Ponto de retorno seguro

January 27th, 2007 § 7 comments

Eu não tenho números, mas, pelo tempo que eu acompanho o assunto, eu diria que a vasta maioria dos projetos de código aberto ou livre são criados para resolver algum problema que o autor original do mesmo tinha. Muitos projetos que hoje tem um profile enorme, como é o caso do Apache e Firefox, começaram assim.

Considerando esse tipo de começo, eu me peguei pensando qual seria o ponto em que o criador original deve abrir mão de suas preferências e deixar que a comunidade escolha o modo através do qual o produto final deverá evoluir. Obviamente, não é uma escolha fácil. Aliás, considerando o aspecto meritocrático natural a esse tipo de projeto, conflitos são muito comuns, manifestados comumente por meio de forks. Um exemplo recente e notório é manifestado na divisão (1, 2, 3) entre os desenvolvedores do WordPress.

Projetos em que o mantenedor principal é um só provavelmente sofrem ainda mais com isso. Afinal de contas, se somente uma pessoa está disposta a trabalhar no código, seria justo considerar que ela é a maior interessada no mesmo e que tem direito de fazer as modificações que lhe atendem melhor. O problema é quando centenas de pessoas estão usufruindo desse código e esperando que próximas versões corrijam problemas mas não introduzam novas características por demais discordantes das versões anteriores. É uma posição realmente delicada.

No final das contas, é quase como se houvesse um ponto de retorno seguro. Até aquele ponto, o desenvolvedor pode se preocupar somente com o código. Do ponto em diante, ele precisa de preocupar com seus usuários também.

Para falar a verdade, eu não sei o que faria se estivesse nessa posição já que, atualmente, não sou responsável direto por nenhum projeto de código aberto. Como usuário, eu já abandonei o uso de certas ferramentas por mudanças radicais na linha de desenvolvimento. Para algumas, mais fáceis de manter, eu mantenho forks pessoais.

De qualquer forma, é uma questão interessante a ser considerar e uma que eu espero explorar mais um dia do outro lado da moeda.

§ 7 Responses to Ponto de retorno seguro"

  • cardoso says:

    Acontece, mais do que a gente imagina.

    Já abandonei completamente um projeto por causa disso, e é complicado. Você às vezes não quer ficar gerenciando, ou não gosta do caminho, e o pior, como sempre quem mais chia NÃO SÃO os usuários em peso, e sim 1 ou 2 que sabem falar alto.

    Você acaba alterando seu projeto para agradar UM, o que é o contrário do próprio conceito de comunidade.

    Até hoje os únicos projetos OS que realmente deram certo são os comandados por Ditadores Belevolentes, e é um bom modelo a seguir.

    Sugiro que escute TODAS as sugestões, mas se reserve o direito de acatar só as que lhe convém.

  • Ronaldo says:

    Realmente é um balanço delicado, até porque, em última instância, há também um desejo de agradar os usuários considerando que o objetivo de um projeto público é–além de obviamente permitir contribuições extras–fornecer algo de útil para outras pessoas como os mesmos problemas. Seja por ego ou por altruísmo, essa motivação está lá.

    Mas, como a história prova, nada de útil é feito por um comitê. Uma ditadura benevolente provavelmente é o melhor caminho a seguir mesmo. :-)

  • Lorn says:

    E por isso que eu gosto da distribuicão que eu uso, Slackware ( http://en.wikipedia.org/wiki/Slackware ) Só um cara faz, só um cara manda, ele até aceita pequenas ajudas ( em testes, e em alguns pacotes ) mais nada que mude nada na distribuicao que permace quase a mesma a mais de 10 anos 😀 há os seus pontos negativos, mais os pontos positivos ganham :)

  • Ronaldo says:

    Eu ainda fico dividido, mas entendo o apelo. No caso do Slackware, o cara fez a distribuição realmente para ele e estabeleceu uma reputação nesse sentido. Acho que é provavelmente uma coisa de conflitos de interesses: eu como usuário, quero certas direções. Mas o crédito tem que ser dado ao desenvolvedor obviamente, já que ele teve o trabalho todo. :-)

  • Luiz Rocha says:

    Concordo, meio a contragosto, que a ditadura benevolente realmente funcionar, na grande maioria dos casos.

    Gosto e quero acreditar que se um desenvolvedor resolve abrir o seu código, ele está ciente de que ele pode perder o controle sobre o mesmo, seja dentro do seu próprio projeto, seja em um fork.

    E isso não é necessariamente ruim, diga-se de passagem.

    Mas, como vc mesmo apontou, a ditadura benevolente normalmente se mostra o melhor caminho a ser seguido.

    Em tempo, vc já teve a oportunidade de ler o Producing Open Source Software?

  • Ronaldo says:

    Sobre perder o controle, concordo plenamente. Esse, na verdade, era o ponto que eu estava tentando entender e expressar melhor. É o significado da palavra livre aplicada ao problema em questão, afinal de contas.

    Sobre o livro, ainda não li. Vou colocar aqui na minha lista enorme de leituras. :-)

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