Caneta e Papel

January 15th, 2008 § 6 comments

Nessa era de computadores, muitos escritores migraram da caneta e papel para suas versões eletrônicas. Eu tenho um amigo que, depois de trabalhar por uma década no campo de tecnologia educacional, não consegue escrever a menos que esteja na frente de uma computador. Ele simplesmente perdeu o costume de usar uma caneta e sua mão dói, literalmente, se ele precisar usar uma por mais que alguns minutos.

Qualquer escritor, é claro, pode se beneficiar de uma bom processador de texto. Familiaridade com um editor preferido pode incrementar o processo de colocar as palavras no papel removendo muito do trabalho braçal de organizar o que está sendo escrito e deixando mais tempo para o que importa. O processo de edição, em especial, é muito mais fácil em um processador de texto com as funcionalidades para tal.

Eu sou um programador por profissão, o que significa que eu passo um tempo enorme da frente de computador. Sendo também um escritor, não no sentido publicado mas no de alguém que gosta de escrever, eu tendo a usá-los também para escrever. Especialmente quando eu estou escrevendo algo em inglês, uma segunda linguagem, um computador oferece vários recursos para lidar com as eventuais dúvidas ortográficas e gramaticais. A Internet, é claro, é uma ferramenta essencial.

Com tanto incentivo, é fácil ver porque muitos escritores preferem exercer sua profissão através de máquinas. É uma questão simples: caneta e papel tem um propósito única; um computador, por outro lado, é adaptável aos hábitos do escritor.

Algum tempo atrás, lendo uma entrevista já antiga com Neal Stephenson sobre o seu Baroque Cycle, que estou lendo no momento, fiquei surpreso ao descobrir que ele, extremo conhecedor e usuário de tecnologia, escreveu os livros à mão. Stephenson, que chega a programar macros para formatar seus livros no Emacs, achou que seria anacrônico escrever no computador sobre uma época onde só havia pena e papel para o mesmo tipo de tarefa e resolveu experimentar escrevendo à mão. Gostou do modo como o processo funcionou e o resto é história.

Embora os motivos de Stephenson sejam específicos para a série e ele provavelmente volte ao computador para seus próximos livros, eu fiquei intrigado com a descrição que ele fez do seu fluxo de trabalho e resolvi experimentar. Eu tinha uma idéia para uma estória curta sobre sonhos e memória e decidi escrevê-la inteiramente à mão. Comprei uma caderno e uma caneta confortável e me lancei ao trabalho.

No começo, achei o processo lento e pouco produtivo. Depois de usar tanto o computador e conhecendo minha velocidade, escrever com uma caneta parecia um retrocesso. Além disso, eu gosto de começar a editar o texto desde sua primeira versão. No computador, isso é uma mera questão de mover e remover texto. No caderno, o resultado foi quase uma página inteira de palavras e frases cortadas na primeira tentativa. Dez páginas depois, eu percebi que estava cortando quase tudo que escrevia. O texto que escapara aos cortes não daria duas páginas.

Decidi então esquecer o processo de edição e focar somente em escrever. A mudança no fluxo de escrita foi impressionante. As palavras começaram a fluir como nunca, seguindo a estória em minha mente de maneira mais rápida e mais concisa do que eu conseguiria de outra forma. Resistindo à ânsia de editar, eu descobri que cada sessão com o caderno e caneta rendiam muito mais do que no computador. E, surpreendentemente, com exceção do maior número de erros comuns de ortografia e gramática, remediados com facilidade na transcrição, a qualidade do que eu estava escrevendo não parecia ter mudando substancialmente. O processo de edição estava acontecendo inconscientemente no caderno ou estava exagerando no computador.

Eu não sei se continuarei a usar um caderno para escrever. Foi uma experiência muito boa, e que resultou em uma estória terminada em menor tempo. Mas eu não acredito que o problema seja o computador. Antes, é minha vontade de produzir boa prosa na primeira passagem. No caderno, me forçando a esperar, eu me concentro mais na estória e o resultado é melhor do que ficar me questionando frase a frase no computador. A facilidade de editar e reorganizar o texto exaustivamente talvez não seja o ideal para mim.

Seja o que for que eu venha a descobrir desses experimentos, uma coisa é certa: escrever à mão me fez sentir muito mais próximo do ato de criação. Digitar um texto no computador parece algo um tanto distanciado da realidade de ouvir uma caneta traçar linhas cada vez mais completas na superfície de uma folha. Talvez seja minha falta de experiência, talvez seja a novidade da situação, mas certamente a experiência me pareceu mais concreta–como seu eu pudesse ouvir a musa sussurrando em meus ouvidos, ao invés do tedioso e frio som de um teclado se espalhando pelo ar de uma forma completamente alienígena à pureza do momento.

§ 6 Responses to Caneta e Papel"

  • Interessante a experiência.

    Eu mal dou conta de escrever no computador, com caneta e papel é que não sai mesmo hehe.

    Faltou só o link para o texto que você escreveu :-p

  • Ronaldo says:

    Eu costumo rascunhar muita coisa com caneta–na verdade, com lápis já que eu não gosto de canetas. Mas foi estranho mesmo.

    Quanto ao texto, não publiquei na Internet. Quem sabe um dia. :-)

  • Também preferia lápis à caneta mas já tem um bom tempo que não escrevo nada à mão. Acho que os traumas de uma letra feia ficaram marcados demais hehe.

    Quando publicar (se não for aqui no blog) avisa do link :-)

  • Ronaldo says:

    Ah, sim, o maior problema com escreve à mão foi entender o que eu tinha escrito depois. Eu me lembro de ter perdido alguns parágrafos por conta disso. :-)

    Se eu publicar, coloco sim.

  • Muito interessante sua “experiência” Ronaldo.
    Eu, como (ainda) designer, esboço algumas coisas no papel sim. Adoro caneta e papel. Escrevo até bastante, pois tenho “mania” de escrever tudo que penso em um bloquinho (até mesmo problemas de programação! :D), para não esquecer depois.
    O estranho, é que, na faculdade, não levo caderno. Não escrevo quase nada, e, quando preciso escrever, pego o bloquinho e anoto, ou então, abro o notebook e faço anotações.

    Quanto ao texto que você escreveu, se publicar, quero o link também!
    Abraços!

  • Ronaldo says:

    Eu estou precisando de retomar a prática de carregar lápis e papel para anotar esse tipo de coisa. É irônico, mas o celular permite que eu faça isso mas por algum motivo eu acabo não fazendo. Talvez seja o caso de comprar um gravador de voz. :)

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