Ideologia

March 14th, 2008 § 8 comments § permalink

Eu me lembro de quando comecei a trabalhar em uma empresa que fazia de PHP sua ferramenta principal. Durante os primeiros meses, houve um evento sobre código livre e a empresa me incentivou a ir. Eu fiquei entusiasmado porque foi uma surpresa e algo que eu mesmo não tinha pedido.

É claro que a surpresa durou somente um dia. No final do primeiro dia, a chefia telefonou e disse que preferia que eu não fosse no segundo dia. O motivo não foi mais trabalho ou algo urgente, mas um simples desinteresse posterior–provavelmente pelo susto de ver um funcionário passar um dia inteiro fora. E durante todo o tempo em que eu estive lá, eu nunca mais pude participar de outro evento. Por mais que eu pedisse, nunca era autorizado.

O mais irônico é que a empresa se considerava uma defensora do código livre. Sempre que alternativas proprietárias eram consideradas, a idéia era sempre que código livre era melhor. Mas o que se percebia logo é que código livre lá era sinônimo de grátis e não tinha nada a ver com liberdade ou abertura. Uma vez, questionei sobre o assunto de contribuir com a comunidade, devolvendo na forma de alguns utilitários que não representavam nenhuma capital intelectual significativo. De forma alguma foi a resposta. Por que daríamos para outros algo que pagamos para criar? O resultado é que até hoje eu não entendo a anomalia que representou aquela ida ao primeiro dia do evento.

Código livre é, em última instância, uma questão de ideologia. Muitos, se questionados, diria que isso é coisa de hippies, de comunistas, socialistas, ou grupos assim, justamente por causa da questão ideológica.

Mas uma coisa que não se percebe é que ideologia é uma questão cultural. Ela representa uma linha de idéias sobre como determinado conjunto de circunstâncias deve se desenvolver. E essa parte cultural representa também uma escolha primária sobre essas idéias naquilo que se enxerga em relação ao futuro.

Ler Free Culture deixou isso ainda mais claro em minha mente. Embora o livro seja sobre copyright e cultura, e não necessariamente sobre software e cultura, os paralelos entre os dois campos são tão significativos quanto os mesmos são diferentes.

A minha frustração com o fanatismo vem justamente da inabilidade que as pessoas tem em perceber esses paralelos. Essa visão limitada e imediatista tanto do mercado como do desenvolvimento cultural, vinda de pessoas que estão construindo o futuro é algo que não entra na minha cabeça.

Talvez seja a falta de reflexão; talvez seja simplesmente a preguiça. Mas é uma pena em todo o caso.

Precisando de pegar um solzinho

March 13th, 2008 § 0 comments § permalink

Vão me acusar de nepotismo, mas meu irmão está mandando ver no blog: Tô precisando pegar um solzinho. Essa foi antológica. :-)

Varal de Bits

March 12th, 2008 § 4 comments § permalink

Depois de vários anos tentando, finalmente consegui fazer com que meu irmão criasse o seu blog. O agradecido já começa o Varal de Bits–o nome da empreitada–tirando uma onda da minha cara. Pelo visto, é só para isso que servem os irmãos.

E para dar um susto no pessoal do CakePHP, ele liberou o vídeo de introdução que foi feito para o Minas on Rails do ano passado. Antes que o povo do CakePHP nos mate, o vídeo foi só uma tentativa bem humorada de apresentar o evento e assustar o pessoal. Pelas caras de susto do público quando o vídeo começou a correr, teve muita gente pensando que estava no auditório errado e se daria para correr e achar o local certo. Foi divertido.

Só espero que ninguém pense em nos assassinar em algum evento próximo. Eu juro que foi de brincadeira. :)

Etapa 2.0

March 11th, 2008 § 28 comments § permalink

Voltei hoje de São Paulo com a confirmação: vou de mala e cuia para a metrópole. Mais um mineiro para se espantar com a enormidade da proverbial selva de concreto. Fase nova da vida, com detalhes que ainda virão próximas semanas e meses. Mas, se eu for julgar pelo primeiro dia vai dar tudo certo. Eu gostei e bastante do que vi.

Vai ser uma experiência no mínimo interessante, e isso eu digo não sem um pouco de trepidação. Depois de quase trinta anos em Belo Horizonte, dentro de um mercado bom mas comparativamente limitado, é hora de experimentar projetos diferentes e aprender bastante com uma nova turma. E, é claro, fazer muito também.

A empresa continua, mas não nas minhas mãos. E eu acho que está muito bem cuidada. Retornos, só o futuro sabe dizer nesse momento. São Paulo, aí vou eu. :-)

Free Culture

March 10th, 2008 § 7 comments § permalink

Free Culture é um livro incrível. Embora eu já siga o trabalho de Lawrence Lessig no que tange ao copyright há anos, esse é o primeiro livro seu que eu lei e fiquei bem impressionado.

O trabalho de Lessig é bem conhecido entre as pessoas que se preocupam com copyright e questões de cultura atualmente. Seu trabalho tanto teórico quanto prático é bem antigo e significativo. Eu me lembro muito bem de ter seguido o caso Eldred vs. Ashcroft no qual ele foi o advogado principal com interesse extremo e ter sentido bastante a derrota do mesmo.

Free Culture fala sobre Eldred vs. Ashcroft mas é muito mais do que isso. E embora escrito com uma audiência americana em mente, os assuntos tratados são relevantes para qualquer outra país considerando a atual situação política e tecnológica. Dividido em três partes interconectadas, o livro é uma reflexão profunda e honesta sobre os problemas atuais relacionados ao copyright e suas possíveis soluções.

Na primeira das partes, Lessig descreve como a cultura é criada, como o copyright influencia a mesma e como as mudanças na política de copyright dos últimos cem anos estão destruindo a criação da cultura em nossa geração e concentrando a cultura já existente nas mãos de uns poucos. De fato o argumento central do livro é esse: cultura depende de um copyright mais relaxado e concentração de mídia, seja qual forma tome e mesmo se permitida pelo mercado, pode ser uma força destrutiva na maioria dos casos.

A segunda parte do livro descreve como os problemas especificados na parte anterior podem ser resolvidos de uma maneira mais geral. Lessig também fala com sinceridade sobre Eldred vs. Ashcroft tomando para si a culpa da falha do caso. Como o tempo demonstrou, entretanto, ele teria falhado de qualquer forma. Quando ele escreveu o livro–fim de 2003, início de 2004–corrupção real na Suprema Corte dos EUA não era tão evidente como é hoje. Os rumos que os fatos tomaram depois mostram que mesmo que ele tivesse usado o argumento que não usou–e que ele acha que teria ganho o caso–ele provavelmente ainda teria perdido.

A parte final do livro descreve o que ele e outros estão fazendo para mudar as coisas, incluindo o nascimento da iniciativa Creative Commons. É a única parte esperançosa do que é um livro um tanto ou quanto sombrio, mas o tempo também tem mostrado que as coisas estão começando a mudar–e que essa mudança não virá de política ou qualquer outra coisa assim, mas de pessoas decidindo fazer o que é certo. O livro termina com outra proposta para redefinir o sistema internacional de copyright.

Como Lessig mesmo admite no final do livro, a situação parecia negra na época. Isso não mudou tanto na frente política, mas o movimento pró-cultura está crescendo a cada dia e já está se tornando parte do vocabulário da Internet. Há muito em que ter esperança hoje.

O único problema com o livro, na minha opinião, é que Lessig pede desculpas a todo momento por seus pontos de vista, reafirmando seu compromisso com a lei. Essa atitude faz parecer que o livro é, de alguma forma, subversivo quando nada poderia estar mais longe da verdade. Lessig deveria se orgulhar do que está fazendo. E o tipo de pessoa que precisa dessas desculpas não leria o livro ou concordaria com as visões expressadas de qualquer forma.

Lendo o livro, eu também me lembrei dos mundos ficcionais de escritores como Charles Stross e Vernor Vinge. Ambos tendem a descrever futuros onde a cultura livre é apropriadamente compensada–micro-pagamentos sendo a solução mais comum. Free Culture é sobre o balanço que pode existir em tais futuros, se as pessoas continuarem o trabalho começado.

No geral, mais do que recomendado. Obrigatório.

Concurso e Conceitos de Programação

March 9th, 2008 § 7 comments § permalink

Segundo os logs de acesso deste blog, o dia de hoje representou o momento em que o mesmo ultrapassou os mil leitores conhecidos nos diversos feeds disponíveis. Eu não sei se acredito nas estatísticas ou não, mas vou supor por um momento que sejam verdadeiras e aproveitar para brincar um pouco.

Concurso

A primeira brincadeira é um concurso. Leitores freqüentes sabem que este ano eu estou pensando bastante sobre a questão de paradigmas de programação–especialmente no que tange ao desenvolvimento Web. O objetivo do concurso é simples: escreva um texto sobre esse assunto. Você pode:

  • Descrever algo que está pensando sobre o assunto
  • Introduzir algo que aprendeu e que modificou sua forma de pensar sobre desenvolvimento Web
  • Explicar as falhas do seu framework favorito e como você as corrigiria
  • Etc

De fato, qualquer coisa nesse linha vale. O prêmio vai para o texto que eu pessoalmente considerar mais interessante sobre o assunto. Para participar, basta enviar um e-mail como a URL do texto ou criar um trackback ou pingback para este texto.

E falando no prêmio: eu tenho uma cópia–nova, intocada–do Code Complete, segunda edição, do Steve McConnell, considerado um melhores livros sobre boas práticas em desenvolvimento. Não é autografado, mas é um livro muito bom e acho que cabe bem em qualquer biblioteca de programação.

Conceitos de Programação

A segunda brincadeira é tentar continuar a série Conceitos de Programação através de textos de convidados. Se você tem interesse em escrever um texto no estilo dos que eu estava fazendo–e eu espero poder contribuir novamente a partir da semana que vem–entre em contato comigo no email mtblog [arroba] reflectivesurface [ponto] com.

O único requisito é que o texto seja similar aos que já foram feitos (balanço de material explicativo e código de exemplo). Obviamente, eu me reservo o direito de adequar o texto ao estilo do Superfície Reflexiva, mas isso não significa mudar o conteúdo do mesmo. Quando muito, inserir alguns sub-títulos, reformatar código para se encaixar na coluna de texto e coisas similares.

Espalhem

Agora é hora de testar se existem leitores mesmo. :-) Quem sentir vontade, espalhe a notícia do concurso e quem sabe podemos criar um diálogo interessante sobre o tema e presentear alguém.

Fanatismo

March 8th, 2008 § 11 comments § permalink

Eu não canso de me surpreender com o fanatismo das pessoas. Deve ser o otimismo.

Os mesmos desenvolvedores que criticam os apaixonados pela Microsoft são os mesmos que se curvam ao altar da Apple. Os mesmos que criticam o código aberto pela falta de suporte aparente não se preocupam em limitar o seu mundo a um único fornecedor.

E o mais engraçado são as justificativas para isso. As pessoas realmente não aprendem. Há momentos em que eu penso que o novo fundamentalismo é tecnológico.

Loucuras ocasionais

March 7th, 2008 § 3 comments § permalink

Dois textos interessantes sobre experimentos e sugestões para melhorar o ambiente de trabalho, satisfazer as pessoas que trabalham para você e economizar no geral:

Se você observar as sugestões, verá que nenhuma delas é excessiva e nem além do que a maioria das empresas um pouco mais estabelecidas podem fazer. Aqui no Brasil, entretanto, só de pensar em fazer alguma coisa assim já dá calafrios em praticamente todo e qualquer empresário, mesmo os que mexem com Internet.

Eu sempre fui um cara meio rebelde–em certos aspectos–nas empresas onde que trabalhei. Sempre procurei seguir a linha que o Joel Spolsky sugere de tentar transformar um ambiente menos do que o ideal por meios de pequenas ações. E já tive minhas fases de loucura que chocaram meu empregador mas muitas vezes serviram para dar um toque de que a coisa não estava indo bem.

Eu me lembro de alguns anos atrás quando trabalhava em uma empresa com poucos funcionários. Como o chefão ficava perto de todos nós, era bem fácil interagir e conversar sobre potenciais problemas.

Na empresa, tínhamos umas cadeiras bem confortáveis. Nenhum Aeron, mas o suficiente para não deixar ninguém com problemas de coluna para o resto da vida. Depois de alguns meses trabalhando lá, chegou a notícia de que a empresa iria se fundir com outra maior. Eu, contra o meu melhor julgamento, fiquei. O processo de fusão, alguns meses depois, foi até sem problemas. Houve um período inicial de ajuste, mas como as equipes eram fundamentalmente diferentes, no primeiro momento não houve nenhuma explosão ou migração.

Agora, em termos de ambiente, embora a nova sede fosse linda, o local era horrível. Baias, costas para a mesa dos novos chefes, e por aí vai. Eu, no primeiro dia, sem perguntar para ninguém, já me mudei para o local mais interessante do ambiente. Mas as cadeiras eram horríveis. As boas que tínhamos foram substituídas por genéricas que me deixaram dolorido em menos do que duas horas. Depois de uma semana assim, cansei. Conversei com o chefe anterior e a desculpa foi que não dava para comprar boas para todo mundo e o menor denominador teria que prevalecer.

Dois dias depois, a loucura baixou. Quase na hora do almoço, com as costas explodindo, eu me levantei, fui na sala de um dos chefes–não o meu–peguei uma das cadeiras de visitas chiques na frente dele e pus a minha horrorosa no lugar. O cara ficou me olhando sem saber o que dizer.

É claro que no dia seguinte fui chamado para uma reunião. O resultado é que algumas semanas depois, todo mundo recebeu cadeiras novas. Eu achei que ia ser despedido, mas nada. O pessoal acabou vendo que a coisa toda não doía e a produtividade de gente bem sentada era obviamente melhor.

Eu sai da empresa logo depois. O ambiente não era para mim, como eu já previa. Mas foi uma época engraçada. E ficou a lição: só trabalhe em um local que vai ouvir você. Ou trabalhe por conta própria. Foi o que eu fiz. Nunca mais trabalhei em nenhum lugar em que economia é mais importante que o funcionário.

iPhone SDK / Nokia e Silverlight

March 6th, 2008 § 16 comments § permalink

Saiu o SDK para o iPhone. Sem surpresas, o Campo de Distorção de Realidade Jobsiano está ativado ao máximo e todo mundo está achando lindo e maravilhoso.

E também sem surpresa, a Apple mostra mais uma vez que seu interesse é prender cada vez mais o mercado e os desenvolvedores: para distribuir aplicações, os desenvolvedores não só terão que pagar uma taxa de entrada à Apple como dividir todos os lucros com ela–não há apelações, não há outro acordo.

Eu confesso que o iPhone me atraiu extremamente no começo pela inovação da interface, pela elegância e pela facilidade de uso. Mas estou cada vez menos interessado em uma plataforma fechada. A ironia é que, em uma semana onde a Microsoft está surpreendendo o mundo Web ao liberar cada vez mais informações e começar a acatar feedback em áreas complicadas–indo ao ponto de liberar informações em licenças Creative Commons–a Apple dá uma de Microsoft. O mundo gira e gira.

Para piorar a situação, a Nokia decide puxar para o lado do Silverlight e tornar a confusão ainda maior. E depois tem gente que diz que o Android não é relevante. Com tanta coisa se fechando em uma área que já é muito mais fechada do que necessário, algo como o Android é fundamental para garantir inovação e livre concorrência.

É claro que o SDK da Apple vai fazer sucesso. As pessoas, 28% do mercado delas, querem aplicações e não são 99 dólares e 70/30% que vão impedir isso. Mas há quem se importe mais com o resto. Para essas, liberdade é o que conta.

Atualização: Sim, a Apple está se posicionando para monopolizar o mercado móvel. Considerando como o mercado funciona, isso será muito bem-vindo por todas as partes envolvidas. Até que cinco anos se passem e todo mundo esqueça disso e comecem a tentar derrubar a Apple.

O Android é importante por isso. Mesmo com as estranhezas do Google por trás, é uma forma de não deixar nem Apple, nem Nokia ou qualquer outra matarem o mercado. Um fornecedor só é suicídio eventual.

Isso é tão direita e esquerda que eu fico até com medo. :-)

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March 5th, 2008 § 7 comments § permalink

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