Blink

January 22nd, 2008 § 0 comments

Há alguns dias, terminei de ler Blink, o segundo livro de Malcolm Gladwell. Como em The Tipping Point, Gladwell explora explicações contra-intuitivas para um fênomeno com fortes conotações sociais ou psicológicas.

O tema de Blink é algo que Gladwell chama de thin-slicing, que é a habilidade de encontrar padrões e explicações para determinadas situações baseadas em um feedback mínimo. Em outras palavras, o que convencionalmente chamamos de intuição.

Embora Blink seja um bom livro–Gladwell é um excelente expositor–eu não gostei tanto do mesmo como do anterior. Em The Tipping Point, Gladwell estabelece um framework conceitual para a tese que está expondo e trabalha a mesma através de considerações teóricas e exemplos levantados em sua pesquisa. Em Blink, entretanto, o foco acaba ficando quase que somente nos exemplos e o livro perde com isso. Se os exemplos fosse removidos, o livro provavelmente perderia dois terços do seu conteúdo.

O propósito do livro, nas palavras de Gladwell, é triplo: primeiro, mostrar que a intuição é algo que funciona e que podemos confiar na mesma; segundo, identificar onde a intuição falha; e, terceiro, mostrar que é possível treinar a intituição.

Particulamente, eu acredito que nenhum dos três objetivos foram cumpridos completamente. Embora eu concorde com a conclusão primária de Gladwell, que intuição é nada mais do que reconhecimento de padrões, e somente possível se derivada de uma ampla experiência, isso não é fazer muito mais do que declarar o óbvio. Nesse ponto, o mérito do livro está mais em resumir o que existe hoje sobre o assunto do que estabelecer novas fundações. Em relação à pesquisa de por que a intuição falha, muito do que Gladwell escreve chega a ser parcialmente contraditório com o que ele fala da primeira parte. E o terceiro sub-objetivo do livro é resumido em um capítulo minúsculo e sem muito fundamento.

Talvez parte disso seja o quase aspecto místico que Gladwell confere à intuição. Em um dado momento ele diz que é algo que nunca entenderemos e que temos que respeitar porque funciona mesmo assim. Isso é um besteira completa. Outro ponto que eu achei muito fraco foi comparar as falhas na intuição com um autismo temporário. Gladwell pega um tipo de autismo e converte isso em um exemplo de falha de intuição de uma maneira que achei pouco válida.

Apesar disso, o livro vale a leitura por alguns insights bem interessantes sobre o problema. Por exemplo, Gladwell fala bastante sobre a questão de aproveitar a velocidade da intuição em certas situações como uma forma de ganhar um avanço em relação ao entendimento de um certo problema para somente depois analisar mais profundamente. Essse é um guia útil para ajudar na resolução de problemas espinhosos e algo que podemos treinar para fazer bem. Um outro exemplo interessante é a discussão sobre a introdução na New Coke como forma de combater o crescimento da Pepsi, Gladwell nota acertamente que o contexto em que intuição funciona tem uma correlação profunda com a validade do mesmo em situações onde há informação estendida–em outras palavras, a situação para a intuição deve ser equivalente à necessária para uma análise mais profunda.

Em última instância, a lição de Blink, que eu considero válida e que torna a leitura do livro interessante, é que expertise combinada com uma confiança em uma parcela de nosso inconsciente pode ser uma ferramenta poderosa na solução de problemas e na criação de vantagens competitivas nos campos em que trabalhamos. Isso é algo que deveria ser óbvio mas que vai contra certas premissas psicológicas estabelecidas e vale a pena pensar um pouco mais sobre o assunto à luz dos exemplos mostrados por Gladwell.

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