Mais rápido ou melhor?

June 11th, 2007 § 2 comments

Percebi ainda outra coisa debaixo do sol: os velozes nem sempre vencem a corrida; os fortes nem sempre triunfam na guerra; os sábios nem sempre têm comida; os prudentes nem sempre são ricos; os instruídos nem sempre têm prestígio; pois o tempo e o acaso afetam a todos.

Eclesiastes 9:11, NVI

Na onda do anúncio recente do Microsoft Surface, muita gente levantou mais uma vez o fato de que a tecnologia da Microsoft dificilmente pode ser considerada inovadora, principalmente quando existe outra que é claramente superior tecnologicamente e que a antecede em tempo de desenvolvimento.

Eu não discordo que o Microsoft Surface tenha um longo caminho a percorrer até se tornar tão interessante quando a tela desenvolvida por Jeff Han–pelo menos no que dá para julgar pelos vídeos liberados, considerando que não tenho acesso a nenhum dos dois produtos. O que eu discordo é considerar que a solução da Microsoft seja inerentemente maligna ou sem mérito apenas por se parecer com outra já existente.

Em meu tempo trabalhando com tecnologia eu aprendi que inovação é raramente relevante quando tomada em isolado. Veja o exemplo do iPhone: é um produto inovador e revolucionário cujo maior mérito não é sua interface diferente ou o fato de que você só precisa de oito toques para realizar uma operação arbitrariamente complexa. A grande revolução do iPhone é que ele está sendo clonado como se não houvesse amanhã.

Inovação, para mim, acontece quando uma tecnologia revoluciona uma área e se espalha. Não é uma questão de ser melhor. É uma questão de ser mais rápido. O iPhone estará disponível por uma única operadora? Vai demorar anos para chegar no Brasil? Quem dá a mínima? Em dois anos, celulares funcionamento idênticos ao iPhone estarão nas mãos de qualquer usuário comum de celular em qualquer mercado do mundo. O iPhone vai continuar sendo mais polido e cobiçado? É claro que, sim–tanto quanto os Macs ainda são cobiçados hoje. Mas quem não tem cão, caça com gato, e depois de um tempo, todos os gatos acabam se parecendo com cães, de qualquer forma.

Com o Microsoft Surface é a mesma coisa. Não importa quem é o melhor. Importa que agora, esse tipo de tecnologia vai dar um pulo, motivado pelo simples fato de que alguém tem isso comercialmente e que existe um enorme mercado querendo o produto. O resultado é que, em alguns anos, vai ser uma tecnologia tão comum quanto qualquer outra.

Inovação não é sobre ser melhor. É sobre disponibilizar o que o mercado precisa mais rápido do que os outros. Se isso vale para a 37signals, porque não vale para o resto dos mercado? Por esse critério, a Microsoft é definitivamente inovadora, como todos os outros que estão clonando o iPhone–porque eu, consumidor, não dou a mínima para mérito tecnológico mas me preocupo enormemente com soluções.

§ 2 Responses to Mais rápido ou melhor?"

  • Walter Cruz says:

    Falando de uma coisa que você manja: como isso se aplica a smalltalk? Ou melhor: porque smalltalk não é tão popular? Tem a ver ou eu apenas estou com muito sono?

  • Ronaldo says:

    Que negócio é esse: sempre que tem polêmica você está com sono? :-)

    Eu acho que o meu argumento não se aplica a linguagens de programação. Smalltalk, Lisp e outros existem em um domínio de problema limitado com regras diferentes de inovação. Especificamente, o controle do uso raramente está nas mãos do programador por razões que não são tecnológicas mas políticas, inviabilizando um uso irrestrito mesmo que mais coerente.

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