Código de Conduta para Blogueiros

April 9th, 2007 § 9 comments

O assunto de hoje na blogosfera foi sem dúvida o Código de Conduta para Blogueiros proposto por Tim O’Reilly. O código vem na esteira dos problemas que aconteceram com Kathy Sierra, do conhecido Creating Passionate Users, que parou de blogar depois de ter recebido ameaças pessoais tanto em seu blog quanto em blogs criados com o intuito de permitir uma expressão livre de opiniões controversas mas que, aparentemente, escaparam do controle de seus criadores.

A confusão continua rendendo até o momento, e Tim O’Reilly fez uma proposta bem intencionada de um código de conduta que seria assumido por blogueiros interessados como uma fora de coibir tais excessos (que em alguns casos realmente são ilegais) e, de uma maneira geral, favorecer um ambiente mais “civilizado” entre os blogs.

A proposta do código de conduta, desnecessário dizer, rendeu milhões (tudo bem, milhares) de comentários durante o dia, e, ironicamente, uniu a blogosfera de uma maneira que raramente se vê: praticamente ninguém concordou, e os poucos que concordaram, o fizeram com objeções. Uma análise bem interessante foi a de Tristan Louis, que dissecou o texto, apontando problemas e contradições.

O assunto de comportamento civilizado na Web, por assim dizer, é algo perene. Não começou com os blogs e seguramente não vai terminar com eles. A reação é interessante e, como não poderia deixar de ser, bem cunhada na cultura americana, que, para bem ou para mal, possui uma considerável influência no que os blogs em outros idiomas publicam. Antes que alguém me dê um tiro por causa dessa declaração, repito que isso não é algo bom ou ruim, apenas similar à produção americana de filmes: não é única, mas numericamente mais expressiva. Também, em termos concretos, o conceito de liberdade de expressão dificilmente tem uma representação jurídica como no sistema legal americano. Sendo assim, vai ser bem interessante ver como os outros ecossistemas reagem ao código.

Em termos gerais, eu acho que a proposta é realmente bem intencionada, mas como o velho ditado diz, o caminho para o inferno está pavimentado por boas intenções. O código reflete, mesmo que inconscientemente, uma indicação de igualdade na Web que, sinceramente, não existe. Um código não vai corrigir o problema enquanto a causa do mesmo não for corrigida. Junto com isso, há a outra questão de que as imagens mentais definidas pelo modo como a Web funciona não são tão tratáveis em termos de códigos comuns. O modo com a Web redefine os relacionamentos e composições sociais efetivamente impede que um código assim funciona mesmo com a máxima boa vontade dos envolvidos.

Com isso, é claro, eu não estou dizendo que comportamentos abusivos sejam tolerados. Nem que possuo alguma chave mágica para resolver a questão. Mas acho que o código representa uma espécie de choque futuro. A cena mudou, e as pessoas acreditam que as coisas podem ser resolvidas da maneira usual. Se isso fosse verdade, não teríamos spam.

O fato é que tecnologia define necessariamente um plano de resposta diferente. Esse plano de resposta jamais será coberto por um código que envolva a expressão “We ignore the trolls” como um conceito chave. Talvez a reposta negativa seja uma chave em si, uma possibilidade de refletir porque a resposta foi negativa–além do “limita a liberdade de expressão”–e realmente entender um pouco mais do que está na base das mudanças que vão redefinir os nossos relacionamentos.

§ 9 Responses to Código de Conduta para Blogueiros"

  • Concordo que ninguém concordou. Qdo li morri de rir.

  • Luiz Rocha says:

    E eu confesso que eu faço parte da lista de pessoas que foram pegas nesse choque futuro. Eu fico me perguntando coisas que, cada vez mais, vejo que não se aplicam a realidade da colaboração online.

    Sinceramente, não esperava que fosse fica obsoleto antes de 2010. *sigh*

  • […] Ronaldo – Código de Conduta para Blogueiros: Mas acho que o código representa uma espécie de choque futuro. A cena mudou, e as pessoas acreditam que as coisas podem ser resolvidas da maneira usual. Se isso fosse verdade, não teríamos spam. […]

  • Ronaldo says:

    Alexandre, o Tim O’Reilly ainda está insistindo, com seu novo comentário explicano as razões por trás. E ninguém está dando a mínima. Típico da blogosfera mesmo. :-)

    Eu vejo com um misto trepidação–será que vamos nos adaptar ou acabar como nossos pais, reclamando que não entendem de tecnologia–e esperança–considerando que muitas soluções sociais estão quase lá por conta dessas mesmas tecnologias.

    Quando a ficar obsoleto, se eu conseguir escapar da trepidação acima, planejo viver para sempre, desafiando a Lei de Moore até a morte términa do universo. 😛

  • Luiz Rocha says:

    Cara, só por dar valor para a Lei de Moore, já mostra que vc está ultrapassado. :-)

    Não sei até que ponto é só uma trepidação ou se eu virei tiozinho mesmo. Mas sempre que esse assunto, o _laissez-faire_ da web, vem à tona, eu me vejo pensando até que ponto isso escala.

    Ok, é definitivo. Eu virei tiozinho… 😮

  • […] O assunto é bastante vasto e gerou vários artigos em toda a Internet sobre o tal código, além de traduções livres e adaptações do mesmo, incluindo no Brasil. Numa lista como a blogosfera, que se propõe a discutir todo e qualquer assunto relacionado a blogs, o assunto cairia como uma luva e geraria discussões do mais alto nível. […]

  • Ronaldo says:

    Hehehehe. Choque futuro mesmo. Não dá para escapar. Agora, tiozinho não rola. Ainda vou surfar um pouco na crista da onda.

  • […] Outros textos sobre o “código”: Ilo Navarro: O’Reilly é um engodo TecBit Superfície Reflexiva Tiago Dória Weblog (tem a foto da Kathy que não está no ar no Passionate Users) Uma Dama Não […]

  • […] assunto é bastante vasto e gerou vários artigos em toda a Internet sobre o tal código, além de traduções livres e adaptações do […]

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