Por meio de uma entrevista com o Alex Castro, achei um artigo antigo de Luis Eduardo Matta sobre a literatura de entretenimento no Brasil, principalmente no que tange ao popular formato dos thrillers.
O artigo é uma consideração muito bem feita sobre o gênero, seu lugar e suas possibilidades dentro da literatura brasileira, escrito por alguém que entende do assunto por já ter publicado livros justamente no gênero–e, muito provavelmente, considerando o estado dessa indústria aqui no Brasil, ter sofrido bastante com o processo.
Eu já comentei indiretamente esse assunto aqui no blog ao falar sobre o Paulo Coelho (1, 2) e a necessidade de uma literatura que não tenha outro objetivo que não entreter o leitor. O gênero em que os thrillers se localizam é um gênero em que o entretenimento é o maior propósito, mesmo que o livro esteja sendo usado como uma plataforma para outras considerações por parte do autor. Esse tipo de literatura, em um país como o nosso, tem um potencial enorme de direcionar mais pessoas a uma atividade que, infelizmente, chega a ser desencorajada nas próprias escolas.
Um outro problema, como Matta aponta, é a necessidade percebida na literatura brasileira de que exista um intelectualismo por trás de cada obra e como isso prejudica os demais gêneros no Brasil. Do tempo em que o artigo foi publicado, fim de 2003, até o momento, essa é uma tendência que está mudando, graças em parte à invasão de livros e filmes estrangeiros de fantasia que tem dado um certo impulso ao gênero aqui no Brasil. O brasileiro está percebendo que não precisa se sentir culpado ao ler literatura que ainda é considerada escapista por uma boa parte da inteligentsia.
Eu tenho uma teoria sobre o assunto, baseada no que aconteceu nos Estados Unidos na década de setenta. Naquela época, a fantasia, como gênero, estava, para todos os efeitos, morta. Ninguém publicava, ninguém lia, e os próprios escritores estavam abandonando o gênero por não ver um futuro no mesmo. Até que Terry Brooks resolveu literalmente clonar Tolkien, escrevendo uma trilogia aos moldes de O Senhor dos Anéis. O resultado seguia descaradamente o formato épico que tinha levado Tolkien ao sucesso, mas sem se preocupar com os detalhes psicológicos mais profundos da obra do Professor ou tampouco com alegorias ou metáforas.
O resultado foi um sucesso estrondoso que não só ressucitou o gênero nos Estados Unidos como levou Terry Brooks a uma carreira que já vai para quarenta anos escrevendo basicamente a mesma coisa. Além disso, a ressurgência do gênero nos Estados Unidos facilitou a ressurgência do mesmo no resto do mundo–considerando, é claro, os países onde a leitura não é considerada algo desnecessário.
Eu acredito que os escritores brasileiros poderiam fazer a mesma coisa com o mesmo resultado. Não estou advogando, é claro, a clonagem das idéias básicas de uma obra meramente pelo fato de que é mais fácil fazer isso. Estou, ao contrário, dizendo que essa é uma fórmula de sucesso e que faz sentido. Terry Brooks moveu a Terra Média para um Estados Unidos no futuro, onde os limites entre ciência e mágica haviam se confundido. Não custa nada algum escritor brasileiro fazer algo similar com o Brasil. Uma obra assim provavelmente seria muito mais original que as de Terry Brooks, considerando a diversidade mitológica brasileira. E mais, acostumaria os leitores a verem o Brasil como um cenário literário, ao invés de esperarem personagens com nomes em inglês e estórias que sempre se passam na Europa ou Oriente Médio. O momento é realmente agora, para aproveitar o momento criado sobre Harry Potter, Eragon e obras similares.
Finalizando, eu tenho certeza de que um movimento assim não só seria bem sucedido como traria benefícios enormes ao novos leitores que estão surgindo e querendo material para consumir. Se material barato e brasileiro estiver disponível, uma nova geração de leitores e escritores poderá se formar sem maior esforço do que um pouco de literatura de entretenimento injetada no mercado brasileiro.
Opa Ronaldo!
Por aqui, você nem precisa fazer muito esforço…basta que os novelistas passem a publicar livros…
Se eu entendi bem o seu ponto de vista… ler coisas onde pensar não é o objetivo já faz muito sucesso na industria de entretenimento, musical e etc…
by the way, não precisa ser da “inteligentsia” para apreciar literatura “cabeça” ;_) Pode ser apenas uma questão do gosto pessoal
[]‘s
Bem, eu discordo. Os novelistas não conseguem publicar livros e esse é o grande problema. A indústria brasileira ainda é muito pequena e fechada. É uma situação de ovo e galinha. Eles não publicam porque não vendem e não vendem porque não publicam. E porque não publicam, os autores não escrever porque sabem que não vai dar certo.
O brasileiro médio lê pouquíssimo e é aí que eu acho que literatura considerada descartável pode ajudar o pessoal a tomar gosto. E isso é generacional. Se o filho vê o pai lendo, mesmo que literatura trash, ele vai criar o hábito de ler e não necessariamente a mesma coisa que o pai lê.
Sobre a inteligentsia, eu estava pensando mais no fato de que essa auto-denominada “elite” intelectual despreza qualquer coisa que não seja hermética. Umberto Eco é ótimo, mas não é para qualquer um. Bradbury é ótimo, mas a inteligentsia acha que é literatura para nerd. É a distinção que eu deprezo.
Eu realmente não me importo que uma pessoa comece lendo abobrinha para evoluir porque já vi acontecer milagres com isso. Já vi gente começar a ler Paulo Coelho (depois de anos sem ler absolutamente nada) e agora estar lendo Austen, Cooper, Tolkien. Não duvido que com mais alguns anos essas pessoas estarão lendo Eco, Proust e outros. Agora o Dan Brown tomou o lugar do Paulo Coelho, mas a premissa ainda é válida. Eu acho.
Não exatamente relacionado, mas eu comecei vendo meu pai ler. Lá pelos 10 anos já lia Sherlock Holmes, Arsenè Lupix, os gibis da Mônica e do Asterix. Meu pai gosta mesmo é de literatura policial, o que não deixa de ser um cadinho trash
Completamente relacionado, Walter. Exemplo e motivação contam demais.
A minha experiência é até engraçada: eu comecei a ler sozinho e era rato de biblioteca. Todo dia pegava dois livros (o máximo permitido) e lia os dois no mesmo dia. Quando ia devolver, a bibliotecária sempre frisava que não acreditava que eu tinha lido os livros. Nem se eu provasse contando partes bem específicas dos mesmos. Eu dava de ombros e pegava mais dois. Meu irmão, seguiu um caminho similar. O problema é que a mesma bibliotecária duvidou dele. Ele nunca mais leu com regularidade.
Se nem aquelas pessoas que deveriam estar ajudando estão fazendo isso, acho que o jeito é fazer a coisa pegar no tranco.