Sem lições de moral

May 31st, 2005 § 3 comments

Alguns dias atrás, eu estava parado esperando o ônibus ao lado de uma loja que estava sendo reformada, quando um senhor se aproximou de mim — aparentando uns cinqüenta anos de idade, vestido de maneira simples mas bem cuidada, e carregando um canudo do tipo que arquitetos e engenheiros costumam usar.

Parando ao meu lado, ele se virou e disse:

“Calçada bonita, não?” A calçada em frente à loja também fora refeita e contrastava com as das outras ao lado, mais nova e bem limpa.

Eu somente sorri. Depois de dez horas na frente de um computador, eu realmente não estava com muita vontade de conversar, especialmente sobre assuntos tão mundanos como uma calçada. O senhor, é claro, não se deu por vencido.

“Se você fosse um engenheiro,” ele continuou, “o que você diria que está errado nessa calçada.”

“Eu não sou engenheiro,” eu respondi, tentando cortar a conversa ali mesmo.

“Mas, se você fosse um, o que você diria que está errado com a calçada?”

Eu dei de ombros. Eu realmente não estava interessado na conversa, quanto menos em tentar adivinhar onde quem fizera aquela calçada errada. O silêncio entre nós dois se esticou por alguns segundos, e o senhor pareceu finalmente captar a mensagem. Mesmo assim, ele resolveu esclarecer a minha ignorância.

“A calçada está reta demais,” ele explicou. “Quando as chuvas chegarem, a água não vai escoar; vai se acumular no meio da calçada. E o cimento vai estragar logo com isso. Eu fui pedreiro por mais de vinte e cinco anos. A gente se acostuma a reparar nesse tipo de coisa.” Ele sorriu.

Eu olhei para ele sem responder.

Ajeitando o canudo debaixo do braço, o senhor disse:

“Uma boa tarde para você, meu jovem.”

Ele se afastou, perdendo-se logo na multidão que se movia apressadamente pelo local, pisando no calçada reta demais, sem se preocupar com chuvas ou água acumulada ou qualquer coisa similar, mas reparando na loja que estava sendo reformada, todos se indagando sobre o que seria vendido na mesma.

Eu acabei é me sentindo meio culpado com a história toda. No final das contas, parecia que ele só queria um pequena conversa antes de ir para casa. Nada de lições de moral da velhice ou coisa similar. Talvez um mero reconhecimento de algo que ele observara, graças à sua profissão, e que ninguém mais notara. E eu, mesmo sendo tão fácil ter respondido apropriadamente, neguei àquele senhor mesmo a simple cortesia da atenção.

§ 3 Responses to Sem lições de moral"

  • says:

    Infelizmente o calor da batalha faz isso conosco.. todos os dias !!!

  • Lilian says:

    Ai, o que custava dar um sorrisinho e falar alguma coisa? Huuuummmm, sinta-se culpado, sim! Sorria mais criatura, não deixe os computadores tirarem a beleza de jogar conversa fora sobre uma calçada perdida e… defeituosa!!! Abraços, Lilian

  • Ronaldo says:

    Zé, pois é. Talvez seja o caso de reaprender a lição diariamente.

    Lilian, você tem razão, é claro — minha esposa que o diga… :-) Mas um dia eu aprendo. 😛

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