Profissionais insubstituíveis

March 11th, 2007 § 2 comments

Como tinha mencionado no final do meu comentário sobre o livro Peopleware, eu pretendia escrever um pouco mais sobre o mesmo. Demorou um pouco, mas consegui fazer isso.

Peopleware não é um livro muito conhecido aqui no Brasil, apesar de ter conseguido um status quase místico nos Estados Unidos e Europa. A maioria dos profissionais para os quais eu menciono o livro nem sequer ouviram falar sobre o mesmo, embora os assuntos dos quais ele trate tenham uma relação direta com seu dia-a-dia.

Depois de refletir um pouco, eu penso que a mensagem básica do livro é a seguinte: nenhum profissional realmente capacitado e motivo é substituível. O argumento básico dos autores é que profissionais intercambiáveis podem até fazer sentido em áreas de produção em massa, mas não para áreas onde o trabalho intelectual é dominante.

Isso é algo que vai contra a sabedoria adquirida da maioria dos gerentes e mesmo profissionais de tecnologia de informação. Fale sobre isso com um gerente qualquer e ele dirá que é exatamente o contrário, que o mercado possui profissionais em excesso, todos basicamente equivalentes e que ele pode substituir toda a sua equipe sem impactar a sua área.

Tendo trabalhado em várias firmas de tecnologia ao longo da minha carreira, e tendo prestado serviço para dezenas de outras, é fácil confirmar esse padrão. Raras são as empresas que consideram os seus funcionários um verdadeiro capital humano muito mais valioso para o negócio do que qualquer outra coisa dentro da empresa. A individualidade nas condições de trabalho é algo considerado abominável em um tempo de padronização de recursos–palavra, aliás, que eu considero extremamente desagradável quando aplicada a seres humanos, embora não seja tão hipócrita quanto chamar funcionários de colaboradores em uma tentativa banal de motivar um senso de equipe em um grupo de outra forma disperso.

Os resultados desta atitude de que cada profissional é descartável são óbvios: um turnover altíssimo, funcionários sem qualquer lealdade para com a empresa e custos enormes de treinamento. É de se admirar que tão poucos gerentes consigam fazer essa corelação.

Em essencial, Peopleware é um livro que procura educar os gerentes no sentido de maximizar as condições propícias para a produtividade dos profissionais de tecnologia de uma empresa. Um programador, lendo o livro, pode, por vezes, chegar a ficar ofendido com algumas das analogias que os autores fazem. Mas a lição é sutil: apelando para um certo senso de posição inata no assim chamado middle management, os resultados são duplos: programadores satisfeitos e resultados maiores para empresa. O reconhecimento disso é fundamental para as lições do livro.

O momento em que uma empresa reconhece que cada profissional em sua equipe é único e valioso–não por razões humanitárias, mas por um senso real de negócio–é o momento em que a mesma passa de uma mera diletante para uma força a ser reconhecida. É o momento em que a empresa deixa de fazer a pergunta de porque essa ou aquela empresa se tornaram forças dominantes de mercado e passar para a mesma posição.

Infelizmente para os profissionais, isso não é algo que provavelmente vai acontecer na empresa onde ele trabalha. As estatísticas apresentadas no livro são abismais nesse sentido, reconhecendo que pouquíssimas empresa possuem o mindset necessário para a transição. A maioria das empresas vai passar sua existência inteira batalhando por uma forma de subsistência mínima sem perceber aquilo que a está travando. E os profissionais que trabalham nessas empresas vão passar anos tentando entender o que está errado com suas carreiras.

Os autores do livro notam que os profissionais tendem a ter uma certa uniformidade nas empresas para as quais trabalham, ou seja, o ambiente de uma empresa tende a reduzir o profissional ao menor denominar comum, criando um abismo muito grande entre as melhores e as piores empresas do ramo. A curva normal de distribuição é muito puxada para a esquerda nesse caso.

A solução, eles apontam, é simples: a solução está nas mãos do profissional, que deve se recusar a trabalhar em condições que considera inadequadas. É claro que existem dezenas de circunstâncias que podem se estabelecer como empecilho, mas, em última instância, é realmente uma decisão pessoal, considerando a imobilidade inerente das empresas. No mais, o profissional pode tentar dar o livro de presente para o seu gerente e esperar pelo melhor.

Em próximas entradas, equipicídio e ambiente de trabalho.

§ 2 Responses to Profissionais insubstituíveis"

  • Luiz Rocha says:

    Saco. Mais um livro para o buffer. :-p

    Bom, o que dizer? Eu nem deveria comentar sobre o livro nem sobre o post, pois é exatamente o que eu penso.

    O capital intelectual de uma organização (qualquer) é o conjunto do intelecto dos que a compõe. Melhor, é a interação entre o intelecto dos que a compõe. Negligenciar qualquer elemento é sabotar a própria empresa.

  • Ronaldo says:

    Peopleware realmente vale a pena. Eu demorei para comprar, demorei para ler, mas li de uma sentada e me horrorizei. Nunca mais vou ver a empresa com os mesmos olhos e repare que eu já tinha idéias bem na linha do livro em muitas áreas.

    Sabotar é exatamente a palavra. Equipicídio como os autores colocam. Impressionando como a percepção atual é invertida.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

What's this?

You are currently reading Profissionais insubstituíveis at Superfície Reflexiva.

meta