Por que o Ubuntu e não o Debian?

June 8th, 2005 § 12 comments

Meu caríssimo amigo Metal questionou a minha escolha do Ubuntu nos comentários da entrada que eu escrevi sobre essa distribuição.

Essa questão de forks é mais velha do que o próprio código aberto e não vou entrar nos méritos da mesma agora. Basta dizer que eu acredito que forks são uma parte essencial do processo de código aberto e benéficos na maioria dos casos.

Dito isso, porque usar então o Ubuntu, que é um fork e não a árvore original? Só acreditar na mecânica de forks não justifica a decisão. Duas das minhas razões são dadas na entrada anterior: primeiro, o Ubuntu é mais fácil de instalar do que o Debian; segundo, ele é mais bem acabado, mostrando que um cuidado especial foi empregado na criação do mesmo.

Obviamente, considerando as posições da Debian Foundation e da Canonical, isso não é uma surpresa. Os recursos da segunda são superiores e ela pode ser dar ao luxo de fazer coisas que não são factíveis para projeto Debian.

A primeira coisa que o Metal colocou no comentário é que o Ubuntu (e outros forks similares) não retorna nada para o Debian. Eu discordo. O Ubuntu está dando ao Debian algo que ele estava perdendo: usuários. E isso é mais importante do que qualquer outra coisa, mesmo código. Se o Ubuntu fosse um mero empacotamento no Debian com mais eye candy, ainda assim eu o consideraria um esforço válido.

Mas o Ubuntu é obviamente mais do que isso. Até onde eu sei, e do que acompanhei da história do Linux, o Ubuntu é o primeiro esforço coerente e em larga escala de criar uma distribuição que atenda aos usuários finais preservando os alvos do código aberto e sem perder qualidade. O Debian atende os critérios de qualidade e de adesão ao código aberto, mas não atende usuários finais. O Ubuntu resolve esse problema elegantemente. Nem Mandriva, nem Linspire ou Suse chegaram perto desse alvo.

É claro que não foi esse o sentido que o Metal usou para se referir a devolver algo à comunidade. Mas, mesmo no critério de código, o Ubuntu certamente retornará algo.

Eu não sei como está a situação atual de troca de código entre o Debian e seus forks, mas é só uma questão de tempo até que um processo mais coerente surja. Isso é fácil de perceber nas decisões tomadas pelo novo diretor do projeto Debian. A mudança para um foco mais específico no que tange a arquiteturas suportadas e a aceleração do processo de versionamento é indicativa de que o Debian está disposto a aprender a lição. Afinal de contas, ninguém deseja usar uma distribuição em que os pacotes estejam com dois ou três anos de defasagem em relação à suas versões mais recentes. E nem me venham falar em testing ou unstable porque eu não aceito nada que não seja suportado pelo grupo de segurança de uma distribuição ou que me force, como usuário final, a ficar quebrando a cabeça com conflitos e configurações.

O segundo ponto do Metal é que o Ubuntu não é compatível com o Debian. Novamente, eu vejo isso em duas direções.

Primeiro, a compatibilidade é um processo gradual. As mudanças que o Ubuntu introduziu eram necessárias o suficiente para que essa incompatibilidade fosse aceitável. De certa forma, o Debian é que precisa se adequar. O Ubuntu é muito mais agradável do que o Debian e esse é um caso em que o ramo principal poderia aprender uma lição ou duas com o fork. Afinal de contas, o fork obviamente não existiria se o ramo principal atendesse as necessidades que levaram à criação da divergência inicial.

Por outro lado, eu não me importo com incompatibilidade. O Ubuntu e o Mandriva são igualmente incompatíveis. No Debian, o Apache está em /etc/apache. No Mandriva, em /etc/httpd. As variações são as mesmas para os arquivos de log e outras configurações do sistema. Isso afeta qualquer coisa que eu desenvolver para a duas plataformas. O motivo pelo qual coisas como ./configure existem é justamente esse. Mesmo que o Ubuntu seja diretamente derivado do Debian, ele não é obrigado a seguir o processo Debian se suas necessidades são outras.

Para todos os propósitos práticos, em casa eu sou um usuário comum do Linux e quero o maior e melhor. O Ubuntu me dá isso agora. Se o Debian também o fizer no futuro, tanto melhor — pode ser até que eu decida usá-lo e deixar o Ubuntu de lado. Se não, eu vou continuá-lo a usar no meu servidor até que uma distribuição melhor para esse contexto surja. O que eu espero, porém, é que o Debian cresça com o Ubuntu. E isso só vai acontecer se houver coerência entre os alvos e ausência desse zelo incandescente que às vezes caracteriza esse tipo de discussão.

No fim do dia e no final das contas, uma distribuição Linux que queira ganhar o mercado tem um público alvo a atender primeiro: o das avós dos usuários comuns. No dia em que esse público puder usar uma distribuição Linux com não mais tropeços que no Windows, o desktop Linux será uma realidade. Do que eu vejo hoje, o Ubuntu está mais próximo disso do que o Debian. E nenhuma ideologia vai mudar minha mente.

§ 12 Responses to Por que o Ubuntu e não o Debian?"

  • Discordo de algumas coisas, mas isso não vou comentar pq sempre é um flame war esse lance de Distros, e penso que cada um tem o direito de gostar mais de uma do que da outra por seus motivos.

    O que quero comentar é uma coisa q vc falou: “Eu não sei como está a situação atual de troca de código entre o Debian e seus forks, mas é só uma questão de tempo até que um processo mais coerente surja. Isso é fácil de perceber nas decisões tomadas pelo novo diretor do projeto Debian”

    Realmente, eu acho que no fim das contas, alguma coisa vai voltar pro Debian vindo do Ubuntu, muito mais do que qualquer outro fork(como o Kurumin, Knoppix e etc). Acredito que isso está acontecendo já com os CDDs. O Debian-br-cdd é um projeto muito bem feito, e que, acredito eu, em breve retornará algo para o Debian, bem como o Ubuntu certamente o fará, cedo ou tarde!

    Mas no fim das contas o que realmente conta é o gosto de cada um(muito mais do que a ideologia).

  • Daniel Koch says:

    Até aonde eu me lembre algumas pessoas estavam pegando os pacotes do X.org do Ubuntu e instalando na Debian, seria isso um retorno indireto?

    Bem, o que me estranhou foi quando fui instalar o Ubuntu, a opção ‘server’ no boot. Eu nunca pensei que uma distro como Ubuntu iria servir também para um servidor, visto que o foco deles é o desktop.

  • David says:

    Até onde eu sei, o Ubuntu não é um fork.
    Assim como o Knoppix e outros, o Ubuntu é feito com base no Debian. Fork é outra coisa. O Ubuntu não pretende tomar um caminho diferente de desenvolvimento. Sempre vai utilizar a base de pacotes e a estrutura que o Debian tem.

    Ele é compatível com os pacotes Debian e os pacotes dele devem ser compatíveis com qualquer outro Debian. Assim espero eu e o Ian Murdock (um dos criadores do Debian (Deb”Ian”)) esperamos.

    http://ianmurdock.com/?p=153
    http://ianmurdock.com/?p=167

    Isso posto, concordo com o que você disse :)

  • Walter says:

    interessante sua posição com relação as Distros
    eu não estou acostumado com o Gnome, então uso o Kubuntu
    ele é mais pesado mas pra quem tem pelo menos 256 de memória creio que isso não seja problema
    quem quiser participar tem o Fórum do Ubuntu/Kubuntu em português: http://ubuntu.linuxval.org/
    abraços

  • Fábio Rabelo says:

    Um pouco sobre o comentário do Rafael Ferreira da Silva, eu conheço um pouco sobre como está a situação dos forks em retornar algo útil p/o Debian, a árvore “Knoppix” não retorna nada, o Progeni retorna alguma coisa, e o Ubuntu, no momento nada, mas isso pode mudar nos próximos meses .
    A cerca de 3 meses atrás, quando começaram as críticas mais fortes contra o Ubuntu a equipe publicou uma nota, em que dizia que o fork ( e o Ubuntu é um fork ! ) era temporário, pois os desenvolvedores PRECISAVAM de versões de pacotes que não estavam nem mesmo no Experimental do Debian, mas estas peças de software devem estar entrando no Debian nos próximos 3 meses ( pelo menos esta é a intenção da equipe de desenvolvimento do Debian ) e quando isto acontecer, as experiências dos desenvolvedores do Ubunto retornará p/a árvore principal do Debian, principalmente o X.ORG e o Gnome 10 .
    Este tipo de preocupação NÃO está presento na mentalidade dos desenvolvedores da árvore Knoppix !
    Em um ponto eu concordo plenamente,os forks são um mau necessário, eles são os indicativos de onde estão os pontos fracos da árvore principal !!!

  • Bruno says:

    Oi…
    Estou começando em Linux e não sei muito sobre o assunto de distros, forks ou coisa desse tipo, mas resolvi comentar porque tem um ponto que eu acho importante de resaltar, o da usabilidade. Minha mãe e meu irmão de 11 anos estão começando na computação, eu gostaria que eles começasse a usar linux, mas imaginem eles lendo na tela algo como “Você precisa reiniciar a X” ou “Coloque a senha de root”. Isso eu acho complicado, acho q deviria ter uma distro bem “amiguinha do usuário”, sei q muitos vão dizer “Usa Windows” mas o que eu espero é que um dia o Linux seja um concorrente a altura do Windows pra usuários leigos e não apenas pra servers. Acho q o Ubuntu se aproxima um poco disso, mesmo eu não tendo conseguido conectar ele na internet com o meu WinModem dial-up, mas melhorias seriam bem vindas, coisas como não pedir senha de root já que é feito pra usuários e a segurança pode ser feita de outras maneiras, colocar mensagens mais amigaveis e criar um jeito simples de instala programas.

    Bom acho que é isso, desculpem se fuji do assunto mas eu acho que o Linux tem q ser LIVRE e PARA TODOS.

    []’s

  • Gabriel Albuquerque says:

    Acredito no Linux como o OS do futuro.
    Talvez um pouco cedo para afirmar isto, porém é muito interessante observarmos as vantagens deste sistema.

    Existe uma versão “amiguinha do usuário” chamada Freedows, não é gratis, mas baratinha, e para quem está acostumado ao “Rwindows” é bastante funcional.

    Dúvidas, sugestões etc., entrem em contato.

    Abraços

  • metal says:

    Então…
    Não acho que seja difícil pro projeto debian gerar um desktop usável, porque os CDD’s fazem isso!

    Pra quem não sabe, o CDD (http://wiki.debian.net/index.cgi?CustomDebian)
    é uma distribuição debian customizada, que reune pacotes especialmente selecionados
    para atender um determinado tipo de usuários (Numa explicação tosca, pega-se softwares
    que estão espalhados nos vários CD’s e os reune em um único CD).

    Muito antes de existir Ubuntu, a galera do debian-br (http://debianbrasil.org) criou um
    CDD voltado para os usuários desktops brasileiros (http://cdd.debianbrasil.org).

    E é com ele, o DEBIAN-BR-CDD, que você tem que comparar o Ubuntu.
    Não só usabilidade, porque gnome é gnome ;P

    Agora,
    você apelou falando que o Ubuntu tá dando usuários pro debian 😉

    E lendo os comentários do outro post e deste, tem muito cara que não
    sabe diferenciar o que é um fork e o que é um CDD.
    Acho que dei um caminho pra esclarecimentos…

  • metal says:

    ronaldo,
    os links estao com os “)” reporta o BUG
    ow corrigi 😛

  • Ronaldo says:

    Rafael,os comentários estão aí justamente para que os outros possam discordar. E se o negócio começar a desandar, eu sempre estou prestando atenção para moderar se for o caso.

    Concordo que a escolha de uma distro é basicamente uma questão de gosto, mas mesmo o gosto pode ser influenciado por fatores como usabilidade e disponibilidade.

    E também concordo que o Ubuntu tem mais chances de retornar algo para o projeto Debian diretamente. Eu já acredito, como disse, que ele está retornando indiretamente, mas sei que nem todo mundo pensa assim.

    Daniel, eu não estranho que o Ubuntu també sirva como servidor já que o Debian sempre foi excelente nessa área. Parece estranho, depois de tanto “eye candy”, mas é normal. :-)

    David, em um certo sentido, o Ubuntu é um fork porque diverge significativamente do Debian. Mas a palavra realmente sempre foi carregada de problemas e muitas pessoas preferem não usá-la nesse contexto.

    Eu acredito que os problemas entre Ubuntu e Debian são temporários e resultados do sucesso excessivo do Ubuntu contra uma certa amargura por parte do pessoal do Debian por causa disso. Mas espero que isso passe e que os dois possam crescer. Seria interessante ver o Debian ficar tão polido para o usuário quando o Ubuntu é.

    Walter, eu sempre usei o KDE no Mandrake porque não gostava muito das duas barras no Gnome e não tinha muito saco para ficar customizando. Mas no Ubuntu o Gnome ficou tão bem que não quis nem baixar o Kubuntu. :-)

    Bruno, o ponto que você levanta tem tudo a ver com a discussão e é um dos motivos pelos quais gostei tanto do Ubuntu. Se a intenção é servir usuários leigos, isso só vai ser possível sacrificando um pouco de flexibilidade em nome da usabilidade, o que não é algo ruim mas que deixa muitos zelotes de cabelo em pé. Mas estamos aprendendo a lição, eu acredito.

    Gabriel, eu também espero que o Linux tenha sucesso pelo bem dos usuários. A mudança de plataforma do Mac OS X também é uma coisa que acho que se encaixa bem nisso. O futuro está começando a ficar interessante nessa área.

    Metal, se não fosse complicado, o Debian já teria um bom, não? O Ubuntu consegue isso e simultaneamente melhorar pacotes porque tem recursos para isso. E os CDDs porque só se dedicam a isso, sem procurar melhorar a distribuição principal.

    E eu acho que não adianta nada fazer um CDD baseado em unstable e testing. Como eu disse, se não tem atualizações de segurança, não presta. Não sei se esse é o caso do Debian-BR-CDD, mas certamente não é o do Ubuntu.

    Quanto à questão de ser fork ou não, a palavra realmente ganhou uma conotação negativa com o tempo. Mas o Ubuntu é assumidamente um fork, embora diga isso com palavras mais leves[1].

    E não dá para comparar o Ubuntu com o Debian-BR-CDD, exceto pela usabilidade, porque o Ubuntu é todo um eco-sistema (vide universe e multiverse).

    Finalmente, o Debian realmente está ganhando com o Ubuntu, pelo menos no que tenho observado nos blogs que leio e nas conversas que ando tendo. Muito gente que não usaria o Debian em um desktop (como eu) está usando o Ubuntu para ter o melhor de dois mundo. E isso claramente beneficia o Debian a longo prazo. E a Canonical também emprega desenvolvedor Debian.

    Sobre o bug, não tem como resolver. Esses caracteres são parte da especificação de URLs e os parses fazem questão de pegar. :-)

    [1] https://www.ubuntulinux.org/ubuntu/relationship/document_view

  • metal says:

    >O Ubuntu consegue isso e simultaneamente melhorar pacotes porque tem recursos para isso. E os CDDs porque só se dedicam a isso, sem procurar melhorar a distribuição principal.

    Eita..!
    Eu escutei o Otavio Salvador (líder do BR-CDD) falar que eles corrigiram um tantão de BUG
    que eles nem tinham idéia que existiam no debian;
    Cara, o CDD é o debian, só que ao invés de 7 CD’s, é um só…
    Então, tudo que eles corrigem pro BR-CDD é corrigido pra todo o projeto debian, porque
    o CDD só agrupa pacotes… ( http://cdd.debianbrasil.org/project/report )

    >E eu acho que não adianta nada fazer um CDD baseado em unstable e testing. Como eu disse, se não tem atualizações de segurança, não presta. Não sei se esse é o caso do Debian-BR-CDD, mas certamente não é o do Ubuntu.

    O CDD foi baseado no novo sarge (que era a testing e agora é stable);

  • Ronaldo says:

    Eu não disse que todo CDD está falhando em retornar correções para o Debian. Mas, pelo que li e ouvi, tem muita que não está. Se a do Brasil está, ótimo.

    E quanto a ela ser baseada no Sarge, como eu disse, não conta. Até pouco tempo, o Sarge era testing — sem correções de segurança freqüentes. Para mim, isso é o mesmo que nada.

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