Livros e Pirataria

May 29th, 2005 § 4 comments

John Scalzi, um escritor de ficção científica cujo blog é um dos meus favoritos, escreveu esses dias sobre a questão de pirataria na indústria de publicação.

Para resumir a posição dele, Scalzi não vê problemas com pirataria. Segundo ele, existem dois tipos de piratas:

Primeiro, os idiotas, aqueles que não compram livros (físicos ou eletrônicos) quer tenham o dinheiro para isso ou não. Essas pessoas simplesmente não estão interessadas em pagar por bens.

Segundo, os piratas ocasionais, que pirateiam porque não tem dinheiro para comprar os livros que querem ler. As razões são diversas: estão estudando e mal tem dinheiro para viver, o livro não está disponível fisicamente onde vivem e fica muito caro importar, e outros motivos similares. Essas pessoas, quando puderem, provavelmente pagarão pelos livros que lerem, especialmente dos autores que aprenderam a apreciar quando não podiam pagar.

Eu tendo a concordar com o que ele disse. Eu conheço pessoas que se encaixam nas duas categorias e realmente há uma divisão bem nítida entre elas. Como leitor ávido, eu já cheguei a me encaixar por diversas vezes na segunda categoria acima, embora atualmente eu raramente baixo um livro que eu já não possua fisicamente (exceto, é claro, quando se trata de e-books). Quando baixo, geralmente é porque preciso encontrar rapidamente uma citação ou esclarecer algum detalhe e fica mais fácil “piratear” uma edição eletrônica temporariamente do que correr os olhos por quinhentas ou mais páginas procurando por uma frase específica.

Inclusive, quando eu me encaixava na principal razão citada por Scalzi (vontade de ler, inabilidade de pagar — principalmente no que concernia a livros mais novos que teriam que ser importados a um custo bem maior), eu mantinha uma lista dos livros que li assim e já comprei quase todos. Os que não comprei geralmente é porque ainda não possuem edições paperback ou estão para saírem aqui no Brasil, o que reduziria os meus custos.

O que eu acho interessante na discussão são as posições opostas defendidas por autores às vezes bem próximos. Alguns acreditam que é uma inevitabilidade mercadológica a disponibilidade generalizada de livros como material eletrônico. Outros, ao estilo de Harlan Ellison, estão preparados para lutar com unhas, dentes e processos, à mera menção de seus textos em um formato que permita a remota possibilidade de pirataria (como se papel fosse um impedimento para a pirataria).

O que é uma pena. Existem autores para os quais eu entregaria com felicidade o meu dinheiro se os mesmos se dispusessem a entender esse novo mercado — que, em minha opinião, não tem nem muito a ver com a questão de direito intelectual nos EUA. O Long Tail é uma realidade da Internet e, como tal, ultrapassa fronteiras imediatas. Esses autores — Harlan Ellison, por exemplo, chega às raias da tecnofobia — acham ser possível evitar que seus trabalhos sejam distribuídos livremente por redes P2P. Mais do que isso, ignoram o fato de que muitos leitores apaixonados pelo gênero pagariam tranquilamente por versões eletrônicas de seus trabalhos se o preço fosse proporcional às realidades do meio (fácil replicação, disponibilidade limitada, etc.) e às demandas do mercado.

Scalzi cita, inclusive, a experiência dele, que é compartilhada por muitos, de procurar o endereço de determinado autor para tentar compensá-lo de alguma forma por um livro dele que você leu eletronicamente ou que achou em uma loja de livros usados já que o mesmo não está sendo mais impresso. Eu não sei se esse tipo de atitude é comum a outros gêneros que não ficção científica e fantasia, por causa do tipo bem específico de público que possuem, mas o comportamento serve para mostrar que as críticas a supostos “piratas” são completamente infundadas.

Obviamente, há várias outras questões pertinentes ao assunto que escritores como Cory Doctorow estão tratanto e essa entrada não é o local para discutí-las. Mas eu fico contente em ver escritos que estão ganhando um bom reconhecimento declararem abertamente o seu desprezo pela imbecilidade demonstrada por escritores e membros da indústria de livros que não sabem ler a escrita na parede.

§ 4 Responses to Livros e Pirataria"

  • Fernando da Silva Trevisan says:

    Ronaldo, como sempre, um texto interessante e inteligente. Quando voltar a “ter tempo” (eia, que isso é difícil! risos) vou procurar alguns dos autores que você citou: FC sempre foi uma das minhas paixões literárias!
    [ ]’s

  • Fernando, obrigado mais uma vez pela parte que me toca. :-)

    Sobre tempo, o meu também anda bem limitado — veja quanto tempo eu fiquei sem postar aqui — e eu acabo usando os pedacinhos do dia para isso: ônibus, alguns minutos depois do almoço, e por aí vai. Meio complicado às vezes quando o livro está muito bom, mas dá para ir caminhando pelo menos. 😛

  • Muito interessante o texto. Até onde eu me lembre, nunca precisei “piratear” nenhum livro, a não ser uma parte ou outra, simplismente para satisfazer alguma exigencia de um ou outro professor da faculdade(o que na verdade foi raro, pois comprei a maioria dos livros que precisei).

    No entanto, eu mudo o objeto para caber na minha realidade: de livro para música. Acredito que a mesma afirmação vale para música. Eu, particularmente baixo uma ou outra música de uma banda quando fico sabendo, se for boa(e o preço do CD não for abusivo) eu compro e então o mp3 não fará mais sentido… Claro que não vou pagar R$ 53 num cd, aí eu já acho extremo abuso e falta de respeito…

    Em fim, parabéns pelo texto e pelo site. Comecei a estudar Ruby e Rails depois de ler algumas coisas aqui no seu blog, e pretendo em breve aplicá-los aos meus projetos.

  • Obrigado pelo comentário e pelos elogios.

    A sua comparação com música é bem apta, até porque, no Brasil, livros são desnecessariamente caros demais, um produto de elite, de certa forma. Eu fico pensando em como a indústria poderia lucrar adotando o formato de pockets e paperbacks, com material de qualidade inferior mas com preço mais acessível. Por si só, isso provavelmente abriria caminho para a publicação de mais livros e não haveria nem necessidade de piratear livros — com exceção das pessoas pertencentes à primeira categoria citada na entrada, é claro.

    Quanto ao Rails, boa diversão. 😛

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