Uma questão simples

May 5th, 2008 § 8 comments

Em The Mythical Man-Month, Frederick Brooks afirma que a década após a publicação do livro não traria nenhuma “silver bullet“, isto é, nenhuma mudança de uma ordem de magnitude no processo de desenvolvimento de software através de alguma tecnologia nova. A afirmação já se sustenta há mais de 30 anos.

Pergunta: quando a inexistência de uma silver bullet se tornará um impedimento para a produção de software? Em outras palavras, existe um limite para o desenvolvimento com as tecnologias, ciência e ferramentas que temos hoje?

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§ 8 Responses to Uma questão simples"

  • Sim, existe um limite, e vale tanto para as tecnologias que temos hoje quanto vai valer para as que teremos daqui a 30 anos.

    É aquilo o que o próprio Brooks chama de complexidade essencial. Ou, simplificando, nas palavras do Knuth: “software is hard”.

  • Ronaldo says:

    Sim, eu concordo com a complexidade essencial e o que Knuth diz. A minha questão, na verdade, é a seguinte: existe um ponto em que as tecnologias atuais tornam impossível o desenvolvimento de uma nova classe de programas; ou seja, existe uma barreira em um futuro relativamente próximo que não pode ser ultrapassada com o tipo de ferramentas que temos hoje?

  • Witaro says:

    Ah, como resistir a tentação de filosofar sobre tecnologia… Acho que existe uma barreira e “esbarramos” nela constantemente, mas não se trata de ser uma barreira boa ou ruim, trata-se da natural limitação proveniente das nossas visões e, claro, das ferramentas que essas visões conceberam numa espécie de ciclo retro-alimentado. Enquanto o coletivo físico natural parece tender a entropia, o coletivo das idéias (não no sentido platônico) parece tender a sintropia (contrário de entropia), causada por uma crescente inter-relação e inter-dependência que visões/idéias e ferramentas/tecnologias adotadas em um certo momento vão criando em torno de si. Se por um lado isso aumenta a coerência/adoção, por outro pode torná-lo um quase “fim em si mesmo” que pode aliená-lo de uma realidade vivida, diminuindo sua abrangência como solução real – “Silver Bullet wanna be”. Lendo sobre os trabalhos de Kurt Gödel eu criei uma teoria maluca, penso que quanto maior a coerência, menor a abrangência e vice-versa (embora ele não defenda exatamente isso). Quando acordamos? Talvez quando um visionário herege caminha por onde ninguém teve coragem de seguir antes (ou pelo menos ninguém antes teve capacidade de compartilhar bem) e cria concorrentes para os modelos vigentes… Até se transformar no próximo ditador a ser destronado.

  • Ronaldo says:

    Então, o Peter Hundermark, que está sendo o nosso “coach” Scrum, estava falando a mesma coisa outro dia quando estávamos conversando sobre o assunto. É essencialmente uma questão de mudar o pólo: sair do eixo tecnológico e mover-se para o eixo (inter-)pessoal. Isso essencialmente resolve a questão da silver bullet dentro do contexto atual de desenvolvimento.

    Eu concordo com você: coerência e abrangência tendem geralmente a se polarizar também. Ultimamente, eu tenho pensado que a solução última, por assim dizer, depende de um breakthrough em outra disciplina que terá o mesmo efeito que os transistores tiveram originalmente. Atualmente, ainda estamos presos de mais à lei de Moore para considerar isso.

  • Existe um e apenas um limite para o uso de qualquer tecnologia, por mais avançada ou atrasada que seja: a criatividade humana.

    []’s
    Cacilhas, La Batalema

  • Ronaldo says:

    Não que eu discorde: o problema está nos aspectos práticos disso. Eu estou particularmente interessado em exemplos como wearable computing, metaverses e se a tecnologia atual dá conta do recado. O que você acha?

  • Do ponto de vista prático, em algum momento – situacional, não é temporal –, para se obter determinado resultado são necessários muita masturbação sintática e muito «workaround» – gostou do eufemismo estrangeirista pra «bacalhau»? =P

    Assim de pronto não tenho algum exemplo para citar, mas sinto isso no dia-a-dia de trabalho: as tecnologias atuais nem sempre facilitam nossa vida ou são suficientes.

    []’s
    Cacilhas, La Batalema

  • Ronaldo says:

    Hehehehe, boa colocação. Bem, realmente há esse problema. Nós vivemos esbarrando com os limites aqui e ali, mas como a lei de Moore ainda vale, conseguimos contornar com um certo esforço.

    Há uma grande discussão de a lei de Moore vale indefinidamente. Eu tenho cá comigo que não e que será necessário um salto qualitativo. Eu sei que Brooks discorda, mas acho que esse salto será ortogonal (quantum computing, bio-computing, ou coisa assim).

    Eu gosto do que Alan Kay, Dan Ingalls e o resto do pessoal mais vanguarda está fazendo com a questão da “Passos para a reinvenção da programação”. Não sei se vai dar certo, mas me dá um ânimo. :)

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