Freakonomics

December 23rd, 2007 § 6 comments

Um tanto ou quanto atrasado, finalmente consegui ler Freakonomics. Embora seja uma leitura rápida, eu enrolei um pouco para poder ler com um pouco mais de calma do que os meses passados estavam permitindo.

O livro, escrito em conjunto por Steven D. Levitt, um economista, e Stephen J. Dubner, um jornalista, reflete, quase que em sua totalidade, as teorias expressas pelo primeiro autor, descritas de uma maneira mais familiar ao público pelo segundo autor. Da mesma forma que The Tipping Point, por Malcolm Gladwell, já resenhado aqui, o livro ganhou notoriedade entre a intelligentsia por suas opiniões e explicações pouco convencionais para fenômenos que tem intrigado a comunidade científica por décadas, como o que está por trás da corrupção, o motivo do declínio do crime nos EUA durante a década de noventa, e assuntos relacionados.

Particularmente, embora o livro tenha sido uma leitura agradável, o tratamento de Levitt e Dubner dos temas citados me pareceu bem superficial e faltando a análise pelo menos um pouco mais profunda oferecida, por exemplo, por Gladwell em seus dois livros mais conhecidos.

No cerne de Freakomonics estão quatro idéias principais:

  • Experts usam seu conhecimento em vantagem própria;
  • Incentivos são a base de toda economia moderna;
  • A sabedoria convencional muitas vezes está errada; e
  • Pequenos acontecimentos podem ter conseqüências profundas.

Das quatro idéias acima, nenhuma delas é reveladora ou, pelo menos, nova. De fato, a menos que uma pessoa não tenha gasto alguns minutos para refletir como o mundo realmente funciona, essas quatro idéias são auto-evidentes e gastar um livro inteiro para demonstrá-las é, no mínimo, pouco produtivo.

O ponto onde o livro ganha é realmente nos casos apresentadas pelos autores para demonstrar as idéias acima. Usando comparações sagazes–por exemplo, o que professores do ensino médio tem em comum como lutadores de sumo–um caso específico para cada um dos pontos oferecidos é formado mostrando como a interpretação trivial é, geralmente, incorreta.

O que não impede, é claro, que controvérsias existam nas interpretações dadas. De fato, e não sem ironia, embora o próprio Gladwell tenha escrito um blurb elogioso para o livro, a teoria que ele apresenta em The Tipping Point para queda da criminalidade em New York é diretamente contradita por Levitt. O assunto gerou, inclusive, bastante discussões após o lançamento de Freakonomics, com uma conversa entre os autores via seus respectivos blogs (1, 2, 3). Sem surpresa alguma, os autores concordaram em discordar.

Embora eu ainda recomende a leitura de Freakonomics, com base na estimulação intelectual que o mesmo pode prover, eu confesso estar decepcionado em face das resenhas lidas anteriormente que o consideravam brilhante e inovador. Principalmente após a leitura de The Tipping Point, que explora mais a fundo as questões, é difícil entender o status de Freakonomics. Se o livro tivesse o dobro de conteúdo e análise, talvez eu tivesse terminado o mesmo com uma conclusão diferente. No momento, entretanto, eu tenho que dizer que não vi tanto de surpresa do que Levitt e Dubner escreveram.

§ 6 Responses to Freakonomics"

  • Lucas Petes says:

    Freakonomics tava na minha lista de livros-meta para 2008. Depois da sua resenha, troco pelo Tipping Point?

    ou leio os dois se tiver tempo? :)

  • Ronaldo says:

    Freakonomics é tão pequeno que você consegue ler em uma sentada. Aí daria para ver se minha opinião tem algum fundamento ou se estou falando só merda. :-)

    De qualquer forma, gostei mais de The Tipping Point porque pelo menos o autor fez um bom esforço em organizar o que estava escrevendo. Freakonomics parece uma matéria de jornal ou um texto bem longo em um blog.

  • Fala Ronaldo,

    Interessante o seu ponto de vista.
    Eu comprei o livro por pura casualidade, num dia em que bateu a vontade de ler algo diferente. Só depois de ler o livro foi que vi que ele tinha sido recomendado por um monte de gente.

    Para mim, o livro é um excelente passa-tempo, mas concordo com você que o livro ficou faltando se aprofundar mais e que ele tratou as coisas apenas por um ângulo.

    O que acho mais válido no livro é o fato de ele te levar a pensar na relação causa/efeito focando em uma abordagem nada tradicional (e até mesmo polêmica).

    Concordo com seu comentário onde diz que ele parece um texto jornalistico, mas não podemos esquecer que Dubner é jornalista hehe daí a grande similaridade (e, talvez, falta de competência do escritor).

  • Ronaldo says:

    Concordo que o livro tem uma abordagem interessante; por isso, e somente por isso, continuo recomendando.

    A questão do texto meio jornalístico talvez tenha sido o que mais me incomodou. Eu andei lendo alguns comentários e no meio deles vi várias pessoas comentando que o livro poderia ter sido inteiramente escrito em uma dúzia de textos mais longos em um blog. Eu tenho que concordar em certa medida, até porque no meio do livro é mencionado que o Levitt não tinha a menor intenção de escrever e o Dubner acabou meio que sendo um ghost-writer limitado.

    Mas, enfim, vale a pena para comparar com o que saiu de similar na época e pensar um pouco sobre com as coisas realmente funcionam, mesmo que as explicações não estejam necessariamente corretas.

  • Diogenes says:

    Tu chegou a ler o outro livro do Gladwell?(“Blink: a Decisão Num Piscar de Olhos”)
    Andei namorando ambos os livros dele ha um tempo atras, mas por algum motivo decidi deixar pra depois…

  • igor says:

    Bom, eu sou estudante de administração e tive que ler este livro para fazer uma resenha. Apesar de não ser um leitor fanático de livros desse gênero eu gostei realmente do ponto de vista do autor sobre o que se diz respeito a relação acusa/efeito. Já li alguns livros sobre o assunto e esse foi o que deixou as coisas mais claras na minha cabeça. O mundo gira em torno de incentivos bons e ruins(pelo menos o mundo dos homens) e a relação entre os mesmos que servira de termômetro para ver onde esse mundo vai parar.

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