O coração do tempo

January 1st, 2008 § 2 comments

O fim do ano é uma época curiosa. Cientistas falam de solstícios como os momentos em que o dia ou noite são mais longos dependendo do hemisfério em que você está. Eu tenho comigo que o último dia de um ano e o primeiro do seguinte são os dias que realmente merecem essa posição.

Não importa em que local você esteja, as pessoas com as quais esteja ou não passando os mesmos, ou, inclusive, o que esteja fazendo, esses dois dias, combinados, não parecem ter mais do que entre oito e doze horas. Luz e escuridão combinados, nenhum dos dois dura o suficiente para compor um ciclo completo do que chamamos dias.

No último dia do ano, o relógio parece funcionar em incrementos maiores do que os usuais segundos, minutos e horas. Você olha para o relógio e vê duas horas da tarde. Não mais do que alguns minutos depois, você olha novamente e vê que já são três e meia, sem ter consciência do período decorrido. E não é que você esteja distraído. Se você se lembrar de olhar os ponteiros, terá a curiosa sensação de que os mesmos estão se movendo um fração de volta mais rápidos. Relógios digitais piscarão suspeitamente, como se a energia estivesse para falhar, e, momentos depois, se reafirmarão em uma hora que você não se lembrará de ter visto acontecer.

E o primeiro dia do ano, então? O primeiro dia do ano é ainda mais rápido do que o dia anterior. Às vezes, parece passar tão rápido que você se pergunta se o ano realmente não começou no seu segundo dia. Poucas são as memórias futuras de um primeiro dia do ano. Elas sempre parecem se perder em brumas onde você somente ouve os ecos dos eventos passados como se eles pertencessem a outros que não você.

Talvez seja isso que faça os outros dias tão especiais. Saber que o tempo é tão frágil, tão sujeito a modificações, é algo que coloca em perspectiva cada segundo que se passa. Saber que momentos podem ser cooptados tão desapercebidamente ilumina cada outro segundo com uma luz segura e duradoura.

Esses outros momentos permanecem, congelados no mesmo tempo fugaz, como gotas lançadas em alta velocidade e capturadas no momento de sua explosão contra um obstáculo qualquer, sua forma delineada tão fortemente pela consciência de que aquele é o ponto final.

E é por isso que é possível valorizar esses momentos, porque cada um deles tem sua forma e seu propósito. Eles estão ali para ficar, ao mesmo tempo em que jamais reterão sua forma original. Essa, talvez, seja a mais bela afirmação da dualidade que existe no coração do tempo, a revelação e epifania dos dias em que o tempo não corre como deveria correr, mas existe para fora de nós, intangível e intocável e, entretanto, perfeito.

§ 2 Responses to O coração do tempo"

  • Efraim Queiroz says:

    Ronaldo,

    Profundo, muito profundo!
    Que consigas produzir muitos posts como este ao longo de 2008! E saúde, mais saúde que em 2007. []s

  • Ronaldo says:

    Muito obrigado pelas palavras. Estou sempre tentando evoluir como escritor e, claro, humano, e espero conseguir mais uma medida de avanço em 2008.

    Muita felicidade para você e os seus também em 2008.

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