FISL, dia 2

April 19th, 2008 § 2 comments § permalink

Segundo dia do FISL. Depois da agitação de ontem, acordei um pouco mais tarde e cheguei por volta das dez. Como a primeira palestra da qual eu queria participar era às onze, não tinha tanto problema. Infelizmente, a Internet local estava ainda pior do que ontem e não deu para atualizar basicamente nada durante o dia. Sobrou mais tempo para o networking, o que acaba sendo melhor ainda.

A primeira palestra que vi foi sobre o Coding Dojo. Como eu tinha começado a organizar um em Belo Horizonte–que agora, inclusive, acabou meio mudando de formato e que infelizmente não vou poder acompanhar–eu tinha interesse em saber se tinha começado da maneira correta. Essencialmente, a resposta foi sim embora algumas coisas talvez pudessem, é claro, ter sido feitas de uma maneira mais eficiente. Na verdade, ao invés de ser uma palestra, foi realizado um Dojo local mesmo com um Randori Kata sobre o problema de números romanos. A estratégia foi interessante, mas acabou saindo com um tiro pela culatra. Mesmo com a participação de voluntários da platéia, o processo ficou um pouco lento–em parte pela escolha de Java e Eclipse–e metade da sala que estava lotada no começo acabou indo embora mais cedo, alguns reclamando que não estavam entendendo direito. O motivo provavelmente foi fazer o TDD em baby steps excessivamente pequenos que, para quem não está acostumado com a filosofia TDD acaba parecendo um desperdício de tempo. Pena que não deu para ficar até o final porque eu queria ver outras coisas, mas foi bem legal.

Um pouco mais tarde foi a palestra do Rasmus Lerdorf, criador do PHP, cujo título era Large Scale PHP. Eu achei que seria sobre escalabilidade–afinal de contas ele começou falando que o Yahoo! o contratou para reescrever todos os produtos em PHP–mas isso tomou somente a parte inicial da palestra. O resto foi sobre como lidar com problemas de segurança em aplicações Web usando o PHP como exemplo mas em coisas que são válidas para qualquer aplicação. Interessante mas eu esperava exemplos mais práticos de como o Yahoo! lida com zilhões de conexões por dia e coisas assim.

Na seqüência vi uma sobre o impacto econômico do FLOSS, por um pesquisador de economia de uma universidade na Holanda. A palestra foi muito boa, começando pela exploração do tema de uso econômico sem dinheiro, algo que é totalmente dentro da esfera do software livre. O palestrante explorou o tema de troca (reputação, valores, etc) que envolve o software livre e como isso representa uma porção significativa da criação de recursos no mundo moderno de TI. Segundo ele, em 2010 o FLOSS representará 30% de todo o parque tecnológico mundial e 4% do PIB do mundo todo. E isso, em sua maior parte, movimentando tempo e não dinheiro já que a maioria dos programadores envolvidos com FLOSS vendem tempo e não produtos (e a maioria para produção in-house). Recriar todo o FLOSS gerado até 2005 envolveria a bagatela de 12 bilhões de euros e 163 mil anos-homem.

A última palestra que vi foi sobre domínio público e direito autoral que foi muito bem dada, por sinal. Os palestrantes estão envolvidos com o Creative Commons no Brasil e repassaram, com muito humor, a história do copyright e de como chegamos ao ponto atual em que o domínio público é algo bem problemático. Mas para não ficar no teórico, apresentaram dois cases, um do uso e disponibização em domínio público de material criado pelo SESC/Rio e outro da recuperação de obras de domínio público do Noel Rosa.

No resto do dia, aproveitei para continuar a me encontrar com o pessoal que conhecido e pouco visto. Hoje foi a vez de encontrar figuras com o Metal (com quem só me encontro por acaso em filas de cinema e eventos em outras cidades mesmo quando morava em BH), o Thiago Souza (que gerou uma dissonância cognitiva porque estava esperando um negão de dois metros de altura depois de ter confundido a fota dele no IM com a de outro Thiago), o Cesar Cardoso, um monte de gente dos movimentos livres de Brasília, e mais outra porção de gente que eu vou custar a me lembrar.

E para terminar, restaurante com a Thais (Brasigo como eu), Gabriel e Pedro (UOL) e mais um cara do Google (se não me engano, Rodrigo) em um bom restaurante no meio da cidade. Mais papo legal.

Agora é hora de dormir porque amanhã tem mais. Inclusive, palestra de Seaside para começar o dia. :-)

FISL, dia 1

April 17th, 2008 § 2 comments § permalink

Primeiro dia de FISL. Cheguei por volta das nove e meia e o local estava transbordando com mais o que os organizadores disseram ser mais de sete mil e quinhentas pessoas. O credenciamento estava tão impossível que a organização removeu a obrigação do crachá até as quatro horas da tarde. Mas o clima era meio festivo como sempre acontece nesses super-eventos onde 90% do público é geek. Desde que as redes funcionassem e os velhos amigos se encontrassem tudo estava bem.

A primeira coisa que eu fiz foi me enfiar em uma sala e decidir quais palestras eu veria. Com mudanças de programação de última hora, a grade que eu tinha estava completamente desatualizada. Para rolar um networking interessante me limitei a cinco palestras por dia mas com objetivo de ver talvez quatro.

Feito isso, parti para as palestras. Acabei vendo três e passando o primeiro dia mais em conversas com as dezenas de pessoas que eu conhecia pela Internet e estava encontrando pela primeira vez. O pessoal de Ruby e Rails apareceu também e passei algum tempo no estande montado por eles–mais para roubar energia e banda, eu confesso. :-)

Das palestras, a primeira que vi por completo foi do Josh Berkus sobre segurança e PostgreSQL. A palestra se provou bem interessante porque os conceitos são aplicáveis a qualquer aplicação e qualquer banco. Depois aproveitei para conversar um pouco com ele sobre segurança de aplicações Rails. Ele disse ter tido experiências bem ruins com a comunidade e que acredita que a maioria dos programadores Rails não pensa em segurança achando que filtros são suficientes para garantir tudo–o que, de maneira bem geral, é verdade. Depois conversamos um pouco sobre os desafios de transformar uma aplicação Rails para funcionar dentro dos parâmetros que ele descreveu, o que não é uma tarefa fácil.

Depois disso, assisti ao Ken Coar, da Apache Foundation, hacker extraordinaire cujo blog leia há anos. Ele falou sobre as dificuldades de comunicação em software distribuído e como elas acontecem mesmo em times pequenos. Foi bem interessante ver as idéias dele sobre o porquê disso e como resolver algumas situações de maneira simples.

A última palestra que consegui ver foi a de integração entre aplicações RIA e Comet com os autores do Daily Comet. Bem interessante, embora um pouco seca às vezes pelo uso excessivo da leitura de slides. Ainda assim, material interessante.

O resto do dia foi dedicado a conversas extensas com todo o pessoal que estava lá. Júlio Monteiro, Carlos Eduardo, Michel Felipe, Lincoln de Souza, Lucas Húngaro, Rodrigo Sol, Weldys Santos e uma porção de gente que eu não vou lembrar agora de nome.

A única reclamação é a conexão à Internet no evento. Simplesmente deplorável. É impossível mandar qualquer coisa quando você esta entrando e saindo da rede de cinco em cinco segundos. Bateria de notebook nenhuma agüenta ficar procurando rede o dia todo.

Mas no final do dia, eu estou como o Neo no treinamento:

— You want more?

— Yes, please!

Alturas

April 16th, 2008 § 0 comments § permalink

Hoje foi um dia daqueles em que tudo dá certo mas você fica com a sensação de que tudo deu errado de tão cansativo foi fazer tudo o que se precisava fazer. Manhã correndo atrás de documentos e providências, tarde correndo para o aeroporto para o vôo e resolvendo alguns pepinos que foram aparecendo. As peças vão se encaixando e pelo menos a sensação de que se está movendo é bem-vinda nesse momento.

Entrei no avião mais morto do que vivo. Na hora da decolagem, turbulência próxima do solo, relâmpagos na noite escura. Mas o avião vai subindo e de repente você está acima das nuvens, olhando para um céu onde o dia ainda não se pôs de todo. O burburinho da conversa no avião se torna um ruído remoto, subjugado pelo som dos motores. E finalmente há um pouco de paz.

Há dias em que as coisas parecem erradas, mas em um momento desses é difícil não se sentir tocado pelo divino.

Rumando para o FISL

April 15th, 2008 § 4 comments § permalink

Amanhã estou partindo para o FISL. Sendo minha primeira experiência com esse “mega-evento”, imagino que vai ser bem divertido participar e encontrar a moçada toda que vai estar lá. Só espero que a cidade não esteja congelando porque eu não estou muito preparado para essa eventualidade. Vamos ver o que acontece. :-)

Alias, e alguém tem dicas para lidar com o dia-a-dia do evento lá, eu agradeço. Pela quantidade de coisas que estão marcadas, é óbvio que não dá para seguir tudo e eu gostaria de aproveitar as coisas interessantes que passam desapercebidas. Qualquer dica é bem-vinda.

Para o pessoal que comentou aqui, nos vemos lá.

A mente sem consciência

April 15th, 2008 § 2 comments § permalink

Eu não vou presumir que entendo mais do que um parte relativamente pequena do estudo publicado essa semana na Nature (link [via][2] o estupendo Peter Watts), mas a premissa do mesmo é que o cérebro começa a agir em certas decisões até 10 segundos antes que as mesmas sejam percebidas conscientemente.

Watts tem um comentário mais extenso do que eu pretendo fazer aqui, mas as implicações são bem interessantes. Como ele menciona no seu texto, é cada vez mais óbvia a diferença entre consciência e mente. E isso em um plano puramente físico, implicações filosóficas à parte. Obviamente, o debate sobre o assunto está só começando mas é um debate que com certeza vai suscitar opiniões radicais de todos os lados.

Como cristão, o conceito de livre arbítrio sempre foi algo de interesse dentro da filosofia/teologia dentro das quais minhas crenças existem. Existem correntes que vão desde a completa ausência do livre arbítrio–por supostamente violar a soberania e onisciência divina–até as que defendem um livro arbítrio tão completo que teria sido cedido pela Divindade em uma limitação auto-importa. As diferenças entre tricotômicos (espírito, alma/mente e corpo) e dicomtômicos (espírito/volição e corpo) são outro ponto de interesse dentro dessa questão do que realmente é a mente e onde a alma se encaixa nesse contexto.

Eu me confesso bem curioso sobre essas novas descobertas. Mesmo não sendo um Calvinista, minha visão de consciência e livre-arbítrio sempre foi mais próxima desse segmento (com a ressalva que consciência, usada em um contexto cristão, significa algo totalmente diferente da uso científico–âmbito moral versus conhecimento de sua própria existência, se alguém quer investigar mais). Essas novas descobertas só ajudam a colocar um pouco mais de lenha em um debate que já dura mais de 400 anos. Não vejo problemas: nesse caso, são as dissensões que tornam a coisa ainda mais interessante.

Gerenciamento de expectativas

April 11th, 2008 § 1 comment § permalink

Toda e qualquer metodologia ou ferramentas ágil só tem um objetivo básico: o gerenciamento de expectativas. E isso é bem irônico.

Seres humanos são complicados. Software é inerentemente difícil e é bem possível que nunca encontremos uma silver bullet, embora alguma forma da mesma seja necessária para o tipo de futuro explicitado pelos proponentes da computação ubíqua ou da singularidade tecnológica.

Enquanto essa silver bullet não aparece, continuamos com a velhas técnicas e com a consciência de que o processo permanece o mesmo. Daí a adoção de “processos ágeis”. O objetivo é remover a fumaça e colocar em evidência o fato de software continua sendo uma proposição duvidosa.

E não, isso não é cinismo. É uma mera constatação de que, pelo menos no momento, estamos mais conscientes das nossas limitações.

Dois pequenos avisos

April 10th, 2008 § 2 comments § permalink

Duas notinhas:

  • O OpenID ainda não está operacional. Eu tentei instalar a nova versão do plugin que eu uso, mas sem sucesso. A página de status diz que está tudo certo, mas não funciona. Qualquer dica é bem-vinda.

  • Eu não me esqueci de algumas promessas que fiz aqui. É só que a transição para São Paulo está consumindo mais recursos de processamento do que eu esperava. Normal, mas parece que eu estou pendurado do lado de fora de um trem em alta velocidade. :-)

Pão de Cast S02E07 – Have laptop, will travel

April 10th, 2008 § 2 comments § permalink

Como sempre, só publicamos o Pão de Cast quando todo mundo está reclamando. A nova edição já está no ar e espero que vocês gostem.

Só pedimos desculpas pela qualidade: como eu, o editor, estou me estabelecendo em São Paulo e ainda não estou com minhas ferramentas usuais, o áudio ficou péssimo.

Meio termo

April 9th, 2008 § 3 comments § permalink

Ser proponente de código livre não é:

  • Usar código livre. Isso qualquer um faz, principalmente quem quer “economizar” um graninha e contar vantagem ao dizer que apoia a comunidade livre.
  • Extrair alguma coisa e dizer que você fez porque era livre. É muito fácil pegar o trabalho dos outros e empacotar em um formato um pouco diferente–botar uma embalagem diferente–e dizer que você fez aquilo. Difícil mesmo é contribuir com algo de substancial.
  • Modificar e liberar dizendo que você inventou. Esse é um dos piores e menos éticos. Código livre não excluir o direito de quem criou aquele trecho de código ou aquela ferramenta. Pegar algo que alguém teve o trabalho de fazer, modificar um pouco e dizer que é seu é uma das piores coisas que se pode fazer em termos de código livre. Há um círculo do inferno reservado para quem remove o crédito anterior e faz um trabalho passar por seu. Você pode até ter modificado substancialmente–esse é o espírito–mas ignorar o fato de que outros também trabalharam é desprezível.
  • Deixar de devolver algo. Passar a vida inteira ganhando sobre o código livre e não devolver suas alterações é outra atitude que possui um círculo reservado no inferno.

Eu não me importo com quem só usa proprietário. Mas quem fica do meio do caminho não merece consideração. E tudo bem, podem me chamar de radical agora.

O novo usuário médio

April 8th, 2008 § 0 comments § permalink

Hoje estávamos contabilizando idades na equipe–um exercício pueril–e me dei conta de que estou na situação em a quase totalidade da mesma está abaixo de mim em idade. É engraçado, porque foi a primeira vez em que me dei conta da inversão. O que não quer dizer absolutamente nada, é claro, mas encaixou com uma conversa que tive mais tarde com o Lemos sobre a nova geração que já está crescendo com a Internet e as profundas mudanças sociais que isto já está trazendo.

Como eu nasci em uma geração que não tem esse perfil, eu tento me manter longe de choques futuros desenvolvendo para o segmento. Até o momento eu tenho tido um sucesso razoável em permanecer dentro da fração da população que está ativamente envolvida com esse futuro em particular–se não necessariamente criando na maior parte do tempo, mas pelo menos participando.

Mas, o interessante dessa conversa posterior foi perceber que estamos a pouco tempo de um enorme momento de transição. A maioria das pessoas que se relaciona com Internet em uma base regular e que esteve no início do uso no Brasil, por exemplo, traça suas raízes com a Web nos anos de 93 a 98. Já se vão, portanto, 10 a 15 anos de evolução. Considerando que o Brasil possui um lag óbvio e olhando para a própria história da Internet como um todo, temos um recuo de 20 a 25 anos. Isso é, essencialmente, um geração.

Em outras palavras, há um geração que já está inserida completamente dentro de um contexto de Internet. Esse momento já chegou. É claro que como existem outros fatores que impactam na adoção e popularização das ferramentas (preços, banda, limitações tecnológicas, etc), o potencial que deveria estar nas mãos dessa geração não está completamente realizado. Mas é curioso pensar que os filhos dessa próxima geração nascerão em um contexto ainda mais fundamentalmente diverso do que estamos experimentando hoje.

O que me lembra do conceito de usuário médio, que ainda serve como referencial de criação. Esse usuário já anda precisando de uma revisão–um upgrade se você quiser–em capacidades e aspirações. O maior desafio de qualquer nova aplicação hoje é condensar e catalisar essas necessidades.

Isso leva à quase cômica idéia de a velha guarda já está experimentando sinais de fadiga (nada mais do que choque futuro). Quando alguém diz que não tem a menor utilidade para lifestreaming, eu só consigo ver os reflexos dessa substituição. Eu vejo a minha relação com o Twitter nesse termos. Há uma classe inteira de usos/funcionalidades que passam completamente batidos a menos que se considere essa mudança.

Tanto melhor. I, for one, welcome our new information overlords.

Where am I?

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