Relendo livros

January 3rd, 2008 § 5 comments

Em minha longa carreira como leitor profissional, eu já experimentei vários esquemas para classificar livros e decidir o que vale a pena ser lido e o que deve ser evitado. A vida é curta demais para ler tudo o que aparece pela frente mas, mesmo sendo curta, existem também os livros que eu desejo reler de quando em quando pelo impacto que me causaram.

Eu não sei sobre outros leitores, mas existem certos livros que me causam uma vontade quase física de releitura. Alguns pelo sentimento nostálgico que deixam ao final da leitura, outros pela grandiosidade da visão do autor, e outros simplesmente pela poesia contida nos mesmos.

Reler livros é uma espécie de balanço entre a velocidade de leitura–não faria sentido reler se eu fosse um leitor muito lento–e e o ato de aproveitar cada palavra escrita pelo autor. Stephen R. Donaldson, por exemplo, é um leitor cujos livros eu leio na menor velocidade possível considerando que sua prosa é uma grande parte do prazer que alguém sente ao aproveitar os seus livros. Um exemplo de muitos é essa passagem:

As Mhoram’s singing faded into the distance, he heard the reply. Its music far surpassed his own. It seemed to fall from the branches like leaves bedewed with rare melody — to fall and flutter around him, so that he stared as if he were dazzled. The voice had a light, high, clear sound, like a splashing brook, but the power it implied filled him with awe.

Duna–e os demais livros da série–merecem releituras pela escopo épico. Começando com um planeta e depois se expandindo por todo um universo ao longo de mais de quinze mil anos, é uma estória para saborear em suas múltiplas ramificações e possibilidades. Pena que Hebert tenha morrido antes de completar sua visão épica e que seu filho tenha acabado com um possível final para a série.

Como cada livro tem o seu peso e seu estilo, o tempo entre uma leitura e outra varia enormemente. Existem livros que eu reli com intervalos de dez anos. Outros que eu releio a cada dois anos, no máximo. Da minha lista de repetições atuais, os seguintes estão na minha lista permanente de releitura:

Duna, por Frank Herbert
Releio a série inteira a cada quatro anos. Como são seis livros, eu demoro cerca de um mês e meio para passar por todos eles. O quarto livro é o meu favorito e eu já acabei lendo o mesmo novamente mais do que já li a série completa. No total, devo ter lido a série completa três vezes nos últimos anos e livros individuais algumas vezes mais do que isso.
The Chronicles of Thomas Covenant, the Unbeliever, por Stephen R. Donaldson
Composta atualmente por duas trilogias e dois livros de uma tetralogia final, eu geralmente releio a série completa a cada três anos. Essa é provavelmente a releitura mais demorada já que, como eu disse acima, gosto de aproveitar cada livro ao máximo. O resultado é que demoro alguns meses para passar por todos os livros, me forçando a não ler rápido demais para não perder os detalhes. Donaldson é um autor que faz demandas físicas sobre seus leitores pela força de cada parágrafo e isso também torna a leitura mais demorada.
O Senhor dos Anéis, O Silmarillion e O Hobbit, por J. R. R. Tolkien
Ironicamente, O Senhor dos Anéis é o livro que eu menos gosto dos três trabalhos principais de Tolkien. O Silmarillion é o meu preferido, seguido por O Hobbit. A exemplo de Duna, eu leio os livros a cada quatro anos embora a leitura seja bem mais rápida. Tolkien escreve bem, mas não com a força de Donaldson ou Herbert. Mesmo assim, O Hobbit é uma leitura deliciosa e o escopo mitológico dos outros dois livros compensam as longas descrições e o passo mais lento da narrativa.
Atlas Shrugged, por Ayn Rand
Esse entrou há poucos anos para a lista de releituras e foi lido somente uma vez até o momento. Mas já estou a coceira para ler novamente. Um livro dividido em três partes cujos títulos são Non-Contradiction, Either-Or e A is A merece ser lido com mais cuidado do que li da primeira vez. Não sou partidário do Objetivismo, mas Ayn Rand escreve extremamente bem.
A Bíblia, por Deus
A Bíblia é o livro mais fácil de ser relido, pelo modo como seus capítulos se prestam a um ciclo anual preciso. Eu sou meio suspeito para falar, sendo evangélico, mas o fato é que a Bíblia é um livro incrível mesmo para quem não acredita em sua mensagem. As estórias e lições são, literalmente, fora de série.

Há vários outros livros que eu provavelmente repetirei eventualmente: American Gods, de Neil Gaiman é um que já está aparecendo no meu futuro de releituras. Os livros de China Miélville e Charles Stross também merecem uma futura releitura–embora Stross provavelmente se torne um pouco datado eventualmente. Um monte de outros livros divertidos também podem ganhar uma segunda leitura pelo prazer que me proporcionaram na época mesmo não sendo os grandes clássicos acima.

E vocês. Quais são os livros que relêem e por quê?

§ 5 Responses to Relendo livros"

  • Já que você perguntou heheh

    Um livro que já reli algumas vezes é o Home que calculava por Malba Tahan. É um livrinho pequeno, que conta uma estória simples mas muito divertida.

    Da sua lista tb estão na minha lista de releitura os 3 do Tolkien. Gostei muito do Hobbit, mas como li primeiro O Senhor dos Aneis ele ficou marcado mais forte. O Silmarillion tb pede uma releitura para relembrar o começo de tudo.

    Quando eu era muleque tinha uma série de livros(que não me lembro mais qual o nome) de vários escritores de literatura estrangeira. Essa série foi minha iniciação na leitura e ainda hoje tenho vontade de achar os livros para reler. Um que me marcou muito foi A volta ao mundo em 80 dias, que foi o primeiro que eu li e já reli mais duas vezes.

    Acho que vou ter que comprar outros livros de Verne, deu saudade hehe.

    Esses são alguns… :-)

  • Como não sou um leitor profissional e leio muito pouco, é difícil reler alguma coisa.

    Mas na minha lista estão:
    Cristianismo Puro e Simples e Os Quatro Amores do C. S. Lewis;
    Bíblia;
    As Crônicas de Artur do Bernard Cromwell.

  • Ronaldo says:

    Rafael, cara, eu adoro O Homem que Calculava. Tenho uma cópia recente aqui e já li várias vezes embora não recentemente. Boa lembrança essa. É um dos livros que dá para ler super-rápido e realmente diverte de montão, além de ensinar bastante coisa.

    Sobre o Tolkien, eu gostei mais d’O Silmarillion justamente por contar as estórias por trás de tudo. Eu gosto muito dessa coisa mitológica, fatídica e o Tolkien é bom nisso.

    Júlio Verne eu tinha um projeto de reler mas acabei enveredando por outros lados no ano passado. Esse ano quero reler pelo menos os principai

    José, eu confesso que estou atrás com minhas leituras de Lewis. Um amigo até se ofereceu para me emprestar vários deles e eu ainda não peguei. Também já não é a primeira vez que alguém me recomenda As Crônicas. Vou subir na minha fila. :-)

  • Ronaldo,

    De fato O Silmarillion é excelente. A visão da criação de tudo de Tolkien é interessante e relativamente próxima da criação descrita na Bíblia.

    Usando como gancho o comentário do José, recomendo C.S Lewis. Estou querendo comprar Cristianismo Puro e Simples, pois me recomendaram. As Crônicas de Nárnia são excelente (especialmente O Sobrinho do Mago e O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa). Esses são outros que quero reler.

  • Ronaldo says:

    Eu tenho as Crônicas completas em uma edição enorme e capa dura, muito legal. Eu já tinha lida O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa há alguns anos e lio O Sobrinho do Mago para minha esposa em voz alta. Estamos planejando continuar a leitura na ordem. C. S. Lewis, pela afinidade cristã, é realmente muito bom.

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