Contando es/his/tórias

December 13th, 2007 § 2 comments

Algumas das minhas primeiras lembranças de menino–já um pouco mais crescido, então, e capaz de usar lápis e papel–incluem horas e horas passadas em um canto de sofá desenhando, em traços básicos, infidáveis estórias cujo único propósito era divertir a mim mesmo. As estórias variavam muito em tema e duração mas havia sempre a idéia no fundo de que eu era o protagonista das mesmas, ainda que isso ficasse somente no inconsciente muitas vezes.

Eu sempre gostei de contar estórias. Embora não escreva tanto quando gostaria, eu mantenho uma narrativa constante que, há momentos, parece se interporlar com minha própria vida. Estórias se transformam em histórias em alguns momentos e mesma a memória parece se obfuscar com a presença desses elementos mais do que reais. Aqueles que me conhecem sabem que eu adoro contar uma estória do passado como se fosse verdade–e sempre com elementos–mas com um grande componente de ficção que, algumas vezes, chega até a me confundir.

Nesses momentos, eu me lembro de Lincoln Powell, o personagem principal da magnífica obra de Alfred Bester, The Demolished Man. No livro, Powell se refere ao “mentiroso Abe”, uma espécie de sub-personalidade sua responsável por contar estórias que não são necessariamente mentiras mas que também não são inteiramente verdade.

Isso gerou estórias (ou histórias?) clássicas na minha família como a vez em que eu fui perseguido, junto com um tio que é apenas uma ano mais velho do que eu, por uma mula sem cabeça legítima, soltando fogo pelo pescoço decepado e tudo mais. Eu juro que a estória é verdade. Sério. Pode perguntar para o meu tio que ele comprovará a absoluta veracidade da informação.

Não chega a ser uma compulsão, mas eu confesso que adora ver a cara de espanto das pessoas quando eu conto uma estória e, no tom mais factual possível, apresento uma situação patentemente falsa mas com suficientemente fundo “histórico” para que a pessoa possa ficar na dúvida se estou falando a verdade ou não. Até a mula sem cabeça pode se tornar real por alguns instantes dessa forma.

É a sina do contador de estórias. Depois de um tempo, a família fica vacinada. Pelo menos até que eu consiga outra lembrança da infância. Aí começa tudo de novo. E eu me divirto…

§ 2 Responses to Contando es/his/tórias"

  • Marcelo Junior says:

    Nunca sei quando devo escrever história ou estória.

  • Witaro says:

    Enquanto lia lembrei do filme “Peixe Grande” de Tim Burton. Já viu? Recomendo.

    E Marcelo, “estória” (que era ficção, conto, etc) ficou para a História, agora é tudo “história”…

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