Ciência e crítica à religião

October 11th, 2006 § 4 comments

Meme Therapy, um blog conjunto sobre ficção científica, está tecendo algumas considerações sobre ciência e religião, mais específicamente perguntando se cientistas deveriam criticar a religião indiscriminadamente–e, por extensão, vice-versa. A entrada é motivada principalmente pelo documentário recente de Richard Dawkins, The Root of All Evil?, em que o famoso biólogo define a religião como um vírus mental que deveria ser combatido e erradicado da mesma que qualquer outra vírus biológico.

Eu já comentei sobre o assunto aqui em outra ocasião, respondendo a algumas entradas em outro blog, mas acabei não me esticando muito no assunto. Como cristão professo–de uma variedade que antigamente seria chamada de fundamentalista, embora a palavra tenha sido deturpada hoje para significar classes religiosas como a direita americana ou terroristas islâmicos–o assunto sempre me interessou. E como um apaixonado por ciência e filosofia, eu sempre vivi em um mundo balanceado entre os dois e sempre tentei demonstrar a possibilidade de conexão entre uma coisa e outra.

Mais notadamente, as entradas mencionadas acima consistem em respostas à questão pelos participantes do Meme Therapy, que variam desde detratações completas da religião a posições mais equilibradas. Os comentários são bem interessantes e a posição de John C. Wright, um notado e excelente escritor de ficção científica me pareceu particulamente sã. Respondendo a uma crítica unilateral em outro blog, ele desconstrói o argumento usado, fazendo algumas comparações bem aptas (com uma boa dose de sarcasmo, por sinal):

“Religion must be a phony, because, um, the overwhelming majority of the greatest sages, philosophers, thinkers and writers of every era on every continent have been religious men, except for Marx and Nietzsche, and their mystical impulses had other outlets. And we know geniuses are easy to fool.”
A bilateralidade entre ciência e religião é um ponto morto quando adotada radicalmente. Pensar em domínios e dividir a esfera de conhecimento humano em partes é algo que nenhum filósofo sensível pensaria em fazer e, entretanto, essa parece ser a posição dominante hoje.

Wright continua:

“And religion must be a power-grab, because people foreswear worldly position, and wealth, and some even give up the comforts and delights of marriage to better serve God. Those hermits who live without any worldly possessions must all be epicureans lusting for power over us … but they’re really, really subtle. And martyrs: people who die rather than renounce their faith, are obviously motivated by a materialistic calculation of how to make money in the stock market. Washing the feet of beggars in India is a sure way to grab supreme executive power!”
Eu volto a pensar na questão da palavra “fundamentalismo” como uma manifestação da inversão de pensamento ironizada acima. Um dos grandes argumentos contra a religião, um dos preferidos, é a propensão do ganho de poder temporal por parte de líderes. O fato de que poder temporal não é um resultado direto da religião, mas da utilização de uma característica psicológica inerente da raça humana é algo que passa despercebido em todas essas críticas.

Wright termina com a seguinte conclusão:

“All sarcasm aside, religion is a complex phenomenon, found universally among all societies and tribes of men, as far back as anthropology can spy. If religion is false, it is falsehood that is built into the genetic predispositions of the whole race, a massive psychological failure as hard to avoid as the sex-drive, and not the product of some sinister conspiracy of The Three Imposters.”
Desnecessário dizer, eu concordo com o que ele diz. Não há a menor necessidade de atribuir um valor negativo de julgamento à religião meramente por causa do seu uso indevido ou desgosto pessoal.

Religião e ciência são manifestações coesas do pensamento humano. Algo interessante a se pensar sobre isso é o fato de que algumas disciplinas da ciência sempre ficarem na borda entre o experimentável e o perceptível (psicologia, por exemplo). Eu não acredito que essa dicotomia venha da inexistência de métodos quantificáveis de tratamento para as mesmas, mas sim dessa inabilidade de aceitar a contraparte necessária da experiência humana.

Eu não estou dizendo é claro que uma shamã ou um pastor deveria ser consultado para validação científica antes da publicação de qualquer tese de psicologia ou antes da apresentação de uma dissertação sobre física quântica. Mas a pressuposição de que não há impacto científico na existência das religiões é tão vazio quanto a afirmação contrária.

O debate é longo e eu não vou me esticar. Fica, entretanto, a recomendação de leitura.

§ 4 Responses to Ciência e crítica à religião"

  • Olá, Ronaldo primeiramente, que bom que você voltou a postar :) hehe, parabéns pelo texto, e parabéns também pelo texto com o titulo “Prisão Religião?” de Janeiro de 2005, sou cristão também e achei o debate bem saudavel.

  • Ronaldo says:

    Oi, Lindolfo. Obrigado :-) Esse tema sempre é difícil de tratar, por causa dos ânimos acirrados que geralmente acompanham o debate, mas de quando em quanto eu tento escrever alguma coisa e gerar pelo menos reflexão…

  • Rodrigo says:

    Bom eu cheguei até aqui pq estou estudando RoR.. mas.. qria deixar minha opinião…

    “…que deveria ser combatido e erradicado da mesma que qualquer outra vírus biológico.”

    Bom é um fato de que hj o mundo caminha para uma mentalidade totalmente ateísta, o que reflete o governo do anti-cristo já moldado na terra, o qual atribuirá os problemas mundias (guerras, epidemias, abalos da natureza etc…) à Deus. Como Paulo já havia escrito aos Tessalonicensses :
    “o qual se opõe e se levanta contra tudo o que se chama Deus ou se adora…” 2Ts 2:4.

    O anticristo não permitirá poderes paralelos, por isso conduzirá o mundo a ser adorador de si próprio (como se já não estivessemos vivendo isso).
    Quer a sociedade seja ateísta, cristã, budista, mulçumana etc, a verdade é apenas uma, Jesus está voltando e as profecias se cumprem a cada dia, e se crêmos realmente nisso comos, que então nos preparemos a nós mesmos, e nos desviemos de discussões inúteis q jamais sairam disso, quanto aos outros, quem tem ouvidos que ouça, os homens já estão curtidos em suas próprias filosofias, o tempo é curto, e como disse Malaquias, “eis que aquele dia vem ardendo como fornalha..”

    Espero ter aprendido RoR até lá 😉

  • gilvan rocha says:

    Meu caro, ciência, filosofia, e religião são em si a mesma coisa todas elas revelam as leis que regem a criação, as interpretações lieralistas e completamente fora de um contexto histórico vem distanciando a religião da ciência sera´que os fundamentalistas fanáticos vão querer mais uma vez incendiar a biblitoteca de alexandria em pleno século XXI como diria Einstein “a relligião sem a ciência e capenga e a ciência sem a religião também” “que ouça aqueles que tem ouvidos de ouvir e veja aqueles que tem olhos de ver”… um grande abraço

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