Ficção científica sem idéias?

January 7th, 2008 § 4 comments

Em um artigo recente, Mark Harris, um dos colunistas da Entertainment Weekly questiona a falta de criatividade dos filmes modernos de ficção científica, apontando para a abundância de remakes que permeia o cinema e a televisão nos últimos anos.

Com razão, o artigo aponta o fato de que a ficção científica tem como papel prever o que é naturalmente imprevisível, tentando obter um relance do futuro que possa esclarecer algo sobre o presente. Muitos dos filmes modernos, mesmo os considerados visualmente avançados–como The Matrix, por exemplo–falham em fazer isso. The Matrix, por mais inovadora que tenha sido em efeitos especiais, e por melhor que tenha contado a estória, ainda era uma acomodação de conceitos que já haviam sido explorados infindáveis vezes pelo movimento cyberpunk nos anos anteriores.

Algumas exceções óbvias ao argumento geral aparecem, mas mesmo estas falham em realmente projetar o futuro de uma maneira verossímil e interessante. Firefly, por exemplo, combina de maneira interessante faroeste e space opera, mas não trás nada além de um mundo um pouco mais elaborado. The Fountain e Sunshine, filmes recentes que eu achei incríveis, possuem uma estória muito bem elaborada, direção impecável, são visualmente perfeitos e, ainda assim, não trazem nada além do convencional. Mesmo o sabor místico do filme de Aronofsky não chega a passar das convenções do gênero.

Harris atribui o problema aos próprios fãs do gênero que, segundo ele, querem reusar os temas do passado por causa de um senso nostálgico da época em que se familiarizaram com o gênero. Em alguns casos, isso é verdade. Muitos dos filmes modernos possuem toda a sua estética baseada nas raízes de Blade Runner e 2001 que, embora tenham sido marcos na época e continuarem a impressionar pela força e expressividade, não possuem mais a capacidade de afetar o mundo como o fizeram em suas épocas respectivas.

Considerando minhas leituras recentes, passando por autores como Charles Stross, Kim Stanley Robinson, William Gibson, eu acho que falta mais coragem do que idéias.

Charles Stross possui uma visão tremenda e épica do futuro e é impossível ler seus livros sem sentir constantemente um choque futuro. Apesar disso, seus livros poderiam ser completamente adaptados para o cinema já que as imagens evocadas não estão além da tecnologia. O que é possível que aconteça–e talvez seja isso que impeça tais adaptações–é que os conceitos estão, pelo mesmo choque futuro, nas bordas da compreensão do que o público em geral conseguiria absorver. O resultado seriam filmes intensamente aclamados pelos fãs do gênero e intensamente desprezados como incompreensíveis pelo resto da população.

Gibson, por sua vez, escreve com precisão sobre as questões mais preocupantes dos tempos modernos. Ao fazer isso, entretanto, toca em muitas feridas que incomodariam o público de uma maneira igualmente intensa. A exemplo de Kim Stanley Robinson, o que ele escreve é “perigoso”, no sentido em que ambos advogam posições consideradas controversas–no caso de Gibson, uma visão completamente diferente da segurança de uma sociedade; no caso de Robinson, uma tecnocracia plausível que não teria lugar no atual ambiente política.

Esses problemas encontram, eu acho, uma validação nos números decrescentes de audiência de Battlestar Galactica. Quanto mais a série se aprofundou politicamente e socialmente, menos audiência a mesma alcançou. Eu duvido que isso seja uma mera coincidência. A população não está preparada para pensar a fundo em questões como as apresentadas pela série–e sejam quais forem os pontos de vista esposados pelos produtores, o fato é que cada episódio lida com temas complexos e moralmente ambíguos cuja solução espelha muitos dos problemas atuais que vivemos.

Por tudo isso, a ficção científica como arte comentada permanecerá com algo fora das vias principais de divulgação, vivendo uma existência ambígua no cinema ao tentar satisfazer dois tipos completamente diferentes de público. A ficção científica não está perdendo o seu poder de impressionar; antes, as pessoas estão cada vez menos dispostas a pensar e considerar o tipo de questão que ela levanta. Por outro lado, eu acredito que os novos canais de distribuição que surgem a cada momento estão modificando isso e em um futuro próximo é provavelmente que uma reversão do problema apontada acontece.

Enquanto isso, os fãs continuaram aproveitando o material que está sendo publicado e tolerando o pouco que se gera em troca de uma continuidade e uma promessa de mudança. Eu não ligo porque também acredito nisso. Enquanto essa hora não chega, eu continuo com Stross, Robinson e Gibson.

§ 4 Responses to Ficção científica sem idéias?"

  • Clovis says:

    Bem, um autor que merecia citação neste tópico seria Adam Douglas e sua série Guia do Mochileiro das Galáxias. O humor ironico de Douglas e as “viagens” e insights que o cara tem são de tirar o chapéu.

    abraços.

  • Ronaldo says:

    Sim, o Douglas é um autor que sai do convencional e faz muita coisa interessante. A adaptação dele para o cinema, embora muito boa em certos aspectos, ficou a dever na visão geral. Mesmo assim, daria bastante coisa legal nas mãos de um bom diretor.

  • Lorn says:

    Eu posso ser criticado por isso, mas acho que o Douglas mistura muito humor com ficção, e ficção fica como se fosse uma piada tipo, “isso nunca vai existir”. eu li o primeiro livro e não pretendo ler os outros.

    /me assustado com a quantidade e qualidade de posts no blog em tão poucos dias 😛

  • Ronaldo says:

    Eu confesso que gosto desse humor meio louco dele. Algumas sacadas são geniais embora algumas sejam impossíveis de pegar em uma tradução e quase tão difíceis no original de tão elaboradas. De certa forma você precisa ter um espírito inglês para ler. :)

    Sobre a qualidade dos textos, muito obrigado. E sobre a quantidade, isso é por causa da implantação dos três projetos que estamos fazendo atualmente. :-)

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