A suposta ortogonalidade da fé

January 3rd, 2007 § 10 comments

Esses dias eu estava na empresa em que trabalhei ano passado para resolver algumas coisas e parei para conversar com alguns colegas.

Como eu estava emprestando um livro da fantasia para um colega, o papo logo derivou para o assunto, passando logo depois por ficção científica, livros eletrônicos, séries de TV recentes e por aí vai. Lá pelas tantas, o seguinte diálogo acontece:

“Você acredita em Deus, Ronaldo?”, um colega pergunta.

Um amigo ri, sabendo que sou evangélico.

Também rindo, eu respondo: “Claro. Sendo cristão, acreditar em Deus é basicamente uma premissa, não?”

Um outro amigo comenta, então: “Você é um cara estranho. É o cara mais fanático por fantasia e ficção científica que eu conheço, super-cético, gosto demais de ciência e ainda acredita em Deus, é cristão.”

Eu tomei o comentário como um elogio. Pelo tom óbvio de sua voz do meu amigo, o comentário foi feito com interesse e não de forma derrogatória, o que me levou a pensar mais sobre o assunto, no caminho de volta para casa.

Realmente, muitas pessoas consideram o interesse por ciência ou por gêneros literários “estranhos” algo ortogonal à fé professada por uma pessoa. De fato, muitos consideram que uma pessoa que defenda uma fé baseada na crença em um criador atemporal com atributos estranhos como onipotência e onisciência é automaticamente um idiota. Já até escrevi um pouco sobre o assunto aqui em algumas ocasiões (1, 2).

O irônico é que ninguém para para pensar que essa suposta ortogonalidade não existe de forma alguma. Eu vejo até mesmo cristãos que, sem se preocuparem em pensar um pouco que seja sobre o assunto, contribuem para esse mito.

Como disse acima, eu realmente gosto de fantasia. E por causa disso, a ironia de que dois recentes sucessos cinematográficos (O Senhor dos Anéis, e As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa) sejam adaptações de livros escritos por autores cristãos (um católico e um anglicano, respectivamente) não me é perdida. Os profundos temas cristãos estão lá para quem quiser ver.

Eu também gosto de ficção científica. E acho que Calculating God é uma exploração bem honesta sobre religião e ciência. Estou lendo no momento Blindsight, de Peter Watts, um excelente trabalho de ficção científica com explorações profundas sobre a natureza da realidade–um livro intensamente ateísta e questionador (que, inclusive, pode ser obtido via uma licença CC no site do autor). Em um dado momento, dois personagens estão discutindo o que a vida é realmente, tanto em termos biológicos como computacionais–e eu concordo com muito do que o autor diz nesse momento pelo simples motivo de que qualquer exploração um pouco mais profunda do que realmente somos é completamente coerente com teologia (no sentido lato da palavra).

Dawkins está sumariamente errado ao presumir essa ortogonalidade. Dentro da base axiomática daquilo que eu acredito enquanto cristão–e esta base não difere em absolutamente nada do que a Bíblia diz–não há necessidade alguma de recorrer a explicações forçadas pelo fato de que não há conflito. As diferenças estão em meras questões de crítica textual, irrelevantes para os axiomas.

O universo é uma máquina virtual, como o autor de Blindsight pergunta? Por que não? Aquilo que chamamos de eu também pode ser descrito nos mesmos termos, e isso não afeta em absoluto questões sobre a natureza da alma, responsabilidade moral, livre arbítrio, predestinação e eleição e tantos outros temas familiares a filósofos e teólogos. Antes, pensar em um modelo meta-computacional para esses assuntos esclarece uma série de pontos complicados. E eu não estou falando em termos de resolver simplesmente fazendo que esses problemas sumam por meio de uma vara de condão determinística.

No final das contas, se alguém quiser insistir na ortogonalidade, talvez eu até concorde. Mas eu vou dizer que estou então no ponto onde as duas correntes de cruzam, na coordenada de origem–em perfeito equilíbrio.

§ 10 Responses to A suposta ortogonalidade da fé"

  • Interessante, outro dia ainda eu estava passando por algo semelhante. Tb sou Cristão(Batista) e estou lendo a série de livros do Terry Tratchett, Disc World, e um amigo(não Cristão) fez um comentário semelhante.

    Já parei para pensar nesse assunto algumas vezes(não com palavras bonitas como as suas hehe) e cheguei a uma conclusão que me traz plena satisfação: fé e ciência se misturam de forma que não dá pra separar bem uma da outra. Isso pra mim é algo meio óbvio(mesmo que talvez eu não dê conta de explicar exatamente como vc fez) mas nem sempre entra na cabeça das pessoas(Cristãs ou não). O certo é que, pra mim, uma coisa não implica necessáriamente no fim da outra como alguns(de ambos os lados) tentam afirmar.

    Enfim, essa é uma questão que depende muito da pessoa, e no final nem sempre as pessoas se conformam com as coisas e tentam forçar a barra, seja para justificar um lado ou outro, ou ainda pra não justificar nada.

    Abraço.

  • Ronaldo says:

    Oi, Rafel! Tudo bom? Obrigado pelo “palavras bonitas”. :-) Bem, concordo sobre a questão de forçar a barra. Eu até tento evitar debates e discussões sem proveito. O que sempre me incomoda é ver pessoas defendendo o lado “racional” das coisas e jogando a o raciocínio no ralo ao mesmo tempo. Nisso eu acabo insistindo. :-)

  • Roberto says:

    Oi, Ronaldo.

    Acho que voce esta usando o termo “ortogonalidade” de maneira errada (se eu entendi seu texto corretamente). Dizer que o interesse pela ciencia eh ortogonal a fe significa que um nao interfere no outro, de maneira com que seja perfeitamente possivel a existencia de cientistas religiosos e tecnofobos ateus.

    Pelo que eu entendi, *voce* acredita nessa ortogonalidade — nada impede que voce seja geek e cristao ao mesmo tempo. Para a maioria das pessoas, entretanto, ciencia e fe *nao sao* ortogonais, porque acreditar em um leva a descrenca em outro.

  • silfar says:

    Engraçado, também me encaixo neste perfil e acho ainda mais complicado porque além de evangélico também sou pastor, gosto muito de ficção e até uns de ficção-terror, nunca passei por uma situação de ser questionado a respeito, devo pensar mais sobre isso.

    Agora uma coisa que é notório é que uma pessoa que não plena convicção de sua fé se mantenha afastado de alguns títulos, pois não é novidade nenhuma que estão cheios de mensagens subliminares, eu tenho assisto a série Smallvile, um amigo tem todas as temporadas e resolvi assistir do inicio, e uma coisa que notei logo de cara a eles tentam passar uma imagem de que o jovem Kal-El (filho das estrelas em kriptoniano) seria uma espécie de salvador do mundo (Cristo) e que Jor-El, um ser de outro planeta, que não pode ser visto, o orienta . Alguma semelhança com Deus ?

    E é interessante tb o “El” dos seus nomes, só que em hebraico estas letras fazem referencia a Deus Elohin, El shaday etc…

    Tem um capitulo inclusive que o sangue da familia “EL” é a chave de um portal para sair de uma prisão em outra dimensão.

    Bem este foi só um exemplo. Ronaldo, não sei se vc já conhece mais gostaria de te indicar “Este mundo Tenebroso” o 1 e o 2,
    http://www.submarino.com.br/books_productdetails.asp?Query=ProductPage&ProdTypeId=1&CatId=11885&ProdId=82643&ST=BV11885

    você vai se amarrar.

    Abraços

  • Ronaldo says:

    Oi, Silfar! Tudo bom? Você é pastor de que igreja? Eu sempre tive uma queda pelo episcopado mas atualmente acho que a probabilidade maior é dar aula em alguma escola. Mais dentro da vocação mesmo… :-)

    Sobre o Smallville, as referências são bem óbvias mesmo. Pelo meu interesse em literatura, eu sempre estudei muito esse tipo de referência “mitológica” (principalmente em conjunção com os trabalhos de Joseph Campbell). E concordo com críticos que dizem que todas estórias são, de certa forma, retratos da queda e redenção. Pretendo escrever um pouco mais sobre isso algum dia… :-)

    Quando aos livros do Frank Peretti, já tinha lido, emprestados por uma amiga americana. Muito bacanas mesmo. Alguns temas são meio exagerados, é claro, mas além de ser divertido, é também uma boa reflexão.

  • Ronaldo says:

    Oi, Roberto! Tudo bom? Então, se eu entendi direito o termo no dicionário que tenho aqui, ortogonalidade é o que você disse mesmo, mas acho que estamos usando para dizer coisas diferentes. Pela definição geométrica, significando mutuamente independentes ou bem-separados–de uma maneira mais popular, em contato puramente tangencial–e acho que concordamos nisso.

    Eu *não* acredito que fé e ciência sejam ortogonais (daí o título do texto) no sentido de que não posso particionar o meu conhecimento, ou seja, dizer que existe uma parte de mim que aceita religião em contradição à ciência. Eu acredito que os dois podem se encontrar em um todo coerente. É claro que existem perguntas para as quais eu não tenho resposta, mas acho que o afã científico de alguns os leva a repudiar qualquer tentativa de conciliar alguns temas.

    É claro que, como qualquer outra coisa nesse blog, essa é uma opinião pessoal. Não tenho a menor pretensão de forçar alguém a aceitar o que digo e sempre existiram pessoas que dirão que eu sou um idiota por simplesmente tentar conciliar os dois temas. Mas funcionou para mim até o momento e não vejo razões por que não continuará a funcionar. :-)

  • Walter Cruz says:

    Hehhe.. Já leu a trilogia espacial do C.S. Lewis? Era um que eu esperava que reaparecesse na época do filme L.F, mas nem tchuns! Eu achei o primeiro volume num sebo em Brasília, por 3 reais. Vi as sequências na Livraria Cultura, por, pasme, 21 reais! (num livro antigo, impresso naquelas folhas meio amarelas, sabecumé?). Mas acho que se você ler, vai gostar.

  • Ronaldo says:

    Eu li o primeiro livro, mas não animei a ler os outros. Ficou meio que uma bagunça de ficção científica e semi-fantasia que não deu para engolir direito.

    Aliás, parenteticamente falando, o grande problema (inerente) de livros de ficção científica (ou que pele menos contenham elementos do gênero) é que eles ficam desatualizados rápido demais. Hoje, por exemplo, eu não animaria a ler quase nada do Asimov que não fosse relacionado à Fundação e mesmo assim alguns deles. Se Asimov não sobrevive, quanto mais Lewis. :-)

  • Walter Cruz says:

    Hehhe.. eu ia falar da desatualização, mas deu preg..

    Não tinha pensando nessa questão da semi-fantasia. Você tem razão. Mas podemos considerar que já dentro de Longe do Planeta Silencioso, temos a semente para as Crônicas.

    Mas considerando a época em que foi escrito, ainda assim a trilogia é bacana.

    Gosto do Asimov. Li “Eu robô” na biblioteca do senado, antes de eu arrumar emprego.

    Mas atualmente, além dos livros de informática, ando lendo Walt Whitman e Fernando Pessoa.

  • Ronaldo says:

    O que eu não agüento mesmo em livros mais antigos (e filmes também) é a questão da tecnologia arcaica. Infelizmente, parece que nós só conseguimos imaginar mais do mesmo; o futuro é sempre mais surpreendente.

    Eu gosto muito do Asimov, mas atualmente minhas releituras ficam por conta da Fundação e dos seus livros de mistério, que são muito legais por sinal.

    Walt Whitman e Fernando Pessoa são dois autores recorrentes em minhas listas de leitura mas que ainda não li nada, infelizmente. Whitman inclusive parece estar me perseguindo. Toda hora encontro uma referência ao seu trabalhou ou alguém me fala dele :-)

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