Memória

January 28th, 2008 § 7 comments

Uma amiga minha estava mencionando que seu pai, nas horas vagas, começou a desenhar a cidade em que cresceu em uma folha de papel, mapeando suas lembranças desde a infância até o momento em que deixou a comunidade pela vida na metrópole.

O pai dela, que deve estar em seus setenta em poucos anos, tem uma memória incrível. Ele não só consegue se lembrar de como as ruas na cidade era dispostas naquela época, como também onde estavam os estabelecimentos comerciais, quem morava em tal lugar, onde o pessoal se reunião, e todo o resto da vida social de um pequena cidade.

O que essa amiga quer fazer agora é dar de presente ao seu pai uma representação eletrônica disso, seja através de um site ou um programa simples, de forma que ele possa manter esse conhecimento e trocar com outras pessoas interessadas. Além do desenho, ele eventualmente vai poder cadastrar fotos e pequenas descrições sobre o que cada local representa. Em suma, um pequeno mundo virtual de suas memórias e lembranças.

Depois de ouvir o plano dessa amiga, eu comecei a pensar em minhas próprias lembranças e o quanto eu realmente guardo das mesmas. Eu tenho que confessar que não tenho nem um terço da capacidade de memória desse senhor. Embora, como todo mundo, eu me lembre de muito do que aconteceu quando eu era pequeno, minhas memórias atuais não são nem de longe suficientes para que eu possa fazer algo similar. E se não são agora, eu imagino que aos sessenta serão menos ainda.

Eu já tive um diário que durou vários anos. Um dia, em um arroubo que hoje eu considero completamente idiota, queimei tudo. Não era um diário contínuo, do dia a dia, mas era algo que me permitia guardar muito mais do que eu guardo atualmente.

Eu fico pensando no que Charles Stross disse sobre poder guardar toda sua vida em uma memória eletrônica permanente e completa, algo que deve acontecer em poucas décadas. Até lá, eu me questiono se vale a pena manter uma memória disso.

Manter uma diário–não aquela narração cheia de auto-piedade juvenil–mas um discurso para o futuro é algo comum. Os grandes nomes da história sempre acaba fazendo isso e é assim que se tem, às vezes, uma melhor compreensão do que fizeram. Um espécie de diário do capitão, por assim dizer. Não que eu seja–ou mesmo pretenda–ser famoso o suficiente para que minha vida careça de iluminação. Mas é algo que talvez sirva para meu filho, algo que ele talvez ache interessante e o ajude a compreender um pouco do que eu vivi e daquilo que influenciou sua vida.

Ou talvez a memória seja algo que se deva deixar desaparecer, para se tornar algo até fantasioso, que torne os velhos tempos melhores ainda. Permitir que o passado permaneça no passado e que o futuro seja livre também é um dom. Talvez maior até do que a preservação.

§ 7 Responses to Memória"

  • suzzinha says:

    Ô Ronaldo!

    Acho que todo adolescente queima o diário :) Eu também queimei os meus. Tinha uns cinco cadernos grandes cheios de coisas escritas, coladas, rasgadas.

    saudade :(

  • Ronaldo says:

    Sobre diários, acho que é por aí mesmo. Volta e meio eu me lembro de alguma coisa que eu escrevi e bate aquela nostalgia. Embora eu tenha certeza de que, tomados inteiramente, seria horrível reler algumas partes. Eu morreria de vergonha mesmo que estivesse sozinho. :-)

  • Esse negócio de memória é interessante. Minha família tem um histórico de boa memória. Eu herdei um pouco, apesar de ultimamente andar esquecendo muitas coisas.

    Me lembro de algumas coisas da minha infância, mas gostaria de lembrar de mais coisas.

    Sobre os diários eu nunca cheguei a fazer um por pura preguiça de escrever mas outro dia estava vendo um programa na TV(que não me lembro qual) em que um jornalista(que também não me lembro qual) fez um diário da vida dos filhos. Desde o nascimento até uma certa época da vida dos filhos ele tirava fotos, colava em um álbum e escrevia alguma coisa sobre aquele dia. Pelo que eu pude me lembrar agora acho que ele fez isso pro primeiro e segundo ano, dia-a-dia. Depois foi espaçando. Achei interessante, e talvez eu faça isso quando tiver um filho (não colar em um álbum, mas com álbum virtual ehehe)

  • Ronaldo says:

    O engraçado é que eu tenho um memória relativamente boa para assuntos técnicos. Eu consigo lembrar resultados de buscas no Google feitas há um ano, mas quando chega a hora de lembrar o que comi no jantar do dia anterior a coisa fica preta.

    Esse lance do álbum para o filho é bem legal. A Dooce (esqueci o nome real dela) escreve no blog dela cartas mensais para a filha. Vem fazendo isso há quatro anos e é muito bacana.

  • Memória é uma coisa muito interessante não é?!
    Pois é, o que fazem as fotos? E os vídeos?
    Pois é, servem para mostrar o que memorizamos. Se você for olhar pelo lado filosófico da fotografia, é isso mesmo: sua memória, ninguém tem acesso, a não ser que você desenhe (como o vovô acima), ou então tire fotos, faça vídeos, etc.
    Gosto muito de fotografia digital, mas ela tirou uma coisa de nós, que antigamente tínhamos em abundância: lembranças.
    Muitos dizem, sobre fotografia digital:
    – É só gravar em um CD!
    Simples não?! Se fosse tão simples, guardar uma foto, de papel, seria a mesma coisa. Tudo guardado/conservado de forma correta, vale pra vida toda. Mas, mesmo que você guarde/conserve alguma coisa, nada é igual à sua memória.
    Sou meio suspeito para falar, afinal, além de novo, acho minha memória muito boa.
    Tudo que posso, guardo na minha memória. Tudo.
    Espero um dia poder escrever um livro. Talvez uma autobiografia, não que minha vida tenha muita coisa interessante, mas gostaria sim.
    :)

  • Ronaldo says:

    Eu tenho uma relação ambígua com fotos e vídeos. Eu acho bom ter o registro, mas eu acho que o ato de ficar tirando fotos ou gravando vídeos não deixa que você aproveite totalmente aquilo que está acontecendo; ainda mais se você estiver preocupado em tirar fotos boas. Fotografia digital e celulares ajudam porque reduzem o custo disso, mas ainda assim você acaba ficando preocupado em não perder bons momentos.

    No momento, eu acho mais interessante me fiar no pós-evento, mesmo que algumas memórias estejam já corrompidas. Quando chegar armazenamento absoluto, aí dá para editar à vontade. :-)

    E sobre o seu livro, escreva sim. Nossas vidas não são interessantes para o mundo em geral, mas é bem diferente para aqueles que são próximos.

  • Todo mundo escreve… escreve, esquece e depois diz que “não era assim tão bom”….. mas ai o tempo passa e todos pensam que deviam ter insistido mais….

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