Níveis de interface

November 14th, 2007 § 2 comments

Recentemente, participei de uma reunião em uma grande empresa para discutir a substituição de um aplicativo in-house cujas deficiências já estavam começando a prejudicar o trabalho por outro mais coerente com as necessidades atuais da empresa.

Para contextualizar, o programa antigo foi inicialmente desenvolvido há mais de vinte anos sendo atualizado basicamente só durante mudanças de plataformas. A versão atual tem mais que oito anos e foi desenvolvida em uma ferramenta de programação já descontinuada e em um banco de dados mono-usuário.

Durante a reunião, a aplicação mais moderna foi apresentada. Ela atende de maneira quase perfeita as novas necessidades e possui um bom caminho de atualização futuro. A grande diferença: a aplicação antiga é standalone e envia dados de importação à cópia central usando texto enquanto a atual é uma aplicação centralizada via Web.

Vale dizer também que os usuários da aplicação, embora versados no uso de computadores, como evidenciado pela proficiência dos mesmos em resolver problemas de instalação e execução da mesma, são relativamente inexperientes no que tange a Web.

O que mais me impressionou em relação à apresentação foi como os usuários sentiram dificuldade em mapear o fluxo da aplicação tradicional para o novo paradigma da Web. Embora a maioria das funções fosse basicamente idêntica em termos de funcionalidade geral, o modo com uma aplicação Web se comporta, com passos entre o servidor e o cliente confundiu completamente alguns usuários.

A interface Web, sem menus ou botões organizados em barras como em aplicações tradicionais, também foi outro ponto de contenção. Não importava que em muitos casos o workflow fosse bem mais simplificado: a interface era simplesmente alienígena.

Depois da reunião, eu comecei a pensar que, para determinados tipos de aplicações, as metáforas usuais de interface realmente são melhores. Mesmo com a flexibilidade que uma aplicação Web provê, determinados problemas são mais amenáveis ao modelo tradicional de interface.

Uma solução para o problema seria, obviamente, reeducar os usuários. Mas nem sempre isso gera os melhores resultados. Embora eventualmene os usuários provavelmente se acostumem com o novo modo de fazer as coisas, a perda de produtividade já terá sido alta.

Por causa disso, eu acredito que exista um ponto em que o Adobe Air e o Silverlight podem entrar com bastante sucesso. De um ponto de vista inteiramente pragmático, essas duas ferramentas permitem uma interação mais usual com o sistema que torna o processo de reacquisição da interface mais tranqüilo.

Com o Prism, esse processo talvez se torne ainda mais interessante, mas dependeria do uso de um toolkit mais interessante–como o Ext JS.

De qualquer forma, foi bom ser lembrado de que nem todos usuários possuem a facilidade de uso com a Web que nós, desenvolvedores, possuímos. E não existe Web 2.0 que resolva isso.

§ 2 Responses to Níveis de interface"

  • Olá Ronaldo. Interessante esse post, já passei por uma situação semelhante. No caso, o lado visual nem foi o problema, mas o fato de que os funcionários estavam habituados com o uso de teclas já memorizadas (setas, enter, f1..f12 …) e a nova aplicação web trouxe um desconforto e uma sensação de que eles se tornariam “menos produtivos”, consumiriam mais tempo para realizar a mesma tarefa, e isso foi suficiente para que a aplicação fosse classificada como “ruim” e “insatisfatória” sem que fosse levado em conta outros aspectos. Mesmo que estes funcionários já tivessem uma certa fluência com a web por usarem constantemente e-mail e internet banking, a aplicação era diferente. A solução foi melhorar o máximo possível essa interação com JS, e a empresa acabou impondo aos funcionários o novo modelo web. Nesse momento toda a preocupação e rigor com uma página enxuta, limpinha e dentro dos padrões cai por terra diante de pessoas que apenas querem continuar fazendo o que faziam antes sem preocupação com mais nada. Talvez a solução fosse mesmo uma outra interface que não parecesse, pra eles, um navegador. Talvez um ambiente único (web) em que seja possível fazer de tudo ainda não tenha sido compreendido.

  • Ronaldo says:

    Opa, Valdir. Tudo bom?

    A descrição desse problema seu é exatamente a sensação que eu percebi naqueles usuários. Uma das frases que eu escutei foi “não teria como manter os ícones do jeito que estão hoje”. Essa sensação de familiaridade é perdida quando você migra para algo que é completamente diferente em múltiplos níveis.

    Pelo menos hoje, com mais possibilidades em JS, é possível criar interfaces mais próximas. Mas, realmente, o cliente não dá a mínima para padrões se as coisas não estão funcionando como funcionavam antes.

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