Dreaming in Code

August 14th, 2007 § 7 comments

Dreaming in Code é um livro sublime. Escrito por Scott Rosenberg, um dos fundadores do Salon, o livro é ao mesmo tempo uma tentativa de cronicar o projeto Chandler e responder a maior questão do desenvolvimento de aplicações: por que desenvolver é tão difícil?

Como seu próprio sub-título diz, o livro é a história de duas dúzias de programadores, três anos, 4.732 bugs, e uma busca por um software transcendente.

Quem trabalha no ramo há mais tempo deve se lembrar do auspicioso começo do projeto Chandler, nos idos de 2001. Chandler é um gerenciador de informações pessoais e tinha o objetivo ambicioso de resolver de uma vez por toda o problema de organização das informações combinadas que uma pessoa precisa no seu dia a dia.

O projeto despertou um enorme interesse na época por uma combinação de fatos que pareciam destiná-lo a um sucesso rápido e permanente: era um projeto de código aberto, bancado quase que completamente por Mitch Kapor–que fizera fama e dinheiro com o Lotus 1-2-3 e tinha o necessário para investir pesadamente em um projeto assim–e com uma lista de características que prometia revolucionar a área.

Em 2003, chegou a ser chamado pela Wired de um Outlook Killer e o lançamento de suas primeiras versões foi tão ou mais aguardado do que uma nova versão do Windows.

Hoje, seis anos depois do lançamento do projeto, ainda não passa de uma versão alpha com somente a parte de calendário utilizável.

O que Scott Roseberg faz em em seu livro é documentar três anos da história do projeto, mostrando a extrema dificuldade de transformar a idéia de Mitch Kapor em realidade e quais são as lições que essas dificuldades implicam. Rosenberg abre as cortinas por trás de um projeto de código aberto que tinha tudo para dar certo e cujo sonho ainda permanece elusivo. E por trás de cada evento narrado, cada comentário feito, a grande questão: porque desenvolver algo utilizável é tão complicado?

Misturando-se à narrativa linear do projeto, Rosenberg faz uma análise extensiva do indústria de software, mostrando que desde os seus primórdios, nenhuma evolução ou revolução da área conseguiu responder a questão.

O livro, nesse sentido, é uma verdadeira aula de história do campo, passando pelos mainframes, cruzando a fronteira da computação pessoal, subindo ao nascimento da Web e descendo daí até os dias atuais com o mercado dominado por start-ups que duram menos tempo do que suas idéias. No caminho, sistemas de hipertexto, NLS e mesmo o Ruby on Rails aparecem para ilustrar um ou outro aspecto da questão.

Eu confesso que enchi o livro inteiro de anotações–sorrindo com os casos compartilhados (Rosenberg tem um talento especial em narrar os fatos e eventos mais relevantes do campo), concordando e discordando com as opiniões propostas. O livro é um verdadeiro diálogo com o leitor, que ao acompanhar o que Rosenberg está escrevendo, não pode deixar de pensar que por mais mecânica que a área seja, o que está em jogo são pessoas, a que são as limitações e o gênio dessas mesmas pessoas é que se traduz no que a área é hoje.

O livro termina com a primeira versão funcional do Chandler e com a questão em aberto. Mas qualquer programador ou analista–e mesmo usuários–termina o livro sentindo que existe uma beleza por trás do código e que sistemas não são algo frio e meramente funcional, mas uma representação da complexidade que transformar esse mesmo código em algo transcendente, algo além de meros sinais em um circuito.

§ 7 Responses to Dreaming in Code"

  • Luiz Rocha says:

    Parece muito interessante mesmo. Adicionado na listinha de livros para ler.

  • Neto Cury says:

    Lendo o texto que lembrei do buzz que foi sobre o tal Chandler, nem me lembrava mais disso, obrigado!
    Abração

  • Ronie Uliana says:

    Ainda que o computador seja o meio, continuamos trabalhando com pessoas. :)

    Grande dica de livro! É muito raro encontrar informações sobre projetos, inda mais um projeto que não deu muito certo.

  • Ronaldo says:

    Luiz, compartilha a listinha no seu blog. Eu sempre estou procurando coisas para ler também. :-)

    Neto, depois experimenta baixar para ver como está. Cinco anos é realmente uma profunda decepção. Pena.

    Ronie, exato! O que ficou do livro foi isso e é uma coisa que todo desenvolvedor precisa lembra de quando em quando. Pena que o projeto não deu tanto certo. Mas, faltam quatro anos para o que o Joel Spolsky diz ser o mínimo para bom softwares ficarem prontos. Dá tempo. :-)

  • Luiz Rocha says:

    Eu sempre estou procurando coisas para ler também.

    Ah vá? :-)

    Vou postar sim. Mas acho que a maioria você já deve ter lido…

  • Ronaldo says:

    Estou esperando… :-)

  • […] Atendendo a pedidos, segue a lista (que eu pude me lembrar agora) de livros que gostaria de ler, com ou sem comentários, fora de ordem e assim vai. […]

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

What's this?

You are currently reading Dreaming in Code at Superfície Reflexiva.

meta