Código aberto e o Brasil

June 23rd, 2005 § 3 comments

Toda essa discussão sobre o uso de aplicações de código aberto por parte do governo brasileiro me parece uma grande bobeira algumas horas. Por mais que os zelotes defensores do código aberto digam que sim, o governo não entende nem de longe a questão em si — com ou sem Gilberto Gil. Eu sou um defensor do código aberto, mas acredito que a postura do governo é equivocada e, a longo prazo, até prejudicial ao Brasil.

Existem dois tipos básicos de aplicações de código aberto: as que foram criadas porque uma necessidade qualquer chegou ao ponto de superar a inércia da formação de uma comunidade de desenvolvimento — caso do Gaim, JBoss, Apache e por aí vai — e os que foram criados simplesmente para acabar com um coceira qualquer.

A diferença fundamental entre os dois é que o primeiro consegue se manter de pé sozinho, formando um ecossistema ao seu redor, com parasitas e forks em igual medida, mas mantendo a visão original dentro dos parâmetros de continuação do projeto. O segundo, ao contrário, move-se fortemente no começo, de uma maneira geral, mas depois começa a soltar só fumaça e no final cai em um ritmo ocasional de atualizações que não fazem nem muita diferença no produto final.

O primeiro tipo de projeto, onde pode se encaixar nas necessidades do governo, é muito interessante. Como qualquer negócio, o governo está mais interessado em estabilidade e manutenção. O segundo tipo de projeto, nesse sentido, é até prejudicial para a estrutura tecnológica do governo, incluindo a possibilidade de reinvenções seguidas da roda — algo que já é, por si só, muito comum nos meandros tortuosos da burocracia.

Assim, a escolha do código aberto apenas pelo aspecto aberto (e, possivelmente, pelo grande interesse no aspecto gratuito da vasta maioria desses projetos) pode, a longo prazo, se converter em um problema para o Brasil. O governo sente muitas coceiras, mas coceiras não são a melhor área de atuação do código aberto.

Eu sei de pelo menos um exemplo em que o governo adotou uma base de código aberto e tentou torná-la uma aplicação decente. O resultado foi uma massa de código difícil de manter e ler — e isso só depois que a metade do código foi reescrita.

Além disso, existe outra questão fundamental, a do mercado interno. Não há como esperar que todas as empresas se transformem em filantropias, decidindo liberar todo e qualquer projeto — mesmo os altamente customizados — como código aberto. Existem tipos de sistemas para os quais o código aberto não é aconselhável. Sistemas especializados, de uso restrito, não ganham nada sendo código aberto.

Uma decisão unilateral em favor do código aberto pode eventualmente prejudicar o desenvolvimento de tais sistemas com conseqüente aumento de custos e diminuição de qualidade. Um WordPress pode funcionar como um sistema de gerência de conteúdo, com workflow embutido? Pode, de maneira simplificada. Pode, então, ser customizado para a tarefa? Sim, mas tornando-se mais frágil, levando a dependências que podem não interessar ao projeto principal e que tornam futuras manutenções mais complicadas, efetivamente criando um produto diferente.

Nessas situações — e, principalmente, aquelas que envolvem integração com sistemas legados — eu não vejo problema algum em fomentar uma indústria nacional que não se sinta na obrigação de usar ou desenvolver código aberto meramente porque parece ideologicamente mais saudável ou porque o custo parece a princípio menor.

É claro, eu imagino que existam pessoas no governo que estão pensando seriamente nesses aspectos. Eu duvido que um Sérgio Amadeu seria tão descuidado a esse ponto. Mas como os zelotes estão sempre à solta, não custa falar um pouco mais sobre o assunto.

§ 3 Responses to Código aberto e o Brasil"

  • Interessante esse seu post… estive pensando sobre esse assunto após ler algo sobre isso num blog(que não me recordo agora), falando sobre o retorno que o governo deu para o SL(que foi ínfimo) e que o SL deu pro governo(alguns milhões a menos com licença).

    Moro em Brasília, e já vi alguns maus exemplos de implantação de SL no governo que me deixaram estarrecido mesmo não sendo expert em migração! Erros primários, que certamente irão causar dor de cabeça pro governo por gerar usuários que boicotarão o SL(já vi isso acontecer)…
    Esse é um clássico exemplo de como deixar queto o que está funcionando, ou ainda, contratar alguém que saiba o que está fazendo para fazer.

    Por fim, espero que o Brasil possa acordar para a situação antes do fim…

  • TaQ says:

    Eu sou totalmente a favor do SL. Mas desde que empregado de forma sensata justamente para não queimar o filme dele. Agora, tem muita atitude aí do governo que é “para Inglês ver” que com certeza deixa a gente meio preocupado … :-p

  • Ronaldo says:

    Pois é. O povo fica todo empolgado com o que está acontecendo e não presta atenção nos erros. Eu sou a favor de experimentos, mas desde o começo o governo deixou claro seu interesse maior no código aberto é a (aparente) gratuidade do mesmo. Infelizmente, vai ter sempre gente falando que isso é realmente código aberto. E conhecendo o governo, não espero muito.

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