Literatura de entretenimento no Brasil

May 29th, 2007 § 4 comments

Por meio de uma entrevista com o Alex Castro, achei um artigo antigo de Luis Eduardo Matta sobre a literatura de entretenimento no Brasil, principalmente no que tange ao popular formato dos thrillers.

O artigo é uma consideração muito bem feita sobre o gênero, seu lugar e suas possibilidades dentro da literatura brasileira, escrito por alguém que entende do assunto por já ter publicado livros justamente no gênero–e, muito provavelmente, considerando o estado dessa indústria aqui no Brasil, ter sofrido bastante com o processo.

Eu já comentei indiretamente esse assunto aqui no blog ao falar sobre o Paulo Coelho (1, 2) e a necessidade de uma literatura que não tenha outro objetivo que não entreter o leitor. O gênero em que os thrillers se localizam é um gênero em que o entretenimento é o maior propósito, mesmo que o livro esteja sendo usado como uma plataforma para outras considerações por parte do autor. Esse tipo de literatura, em um país como o nosso, tem um potencial enorme de direcionar mais pessoas a uma atividade que, infelizmente, chega a ser desencorajada nas próprias escolas.

Um outro problema, como Matta aponta, é a necessidade percebida na literatura brasileira de que exista um intelectualismo por trás de cada obra e como isso prejudica os demais gêneros no Brasil. Do tempo em que o artigo foi publicado, fim de 2003, até o momento, essa é uma tendência que está mudando, graças em parte à invasão de livros e filmes estrangeiros de fantasia que tem dado um certo impulso ao gênero aqui no Brasil. O brasileiro está percebendo que não precisa se sentir culpado ao ler literatura que ainda é considerada escapista por uma boa parte da inteligentsia.

Eu tenho uma teoria sobre o assunto, baseada no que aconteceu nos Estados Unidos na década de setenta. Naquela época, a fantasia, como gênero, estava, para todos os efeitos, morta. Ninguém publicava, ninguém lia, e os próprios escritores estavam abandonando o gênero por não ver um futuro no mesmo. Até que Terry Brooks resolveu literalmente clonar Tolkien, escrevendo uma trilogia aos moldes de O Senhor dos Anéis. O resultado seguia descaradamente o formato épico que tinha levado Tolkien ao sucesso, mas sem se preocupar com os detalhes psicológicos mais profundos da obra do Professor ou tampouco com alegorias ou metáforas.

O resultado foi um sucesso estrondoso que não só ressucitou o gênero nos Estados Unidos como levou Terry Brooks a uma carreira que já vai para quarenta anos escrevendo basicamente a mesma coisa. Além disso, a ressurgência do gênero nos Estados Unidos facilitou a ressurgência do mesmo no resto do mundo–considerando, é claro, os países onde a leitura não é considerada algo desnecessário.

Eu acredito que os escritores brasileiros poderiam fazer a mesma coisa com o mesmo resultado. Não estou advogando, é claro, a clonagem das idéias básicas de uma obra meramente pelo fato de que é mais fácil fazer isso. Estou, ao contrário, dizendo que essa é uma fórmula de sucesso e que faz sentido. Terry Brooks moveu a Terra Média para um Estados Unidos no futuro, onde os limites entre ciência e mágica haviam se confundido. Não custa nada algum escritor brasileiro fazer algo similar com o Brasil. Uma obra assim provavelmente seria muito mais original que as de Terry Brooks, considerando a diversidade mitológica brasileira. E mais, acostumaria os leitores a verem o Brasil como um cenário literário, ao invés de esperarem personagens com nomes em inglês e estórias que sempre se passam na Europa ou Oriente Médio. O momento é realmente agora, para aproveitar o momento criado sobre Harry Potter, Eragon e obras similares.

Finalizando, eu tenho certeza de que um movimento assim não só seria bem sucedido como traria benefícios enormes ao novos leitores que estão surgindo e querendo material para consumir. Se material barato e brasileiro estiver disponível, uma nova geração de leitores e escritores poderá se formar sem maior esforço do que um pouco de literatura de entretenimento injetada no mercado brasileiro.

§ 4 Responses to Literatura de entretenimento no Brasil"

  • sergio lima says:

    Opa Ronaldo!

    Por aqui, você nem precisa fazer muito esforço…basta que os novelistas passem a publicar livros…

    Se eu entendi bem o seu ponto de vista… ler coisas onde pensar não é o objetivo já faz muito sucesso na industria de entretenimento, musical e etc…

    by the way, não precisa ser da “inteligentsia” para apreciar literatura “cabeça” ;_) Pode ser apenas uma questão do gosto pessoal :-)

    []’s

  • Ronaldo says:

    Bem, eu discordo. Os novelistas não conseguem publicar livros e esse é o grande problema. A indústria brasileira ainda é muito pequena e fechada. É uma situação de ovo e galinha. Eles não publicam porque não vendem e não vendem porque não publicam. E porque não publicam, os autores não escrever porque sabem que não vai dar certo.

    O brasileiro médio lê pouquíssimo e é aí que eu acho que literatura considerada descartável pode ajudar o pessoal a tomar gosto. E isso é generacional. Se o filho vê o pai lendo, mesmo que literatura trash, ele vai criar o hábito de ler e não necessariamente a mesma coisa que o pai lê.

    Sobre a inteligentsia, eu estava pensando mais no fato de que essa auto-denominada “elite” intelectual despreza qualquer coisa que não seja hermética. Umberto Eco é ótimo, mas não é para qualquer um. Bradbury é ótimo, mas a inteligentsia acha que é literatura para nerd. É a distinção que eu deprezo.

    Eu realmente não me importo que uma pessoa comece lendo abobrinha para evoluir porque já vi acontecer milagres com isso. Já vi gente começar a ler Paulo Coelho (depois de anos sem ler absolutamente nada) e agora estar lendo Austen, Cooper, Tolkien. Não duvido que com mais alguns anos essas pessoas estarão lendo Eco, Proust e outros. Agora o Dan Brown tomou o lugar do Paulo Coelho, mas a premissa ainda é válida. Eu acho. :-)

  • Walter Cruz says:

    Não exatamente relacionado, mas eu comecei vendo meu pai ler. Lá pelos 10 anos já lia Sherlock Holmes, Arsenè Lupix, os gibis da Mônica e do Asterix. Meu pai gosta mesmo é de literatura policial, o que não deixa de ser um cadinho trash :)

  • Ronaldo says:

    Completamente relacionado, Walter. Exemplo e motivação contam demais.

    A minha experiência é até engraçada: eu comecei a ler sozinho e era rato de biblioteca. Todo dia pegava dois livros (o máximo permitido) e lia os dois no mesmo dia. Quando ia devolver, a bibliotecária sempre frisava que não acreditava que eu tinha lido os livros. Nem se eu provasse contando partes bem específicas dos mesmos. Eu dava de ombros e pegava mais dois. Meu irmão, seguiu um caminho similar. O problema é que a mesma bibliotecária duvidou dele. Ele nunca mais leu com regularidade.

    Se nem aquelas pessoas que deveriam estar ajudando estão fazendo isso, acho que o jeito é fazer a coisa pegar no tranco. :-)

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