Vivendo no passado

November 14th, 2006 § 3 comments

Uma das coisas mais interessantes em história é observar o fim de regimes, sejam políticos, econômicos ou sociais. Analisar e entender porque algo que existiu por anos (décadas ou seculos em muitos casos) acaba é uma das atrações desse ramo do conhecimento humano.

Nossa geração possui a dúbia honra de poder ver isso acontecer em regime acelerado. Fatos que muitos da geração anterior tomavam como certo simplesmente não fazem o menor sentido atualmente. Lutas homéricas estão sendo travadas por conta dessas mudanças, as maiores das quais vivemos diaramente — como, por exemplo, a grande discussão sobre pirataria, distribuição e conteúdo livre. Em alguns casos, revoluções inteiras não duram mais do que alguns anos.

De quando em quando, um artigo me chama a atenção sobre as diferentes posturas em relação a essas mudanças. É curioso ver como há sempre uma tentativa de se apegar a um modelo pré-existente por comodidade, com razões que na verdade mascaram um certo sentimento de que “os dias anteriores eram mais simples”.

Nesse artigo, um jornalista fala sobre como os jornais podem manter suas receitas e seu modelo de negócios em face da Internet, propondo uma solução curioso:

“What to do? Here’s my proposal: Newspapers and wire services need to figure out a way, without running afoul of antitrust laws, to agree to embargo their news content from the free Internet for a brief period — say, 24 hours — after it is made available to paying customers. The point is not to remove content from the Internet, but to delay its free release in that venue.”
A idéia, simplesmente colocada, seria de manter a Internet refém de notícias por um período de 24 horas para que os usuários pudessem sentir como um mundo sem os bons e velhos jornais seria.A imagem de uma criança de bico na boca, arrastando uma fralda atrás de si, do alto de seus nove anos de idade é instantânea.

Eu estava conversando com um amigo recentemente sobre as eleições e como eu achava que os jovens estavam bem mais informados dessa vez do que nas eleições passadas, graças, em grande parte, à enorme disseminação de informação propiciada pela Internet. Está ficando cada vez mais difícil enganar as novas gerações quando o conhecimento coletivo na humanidade, com todas as suas implicações, está disponível instantâneamente para todos. É claro que a natureza humana permanece, mas a mudança em atitude está ficando cada vez mais óbvia.

E é isso que jornalistas como esse, e outras que desejam viver no passado, não percebem. Eu sempre me lembro do termo cunhando por Alvin Tofler: future shock. É inevitável, mas eu não consigo deixar de sentir pena de suas vítimas casuais — mesmo porque, em um futuro breve, eu posso estar na mesma posição.

§ 3 Responses to Vivendo no passado"

  • A informação está mais disseminada, mais rápida, etc. Mas uma coisa que eu sempre fico me perguntando é se tudo isso não nos leva de volta ao mesmo lugar: eu só leio aquilo que me interessa.

    Exemplo básico: eu não leio blogs pró-Bush, só anti-Bush. Então a Internet só adianta para aumentar minha bitolação, mesmo que obviamente eu ache meu ponto-de-vista o “certo”.

    Será?

  • Ronie Uliana says:

    O efeito de se “prender” a informação por 24 horas seria somente que as pessoas que usam internet iriam obter a informação instantaneamente via blogs e sites de notícias colaborativos (slashdot ou digg, por exemplo).

    Até mesmo hoje, eu acho várias notícias mais rapidamente por blogs que por televisão ou jornal. Em notícias relacionadas à informática, a diferença ainda é mais gritante. E vc pode confrontar a notícia em vários blogs e com várias fontes, caso queira checar a veracidade. Nos sites como o Slashdot a coisa é ainda mais divertida, pq a notícia é comentada, contestada, provada ou refutada no mesmo local.

    Não funciona para tudo e há nichos de jornalismo onde somente jornalista vão se aventurar. Mas áreas especializadas, onde jornalista notavelmente comentem as maiores ratas, com certeza se beneficiam do fenômeno :)

    —-

    Cristiano, concordo. Mas veja, a maior parte dos lugares vc vai ler somente o que te interessa. Isso só não acontece com televisão (e rádio) onde vc vê o outro lado da coisa sem querer, e, pra piorar, sem se dar conta de que acabou de ver uma opinião disfarçada notícia imparcial 😛

    Lugares como Slashdot e Digg são

  • Ronaldo says:

    Cris, indiretamente, pode até ser. Mas é impossível não acabar lendo opiniões contrárias por causa do enorme fluxo de informações que passa entre os sites que você assina ou acessa. Isso, inclusive, é o que eu estou começando a achar que está motivando a mudança, não a informação em si. A comparação é o que acaba gerando a transformação em si, por assim dizer. Pelo menos é o que eu acho. Estou longe de ser um teorista social. :-)

    Ronie, concordo. É exatamente por isso que a sugestão é tão ridícula. Hoje eu dia, eu ainda me espanto com quão pouco eu preciso acessar sites “oficiais” de notícias como a Folha, ou outro similar. Existem, é claro, muitas situações em que a máquina por trás de uma estrutura jornalística é muito mais eficiente. Mas isso também tente a mudar, como demonstrado recentemente pelo Second Life.

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