Redescobrindo Jules Verne

July 25th, 2007 § 5 comments

Eu me lembro do primeiro livro que li, embora não me lembre do autor. Foi um livro de adivinhações para crianças–aqueles velhos “o que é o, o que é”, bem simples–e eu tinha cerca de cinco anos e meio na época. Eu tinha acabado de aprender a ler por conta própria, lendo a Bíblia de minha mãe.

Quando entrei para a escola, algum tempo depois, descobri–para meu deslumbramento–a biblioteca da escola. Até hoje me lembro de perder uma, duas horas tentando escolher os dois livros que eu podia levar para a casa. Eu sabia que conseguiria ler os dois até o dia seguinte, mas a indecisão era enorme. Até hoje eu sonho que estou em bibliotecas e não consigo escolher por causa da quantidade enorme de títulos disponíveis.

Entre minhas primeiras descobertas, estava Jules Verne, ou Júlio Verne como é mais conhecido cá entre nós. Procurando por novidades na biblioteca, encontrei um livro com capa dura, com uma capa maravilhosa para um menino novo, que já gostava de máquinas: um estranho objeto submarino atacando um navio com os olhares assustados da tribulação assegurando que as páginas continham aventuras incríveis. O livro era Vinte Mil Léguas Submarinas e eu o li em em uma única sentada.

A viagem do Capitão Nemo, sua amargura e a sua relação com os outros personagens–o teimoso e resistente Ned Land, o notável Professor Arronax e seu fiel assistente Conseil–ficaram indelevelmente gravados em minha mente. As vívidas descrições, a ciência crível, o humor, e os detalhes do mundo imagino por Verne continuam a povoar a minha imaginação até hoje.

Por anos, um dos meus projetos futuros–na idade em que imaginamos isso possível–era construir o meu próprio Nautilus em uma ilha deserta e desbravar os mares sem nunca ter necessidade de voltar ao mundo normal. Como leitor, fiquei frustrado ao descobrir que Verne nunca tinha escrito uma continuação para a estória, que terminava tão fatidicamente–até descobrir, é claro, que ele escrevera.

Vinte Mil Léguas foi, é claro, somente o primeiro dos outros trabalhos do autor que li. A Volta ao Mundo em Oitenta Dias, Jornada ao Centro da Terra seguiram rapidamente, sendo mais conhecidos. Mas apreciei igualmente Cinco Semanas em um Balão, Da Terra à Lua, As Aventuras de Três Ingleses e Três Russos na África, Miguel Strogoff e o Raio Verde. E finalmente, meu favorito entre todos: A Ilha Misteriosa.

Jules Verne me introduziu à ficção científica quando eu nem mesmo sabia que esse gênero existia, mostrando que era possível falar de ciência ao mesmo tempo em que conduzia uma estória divertida e cheia de aventuras, sempre rápida e nunca tediosa. E se mais tarde eu quis me tornar um escritor–mesmo um não publicado–a influência de Verne esteve entre as maiores.

Agora, vários anos depois, começo a sentir falta daquela espécie de inocência e esperança que os livros tinham–algo que eu não percebia na época conscientemente, mas que ressonava profundamente. Não que os livros de hoje não sejam capazes de fornecer isso–Kim Stanley Robinson consegue produzir isso em cenários onde você acha impossível que tais conceitos possam existir. É mais uma questão daquela sensação que eu tive quando li os livros.

Em homenagem a isso, decidi então reler todos os livros do autor, que hoje estão plenamente disponíveis em domínio público. Comecei, como não poderia deixar de ser, com Vinte Mil Léguas e os primeiros parágrafos já invocaram a sensação da qual eu me lembrava plenamente. Pretendo ler um livro dele por semana, já que os livros são relativamente curtos.

A viagem, como sempre, será maravilhosa.

§ 5 Responses to Redescobrindo Jules Verne"

  • Efraim Queiroz says:

    Li dele apenas Vinte Mil Léguas, A Volta ao Mundo em Oitenta Dias e Jornada ao Centro da Terra. Vou ver se leio este Ilha Misteriosa. Só que eu já li um pouco mais crescidinho, já estava na UnB, época em que lia um livro por dia, lia enquanto caminhava pelo Campus, na fila do bandejão, etc.

    E falando em leitura, o conselho que sempre dou pra crianças e adolescentes é que leiam, leiam, leiam muito. Vale até obituário. Porém, a realidade é que poucos leem além do estritamente necessário. Eu fico pasmo de ver um estudante de ensino médio que gasta um mês pra ler um livro de cento e poucas páginas e que no fim não entendeu bulhufas. Agora, deprimente é você encontrar alguém que tem orgulho de nunca ter lido um livro, de não gostar de ler. E há muitas amebas destas por aí.

  • Lendo seu post me deu vontade de reler os livros de Verne que eu já havia lido.

    A volta ao mundo em 80 dias foi o primeiro livro que li na minha vida(por livre e espontânea vontade, pois havia lido coisa do colégio que não me interessaram).

    Assim como você, o meu preferido foi A Ilha Misteriosa, mas ainda não li Vinte Mil Léguas Submarinas. Tentei uma vez, mas acho que estava em uma época ruim e lí só pela metade.

    Acho que vou aproveitar sua dica e vou ler os que ainda não li, e reler os que já li.

  • Ronaldo says:

    Efraim, tudo bom? Acho que você vai gostar bastante d’A Ilha Misteriosa. Além da estória em si que é muito boa, há outro detalhe que sempre tornou o livro muito especial para mim no contexto do Verne.

    Sobre o hábito de leitura, concordo em gênero, número e grau–para usar o dito popular. Infelizmente, como você aponta, não há nenhum incentivo. Até mesmo as escolas vão contra os alunos nesse aspecto em muitos casos. Já contei até aqui no blog a história da bibliotecária que duvidava que eu e meu irmão conseguíamos ler dois livros por dia quanto mais novos. Eu prossegui, mas ele desanimou.

    —-

    Rafael, tudo bom? Eu já estou bem avançando no Vinte Mil Léguas e adorando como adorei no passado. Vê se anima mesmo. Vale a pena.

  • Lu says:

    Agora me deu vontade de reler alguns dele também! Como não li toda a coleção, vou colocar “20.000 léguas submarinas” na lista e deixar para reler os 3 ou 4 que já conheço em tempos mais folgados.

    Realmente, como vocês comentaram, é raro quem tenha o hábito da leitura e, geralmente, o que falta é incentivo na idade certa. O maior presente que ganhei dos meus pais foi o gosto por livros.

  • Fred says:

    Viva amigo, gostei muito do seu texto e pergunto-lhe se não está interessado em colaborar com alguma crítica sobre qualquer obra de Verne para o blog do escritor http://www.jvernept.blogspot.com

    Obrigado

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