembar de ditados ou chavões aí vai: o importante é sabermos viver o que nos acontece, por isso se chama Presente!

    Abcs.

    leo

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